Moving Cultures: mobile communications in everyday life – Introdução

Introdução

Por Bianca Becker

O livro apresenta o relato de uma pesquisa etnográgica que explora as dimensões sociais e culturais da chamada “mobile turn” (era da mobilidade) na comunicação cotidiana e as múltiplas maneiras em que cada uma destas novas práticas comunicacionais participam da produção cotidiana da cultura. A. Caron e L. Caronia iniciam sua argumentação a partir de algumas questões cruciais: Como as tecnologias emergentes conferem significado à vida diária? Como elas criam as identidades dos atores sociais? Como os atores, por sua vez, atribuem significado às tecnologias de comunicação móveis? Como eles incorporam estes dispositivos em suas redes culturais de sentidos através do uso diário?

Nas décadas recentes o universo das tecnologias de informação e comunicação tem testemunhado um turbilhão de mudanças e inovações. Ao longo dos séculos os humanos têm repetidadamente inventado técnicas e suportes para aprimorar o fluxo de informação e comunicação, tais como a invenção e adoção da escrita, da imprensa, da fotografia e do telefone, assim como a mudança para a era digital. Estes seriam alguns exemplos de soluções para o problema – aparentemente intransponível – da superação dos limites e restrições da comunicação face a face. Cada um destes instrumentos de comunicação representou um ponto de inflexão cultural para sua era e para as comunidades em questão. Portanto, estes constantes avanços nas técnicas de comunicação e informação e as profundas transformações culturais que eles engatilharam não são fenômenos novos, ainda que o senso comum argumente o contrário. O processo de construção mútua de tecnologia e cultura é um dos fenômenos mais estudados pelos cientistas sociais interessados em evolução humana e desenvolvimento cultural. O que, no entanto encontra-se em aberto é o tipo de inovação proposta em cada tempo por uma “nova geração” de tecnologias, na medida em que é sempre a posteriori que são reconstruídas as formas de interação e os modos de vida que cada tecnologia ajuda a criar.

AS TECNOLOGIAS DE COMUNICAÇÃO EMERGENTES NA VIDA DIÁRIA

Ao tornarem-se parte do cotidiano, os instrumentos comunicacionais nos libertaram da maior parte das restrições espaciais e temporais que governam nossas vidas. Este fato trouxe ramificações para além da habilidade de gerenciar as múltiplas e simultâneas tarefas que caracterizam a vida contemporânea. Esta função puramente prática esconde profundas questões sociais e culturais, pois tais tecnologias nos levam a repensar e recriar aspectos cuturais relacionados aos modos de conviver. Até os conceitos mais simples que compõem o conhecimento cotidiano” (conjunto de conhecimentos práticos que nos habilitam a interagir de maneira culturalmente apropriada) não podem ser dados por certos: “estar presente ou ausente”, “estar aqui”ou “estar lá”, “estar sozinho” ou “estar com alguém” – rótulos lexicais que requerem redefinição.

O mesmo pode ser dito para os “rituais de interação cotidianos”, ou seja, os códigos culturais compartilhados que nos permitem participar dos encontros sociais de uma maneira coordenada e mutuamente compreensível. Os autores citam o exemplo dos telefones móveis – ferramenta contemporânea que melhor representa os desafios culturais da era da mobilidade na comunicação cotidiana. Eles pontuam que manter os telefones celulares ligados durante uma reunião de almoço por exemplo, requer negociação sobre direitos e deveres, expectativas, e até mesmo sobre boas maneiras de interação face a face entre os participantes e os chamados “participantes fantasmas” que podem se juntar a eles ao entrarem na conversa corrente. Pessoas que vivem “lá fora” podem estar “aqui” em qualquer momento, mudando assim a estrutura de participação do evento. Originando novas formas de interação, estas tecnologias nos obrigam a repensar os modelos culturais de encontros sociais. As transformações culturais trazidas pelas novas práticas comunicacionais vão além da estrutura de participação nos eventos sociais. Elas também levam a reconstrução dos laços sociais e relações interpessoais.

O fato de pais e filhos poderem permanecer em contato mesmo fisicamente distantes, faz dos telefones celulares algo muito maior do que uma simples tecnologia para atividades coordenadas. Dessa forma as tarefas parentais tais como o exercício de responsabilidade e controle enquanto fomentam a independência das crianças têm sido aparentemente realizadas de novas maneiras. Caron e Caronia apontam os telefones celulares como novos panópticos ao permitir a parentalidade a distância, obrigando-nos a repensar nossos modelos culturais de “ser pai/mãe” e “ser criança”. Estes são exemplos de como as tecnologias de comunicação emergentes transmitem significado à vida cotidiana. Uma vez integradas às nossas rotinas, elas reformulam sentidos possíveis: lugares, atores, relações recíprocas e os eventos típicos que os compreendem se tornam suscetíveis a novos modelos de realização e interpretações.

Os autores defendem, no entanto que o oposto também é verdadeiro: se os indivíduos são manipulados pela tecnologia, eles também a manipulam. Apesar de parecerem mestras soberanas da vida cotidiana, as tecnologias são no entanto, influenciadas por um sistemático processo de domesticação cultural. Adquirem ou perdem funções e são interpretadas por indivíduos de acordo com sistemas de referências compartilhados. Seus usos e significados são constantemente reformulados em ambientes situados e de acordo com os significados específicos de uma dada comunidade.

Os autores citam o uso adolescente dos SMS: flerte, fofoca, bate-papo como forma de engajamento em intermináveis trocas escritas. Eles reinterpretam a tecnologia para satisfazer as necessidades da sua cultura específica. A lógica da troca assíncrona do SMS é convertida na sincronia da coordenação mútua e adaptação permanente da conversação oral. Na cultura adolescente as mensagens de SMS deixam de ser o envio de informação rápido e curto para se tornar meio de conversação instantânea. Independentemente das formas de comunicação sugeridas e inscritas na tecnologia em si, os adolescentes têm radicalmente interpretado seus significados e funções de acordo com seus sistemas de referências culturais. Assim, situadas em dados contextos, as tecnologias são integradas pelas suas dimensões constituintes, com seu significado final definido pelo contexto e os atores nele inseridos. 

ANATOMIA DE UM PROCESSO: DOS ASPECTOS VISÍVEIS ÀS DIMENSÕES OCULTAS

Refletir sobre a relação entre comunicação móvel e construção da cultura requer a análise da anatomia de um processo de construção conjunta, já que a tecnologia molda e é moldada pela cultura. Os autores ressaltam a importância da pesquisa de campo para se transcender os aspectos mais gerais e visíveis deste complexo fenômeno e alcançar as questões mais sutis e os detalhes que geralmente fazem a diferença. Eles indicam que as propostas apresentadas por este livro emergem de uma pesquisa de campo realizada em oito anos, que mapeou uma área de investigação específica com a suposição metodológica comum a todos os pesquisadores empíricos: a análise sistemática de uma poção bem definida de uma realidade mais ampla pode esclarecer as características e processos menos visíveis do todo do qual fazem parte. Esta pesquisa empírica teve como objetivo investigar o processo de co-construção entre as tecnologias emergentes e a cultura cotidiana. A investigação visou inicialmente compreender a convergência das tecnologias nos lares e o papel dessa convergência na construção de uma estrutura e cultura familiar – e mais na definição de identidade dos membros das famílias. No entanto, foi muito mais além e investigou as práticas de comunicação móvel dos jovens e adolescentes, suas representações destas tecnologias e seu papel no cotidiano.

Caron e Caronia afirmam que os telefones móveis são um interessante tema de pesquisa pois abrangem muitas características das tecnologias de comunicação emergentes e seus usos sociais. Este mesmo objeto pode ser reconhecido por diversos termos: portable, mobile, cellular, telefonino. Cada termo destaca um aspecto distinto de suas características.  Os autores justificam a preferência pelo termo “mobile” por sugerir uma dimensão social da tecnologia, pois o termo enfatiza uma nova identidade nômade dos atores sociais contemporâneos – ênfase nos aspectos técnicos da função “criação de mobilidade”. Outro motivo da escolha do tema foi a espantosa velocidade de adoção e disseminação destes dispositivos.

De acordo com discurso publicitário, a população jovem é vista como a melhor intérprete destes produtos. Tanto a pesquisa, quanto o entendimento comum deste fenômeno social concordam que os jovens não só adotaram esta tecnologia, como a integraram à sua vida cotidiana de maneira rápida e extrema. O notável desdobramento do processo de aculturação dessa tecnologia faz dos jovens uma categoria social particularmente reveladora das questões e características do processo. Segundo os achados da pesquisa apresentados neste livro, os jovens são extremamente inovadores e extremamente conservadores no uso das novas tecnologias de comunicação. Esta natureza dual da aproximação dos adolescentes com as tecnologias cria uma efetiva prova de fogo (justamente porque é extrema demais) para a relação inevitável relação entre criatividade e conservadorismo, inovação e incorporação cultural, que caracteriza a adoção das tecnologias, embora a extensão varie com o indivíduo. A escolha dos jovens como sujeitos da pesquisa oferece uma crucial vantagem analítica: as situações extremas revelam a natureza do que eles são: expressões paroxísticas (que se manifestam em crises ou acessos; momento de maior intensidade de um sentimento, de uma sensação ou de um estado). A análise crítica do excesso é portanto um atalho conveniente para esclarecer o que geralmente permanece moderada e, portanto, menos visível.

DO PONTO DE VISTA DOS USUÁRIOS: MULTIPLAS INTERPRETAÇÕES

Caron e Caronia pontuam que para compreender e destrinchar as múltiplas relações entre linguagem, interação, cultura e tecnologias no cotidiano é mais adequado examinar a micro-ordem da vida cotidiana. Esta mudança de escala de análise – que parte do olhar macro para o micro – torna o menor detalhe significante. Examinado pela lente da perspectiva etnográfica, estes detalhes revelam a medida que a cultura é gradualmente construída pelas pessoas através das suas interações contextualizadas. Os autores explicam então sua opção pela abordagem etnográfica, o que implica, mais do que numa escolha instrumental, principalmente na adoção de um paradigma teórico. Na etnografia, o que é perdido pela inabilidade de generalizar é compensado pela habilidade de capturar o processo de construção de significado.

Através da questão etnográfica crucial – Por que isto agora e de que ponto de vista? – o estranho (ou o estrangeiro) torna-se familiar e o familiar, suficientemente estranho para que sejam percebidas suas características e processos ocultos. Dessa forma, os pesquisadores estão mais interessados nas categorias que emergem a partir da interpretações dos atores sobre suas próprias práticas, do que em conceitos pré-definidos. Por este motivo conceitos como “origem social”, “renda” ou “gênero” não são aplicados nesta obra para explicar os usos (ou não-usos) da tecnologia, a não ser que os próprios atores citem este tipo de explicação para justificar suas ações e as dos outros. O esforço pontuado pelos autores é no sentido de atingir um equilíbrio entre o ponto de vista dos atores e dos pesquisadores para promover interpretações ao invés de explicações. Assumem a possibilidade de coexistência de múltiplas interpretações, nem sempre concordantes. Neste sentido, este livro oferece um panorama de múltiplos níveis de leitura da realidade social.

DANDO AOS ATORES UMA VOZ: POLIFONIA E ESCRITA

A opção pela pesquisa de campo de abordagem etnográfica implica numa reflexão geral originada a partir da análise de casos particulares, para tanto deve-se “fornecer o caso” que será abordado de diversas maneiras. Na etnografia das práticas comunicacionais situadas, “fornecer o caso” significa “dar voz aos atores”. A questão é: qual voz e como? Os autores pontuam que apesar das palavras, descrições e análises do pesquisador se originarem de um número de práticas de diálogos nas quais este participa ao lado dos informantes, a maioria destas interações permanece oculta ao leitor que se depara com um monólogo soberano do pesquisador. O apagamento do outro na escrita é um problema que possui facetas tanto retóricas quanto éticas porque a leveza aparente de um monólogo mascara a manipulação que não pode ser subestimanda. Portanto, a meta dos autores neste livro é produzir um texto que renda a riqueza completa de um encontro social entre seres humanos – que represente a complementariedade e algumas vezes a justaposição conflitante de vários discursos e considere centrais as diversas perspectivas interpretativas.

Daí a opção dos autores pela escrita polifônica, na qual o discurso acadêmico é combinado com as palavras situadas e vivas dos participantes nos diálogos destes com os pesquisadores no trabalho de campo. Estas palavras vivas são as verdadeiras fontes de análise. A escrita polifônica é, neste sentido uma estratégia retórica que reproduz a polifonia e o plurilinguismo específico da pesquisa etnográfica. Mais importante que o significado das palavras no discurso é a significância cultural e social inscrita nos modos que as pessoas conversam. Pretende-se assim elucidar as raízes interativas e sociais do discurso cotidiano, para preservar os traços de sua narureza fragmentada e aparentemente incompleta, linguisticamente distante do modelo padrão. Dar primazia ao discurso implica devolver aos atores sua voz e respeitar a riqueza de toda as práticas de comunicação, mediadas tecnologicamente ou não.

DIFERENTES LEITORES, MÚLTIPLAS LEITURAS

O deslocamento dos sujeitos em seus trajetos modernos itinerantes não implicaram num desenraizamento cultural ou na perda de pontos de referências culturais ou informacionais. Pelo contrário, as novas tecnologias supostamente tecem uma nova rede de contatos sociais e garantem a disponibilidade do conhecimento.

O primeiros capítulos contém uma descrição crítica dos novos cenários sociais engendrados pelas tecnologias emergentes (cap 1), reflexão dos objetos técnicos como atores assim como as pessoas, no processo de contrução da cultura cotidiana (cap 2) e uma análise da vida social das tecnologias e seus papéis na definição da identidade dos usuários, espaços e diferentes momentos da vida cotidiana (cap 3).  O capítulo 4 analisa a forma com que o discurso social tem contribuído para a crianção de significados das tecnologias de comunicação: publicidade. Os capítulos seguintes exploram o universo da cultura móvel da juventude contemporânea. Acompanhando o cotidiano de um grupo de adolescentes e adultos jovens, os capítulos 5, 6, 7 e 8 exploram a incorporação das tecnologias numa comunidade de práticas e seus papeis na crianção da comunidade em si. Os jovens não formam um comunidade fechada, eles servem de ponte que liga diferentes comunidades de práticas no espaço urbano, atravessando fronteiras rotineiramente. O capítulo 9 é dedicado as relações transgeracionais, ressaltanto o ponto de enconto entre a cultura tecnologica de pais e filhos. A presença das tecnologias na família é um condutor de mudanças e por este motivo o seu papel na reconceituação do que é família não pode ser subsetimado. As tecnologias são assim usadas como uma ferramenta poderosa na tranformação das práticas e modelos culturais que definem papéis parentais e outros papéis.

O capítulo 10 reflete uma dimensão ética e estética da cultura tecnológica ao sublinhar o papel das tecnologias de comunicação emergentes na contrução de uma nova consciência do outro na cena pública.

Entre as consequências culturais minimamente visíveis da era da mobilidade na comunicação cotidiana, estes aspectos desafiam a maioria das suposições do senso-comum. A despeito do que se imagina, a disseminação dessas ferramentas na vida cotidiana não produz indivíduos isolados, alheios às restrições sociais, nem desencadeou um processo de globalização de práticas sociais padronizadas. Traçando a anatomia das maneiras que os indivíduos usam certos artefatos culturais, a pesquisa apresentada por Caron e Caronia se propõe a esclarecer como e em que medida as tecnologias de comunicação desempenham um papel na criação de identidades, laços sociais e vida cotidiana. Os autores pretendem com este livro ilustrar as dimenções cruciais da cultura móvel contemporânea, da qual todos nós participamos.

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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