Moving Cultures: mobile communications in everyday life – Capítulo 1

Capítulo 1 – Novos Cenários Sociais

Por Bianca Becker

A mediação das novas tecnologias desempenha um papel revelador na relações cotidianas no espaço e no tempo. Novas convenções têm aparecido ao lado de antigas que têm resistido. Espaço e tempo tem mudado e adquirido importância singular. Os autores expõe algumas perguntas-chave que ilustram a necessidade de repensar estes e outros conceitos socialmente compartilhados: Onde estamos quando interagimos com os outros nas redes digitais? Quando nós estamos (em que tempo) ao estabelecer trocas instantâneas com pessoas em um fuso horário completamente diferente? O que é real quando nossos relacionamentos ocorrem cada vez mais no mundo virtual? Numa sociedade que está se tornando cada vez mais interconectada, na qual nos encontramos literalmente mergulhados em crescentes e acelerados fluxos de informação, como nós podemos negociar nossos relacionamentos com os outros e as tecnologias? Há algum risco de que a realidade da experiência sensorial possa ser substituída pela virtual, já que estamos rodeados por um número cada vez maior de telas, as quais têm se tornado nossa referência principal de mundo? Estamos nos comprometendo ainda mais profundamente com um mundo de realidade virtual o ou real virtualidade?

Para compreender estas questões, é proposta a formulação de três cenários que circunscrevem a nova mediação tecnológica e discutem alternativamente a deslocalização e a multilocalização de si mesmo, a hibridização (hibridação) do tempo, e a morte do silêncio.

1.1 Procurando o “onde” e o “quem” das nossas comunicações

Desde a década de 80, novas mídias têm gradualmente adentrado o espaço familiar e estas se diferem das antigas mídias de massa de modo crucial. [NICTS – new information and communication technologies] Os computadorem em rede e desde 94, a Internet possui uma funcionalidade especial em ser interativa, e portanto, em fazer a comunicações bidirecionais e multidirecionais possíveis. Isto nunca havia sido alcançado pela mídia tradicional. Milhões de pessoas estabelecem hoje relações comerciais e sociais em redes digitais e estas ocorrem sem nenhuma ancoragem territorial real. Enquanto nossos corpos físicos na verdade continuam em ambientes reais, “muito da nossa vida consciente migrou para o universo temporal de relações de acesso” (Rifkin, 2000). Os autores afirmam ainda que quando nos comunicamos em redes digitais, estamos geralmente sozinhos, no mínimo fisicamente.

Algumas pessoas afirmam que nas sociedades em rede (conectadas) a distância espacial se torna menos relevante e inversamente, “as relações pessoais adquirem grande importância, mesmo que não possamos assegurar com fidelidade quem são aqueles com quem estabelecemos relações” (Boltanski & Chiapello, 1999). As novas tecnologias são constantemente criticadas (acertadamente ou erroneamente) por distorcerem a chamada comunicação natural – idealizada pela sua forma face-a-face. De fato, enquanto a sociedade em rede (de predomínio das comunicações à distância) toma emprestado algumas expressões pelas quais a intimidade e o mundo doméstico privado identificam a si mesmos (relações pessoais, confiança, face-a-face), ações e mecanismos com os mesmos nomes permanecem muito diferentes nos mundos real e virtual (tais como amizade, afinidade, encontro).

Nas sociedades tradicionais as esferas públicas e privadas são claramente distintas. Na esfera pública, princípios e deveres estão oficialmente ligados e os papeis sociais prevalecem, enquanto relações íntimas e pessoais são menos importantes (esfera privada). Ao contrário, numa sociedade conectada, onde as esferas pública e privada se entrecruzam, o espaço público físico perde parte da sua função como uma locação para encontros e trocas e se submete às exigências da circulação e visibilidade. A realidade das novas tecnologias é permitir contato instantâneo com outras pessoas apesar da distância física que os separa e esta considerável mudança no cenário da comunicação tem sido a norma. Interações síncronas proporcionada pela telefonia móvel ou pelas mensagens instantâneas – independente de onde a pessoa esteja localizada – tornou-se rotina, o que gera a impressão que as distâncias geográficas estão desaparecendo (Cairncross, 1997).

No entanto, estas distâncias não desaparecem de fato – elas permanecem bem reais, tanto materialmente quanto mentalmente. Estaríamos, portanto, observando uma mudança na noção de distância? Os pais que recebem contatos dos filhos que moram distantes sentem que estes estão menos longe, mas eles ainda estão fisicamente separados e esta distância é impossível de ser ignorada. Neste caso, pais e filhos ocupam diferentes espaços, outra locação quando estão comunicando sincronicamente e isto muda a forma deles se relacionarem. Poderia se pensar que as novas formas de contato facilitado abrem novas possibilidades de desenvolvimento e manutenção das relações humanas, no entanto é um erro considerar certo que tudo mudou e que nós estamos agora num mundo onde todos estão constantemente inter-relacionados. Solidão e isolamento social ainda existem: a possibilidade de comunicação não significa que ela irá se realizar. As tecnologias não criam automaticamente relacionamentos fortes e permanentes entre as pessoas, os laços sociais usualmente vêm antes e estão sempre situados para além das possibilidades tecnológicas. Dessa forma, o conceito de distância entre os indivíduos perdura, embora seja agora visto de uma maneira diferente. Esta mudança na noção de distância sugere dois conceitos inter-relacionados: deslocalização e multilocalização.

1.2 Deslocalização

Os autores ressaltam um contexto socioeconômico de constantes deslocamentos, onde as tecnologias móveis se tornam potenciais locações para comunicação. O espaço se move e o “onde” perde sua noção de imobilidade. Uma real redefinição dos espaços públicos e privados está em curso, baseada na interpenetração e mesmo na aparente mistura do público e do privado, dos espaços profissional e íntimo. Esta publicização da esfera privada e privatização da esfera pública não é completamente nova. No entanto, com as novas tecnologias em geral, e mais precisamente com as tecnologias de comunicação móvel, o entrelaçamento do privado e do público está crescentemente afetando todos os lugares que vivemos a ponto de criar novas tensões dentro destas esferas de contornos cada vez mais borrados.

Nestes “espaços móveis” somos pegos desprevenidos e apesar de sabermos “com quem” estabelecemos contato, não sabemos ao certo “onde” nós os estamos contatando. Os autores apontam para novas ações de início de chamada telefônica: “Onde você está?”. A resposta a esta questão exige um ajustamento mútuo na conversa pois ambos os interlocutores têm consciência que o contexto irá influenciar na interação. A deslocalização das ferramentas de comunicação wireless, tais como os telefones móveis habilitam contatos diretos sem nenhum intermediário, e isto gera a impressão de liberdade e independência ao escapar da supervisão alheia (diferente do telefone fixo, que situava-se na área comum da casa próximo ao controle dos pais). Por outro lado, estes dispositivos móveis podem se tornar meios de supervisão e controle parental ao tornar possível a localização da criança.

De fato, um dos maiores resultados da disseminação dos telefones móveis é que ele modifica as interações na rede social e torna possíveis novas formas de coordenação mútua. Pessoas podem acabar vivendo um “teatro vivo” onde os telefones celulares agem como espelho – representando quem está onde, quando e fazendo o quê. Este cenário modifica o modo como estruturamos nosso dia-a-dia. O controle social e o engajamento coordenado em atividades conjuntas ocorrem no aqui e agora. No entanto, estas mudanças trazem consequências inesperadas: se no passado os encontros sociais eram planejados antecipadamente, atualmente os planos podem mudar a cada minuto – já que o lugar do encontro não depende mais de um espaço físico e a mediação tecnológica torna-se o ponto de encontro para as comunicações individuais com os outros.

1.3 Multilocalização

O fenômeno discutido anteriormente está relacionado de maneira complementar com a multilocalização do indivíduo. Através da superação das distâncias físicas graças à tecnologia que habilita a comunicação deslocalizada, os indivíduos podem estar em diversas locações físicas ao mesmo tempo. Uma das consequências diretas dessa situação é que os indivíduos podem atuar em diferentes papéis de uma só vez na vida cotidiana. Estamos nos acostumando a perceber nossos ambientes como povoados por ubiquidades. Para estar em vários locais ao mesmo tempo é necessário gerenciar um número maior de informação. Nós passamos constantemente de um mundo a outro, de um papel a outro e até mesmo de uma identidade à outra.

Ao falar num telefone celular, tiramos momentaneamente o foco da relação face-a-face para atentar outro lugar que está inacessível para aqueles que estão fisicamente presentes. Há um desligamento do ambiente compartilhado pelos interlocutores, promovendo uma quebra no momento em que estão juntos. Apesar da importância das comunicações nas suas vidas, os adolescentes admitem muito livremente que se sentem desconfortáveis quando um amigo interrompe uma conversa para atender o telefone celular. Uma pessoa que ignora a presença das demais em seu entorno por estar focada na comunicação mediada pela tecnologia certamente os fará se sentirem desconectados. Ainda que não se conheçam pessoalmente, as pessoas que compartilham o mesmo espaço público estabelecem acordos tácitos que marcam o grau do mútuo reconhecimento da existência do outro. (Goffman, 1959). Estar próximo a alguém envolto em outro lugar comunicacional devido à mediação tecnológica e ignorando nossa presença física leva portanto à irritação causada pela perda do respeito social que se espera. Adaptar estas mudanças nos espaços físicos e comunicacionais tornam-se assim um desafio. Lugares que não foram projetados para a comunicação tornam-se espaços comunicacionais: calçadas, carros, transporte público são agora usados para novos propósitos – espaços originalmente reservados para o trânsito são marcados por possibilidades comunicacionais).

1.4 Da identidade à Identificação

Atualmente, a questão “onde” tem se expandido crescentemente para cobrir a questão “quem”; a lógica da identidade localizada tem sido justaposta por uma nova lógica de identificação deslocalizada. A questão da identidade não pode ser dissociada da questão da locação, que não mais está limitada geograficamente. Desde que identidade é ao mesmo tempo locação e representação de si no mundo (Baudry, 1999), ela está ancorada na cultura e na política. Em certa medida, devido ao constante contato com estranhos, as novas tecnologias eliminam certezas, mas não as substituem por um novo sistema de referência. Assim, o que é específico a comunidades virtuais não é a realidade de uma identidade, mas um avatar de uma identificação autogeradora (Baudry, 1999). O uso regular das ferramentas de comunicação que permite a flutuação para obter nova mobilidade supõe o fim do conjunto de referências de identidade. Além disso, se a identidade se torna cada vez menos uma certeza e se o social torna-se mais fluido, o número de mecanismos de identificação expande e a identidade se torna menos determinada. Assim nos tornamos nômades novamente, mas de novas maneiras, estas estruturadas em torno das tecnologias móveis e resultando em “protean identities” (identidades proteanas) Paradoxalmente, o nomadismo vem combinado com um sedentarismo que inicialmente leva ao isolamento. Dessa forma, os autores reconhecem uma ubiquidade dupla: os objetos de comunicação estão em quase todos os lugares e graças a eles nós podemos estar em quase todos os locais ao mesmo tempo – tanto em diferentes lugares como em diferentes tempos.

1.5 O sintoma crônico do nosso tempo

O termo “Tempo Real” normalmente designa o “tempo sem espaço” e a instantaneidade possibilitada pelo uso das novas tecnologias de interação e comunicação (NICTs). De fato, a velocidade tende a eliminar o tempo de defasagem da comunicação que tradicionalmente resultava das distâncias. Há assim cada vez menos distâncias para cobrir e cada vez mais conexões para estabelecer, numa lógica disseminada de criação de relacionamentos comunicacionais baseados em instantaneidade (Bonneville, 2001). As novas tecnologias oferecem dessa forma, tempos desespacializados. O único espaço que permaneceria seria o da tela. Conexões via interfaces fazem o que a distância impede: ver, falar com os outros, trocar bens simbólicos, à distância e simultaneamente.

1.6 Perder tempo para economizar tempo

A economia de tempo é um dos motivos da adoção das novas tecnologias conectadas à internet, já que as transações eletrônicas são realizadas em tempo real (ex. compra na internet). Isto implica dizer que tudo está integrado num “momento presente” único que exclui qualquer referência de passado ou futuro. Para Bonneville (2001), o que é altamente significativo é que o tempo é visto em relação ao instante presente na sua habilidade para assegurar que os resultados serão atingidos sem delay. No entanto, o tempo economizado é real ou ilusório? Por um lado é real: a instantaneidade e velocidade na transmissão de dados de fato economiza tempo. Por outro lado estas tecnologias nos fazem perder um tempo precioso ao expor o usuário a um fluxo crescente de informação que deve ser processado, filtrado, analisado e gerenciado. A ideologia que cerca as novas tecnologias as associa com a capitalização de um dos mais importantes valores da pós-modernidade: o tempo. No entanto esta é uma ideia um pouco suspeita se compararmos, por exemplo, o tempo que gastamos ou que economizamos diariamente ao filtrar, ler e responder nossos e-mails.

1.7 Tecnologias no espelho retrovisor

O uso massivo do email trouxe outra dimensão às cartas pessoais enviadas pelo correio. Quando uma nova tecnologia substitui outra e estabelece um novo padrão de performance em uma dada atividade, a tecnologia precedente adquire um novo valor. O que estaria envolvido na concessão de uma nova estima dos meios de comunicação antigos? As tecnologias antigas funcionam contrariamente à lógica da economia de tempo das novas tecnologias e isto parece ter uma função ideológica de confirmação da equação tempo como capital supremo. Elas confirmam a equação tempo-valor ao expressar a generosidade de uma pessoa que opta por gastar tempo por nós (escrevendo uma carta, por exemplo ao invés de um email). Os valores entrelaçados das tecnologias antigas acarretam outras novas dimensões.

Como a escrita eletrônica tem se tornado um hábito padrão, a escrita à mão torna-se um sinal físico de individualidade e autenticidade (associados ao fenômeno da raridade) – adquirem uma nova aura (W. Benjamin, 2000[1935]). Benjamin discute a questão da autenticidade de uma obra de arte em relação à sua cópia, onde a propriedade autêntica só nasce a partir da possibilidade de reprodutibilidade da obra. Em outras palavras, para algo se tornar autêntico, deve existir sua versão não-autêntica (cópia), cujo trabalho possa ser comparado para que lhe seja conferida a propriedade de originalidade. Assim, a reprodutibilidade em si mesma cria o original (Henion e Latour, 1996) e o permite que seja considerado único. As cartas escritas à mão adquirem esta aura e um valor simétrico simbólico: são consideradas mais autênticas (quando comparadas às digitadas e mais ainda às enviadas por email). Em reação à chamada despersonalização da escrita eletrônica, a escrita à mão reestabelece a aparência da identidade autêntica do autor, a unidade da mensagem e a singularidade da pessoa que enviou.

1.8 Sincronia, assincronia e policronia

A urgência dos contatos e trocas que as tecnologias proporcionam podem estar associadas com novas sincronias e assincronias, sobretudo no que diz respeito à Internet. Os autores apontam situações na internet em que a assincronia pode ser até mesmo melhor que o tempo real pois fornece ao outro tempo para organizar e processar a informação disponível: e-mails, grupos de discussão, SMS, banco de dados, etc. Em contraste, os mecanismos comunicacionais que tornam possível o debate online – ou seja, uma conversação em tempo real sem nenhum lapso (salas de bate-papo, jogos em rede, mensagens instantâneas, comunicações por webcam) fornecem uma dimensão temporal imediata e síncrona e atraem os jovens. A natureza instantânea da comunicação não é nova, mas com as novas tecnologias de interação e comunicação, uma ampla gama de atividades é disponibilizada e combinada com outros aspectos, como a portabilidade.

As novas tecnologias e a internet nos permitem e em certa medida nos forçam a operar em múltiplos tempos simultaneamente. Isto é chamado pelos autores de policronismo (e é como se propõem a compreender os ambientes multi-tarefas, onde uma pessoa pode realizar diversas tarefas tanto em sucessão como simultaneamente). Esta polivalência simultânea é muito comum entre os jovens usuários da internet.

1.9 A morte do silêncio?

O silêncio é uma noção espontaneamente associada com o vazio e o nada, como uma simples ausência de som. No entanto, o silêncio pode ser visto também como uma forma de expressão. Linguistas estudam o papel do silêncio como uma ferramenta poderosa da comunicação humana. Sem colocar fala e silêncio em oposição, mas como dimensões complementares, o silêncio pode ser visto como um significado eloquente da comunicação. (ex. responder uma questão com silêncio pode ser muito significativo). No entanto, a interpretação do silêncio pode ser bastante ambígua, daí a importância de se considerar o contexto que o envolve. A expressão “morte do silêncio” se propõe a descrever o sentimento de muitas pessoas quanto às novas tecnologias em suas vidas diárias

1.10 Buscando ruído

Os adolescentes frequentemente veem o silêncio como uma dificuldade a ser superada. Consideram que a morte do silêncio reflete a necessidade das pessoas se comunicarem e está ligada positivamente à participação numa ampla rede de conhecidos. As novas tecnologias são vistas como meios de quebrar o silêncio comumente associado ao isolamento e a solidão que os adolescentes temem. Enquanto adultos associam o silêncio com paz e tranquilidade, adolescentes os associam com tédio e inatividade. Na perspectiva adolescente o silencio precisa ser preenchido por comunicação ou atividades de lazer, como os games. Eles admitem se comunicar para passar o tempo.

A adolescência é um período caracterizado pela necessidade de socialização com os pares. Assim um conceito como a morte do silêncio pode ser compreendido pelos adolescentes como a situação ideal em certo ponto. Estar constantemente disponível para a comunicação é um dos valores cruciais da cultura adolescente, o que pode no entanto desencadear uma certa obsessão por estar constantemente em contato (impressão da necessidade urgente de contato). Os adolescentes são confrontados com o fato da facilidade de comunicação se tornar contra produtiva, obrigando-os lidar com problemas na organização dos seus contatos de modo a evitar invasões.

Os silêncios nas trocas eletrônicas possuem significados que precisam ser definidos. As novidades nas novas tecnologias resultam em usos nos quais as regras e códigos ainda não estão bem definidos. No entanto, o crescimento das possibilidades comunicacionais contribui para a definição do silêncio como uma escolha, como uma ação deliberada de não-troca (e neste sentido, é de fato uma forma de comunicação). Para os adolescentes, uma pessoa que escolhe ou involuntariamente cria silêncio precisa aceitar a responsabilidade de recusar receber a comunicação do outro.

1.11 Buscando silêncio        

Entre os adultos jovens que viveram a proliferação e emergência da NICTs, mas que vivenciaram um relativo silêncio no passado, falar no desaparecimento do silêncio provoca reações mais complexas. Sua percepção é influenciada pelo determinismo tecnológico e um certo derrotismo sobre a resistência à invasão tecnológica. O conceito de ruído/barulho como inimigo do silêncio é constantemente usado para descrever situações cotidianas perturbadas por um incessante fluxo de informação.  O silêncio é visto como uma comodidade rara num espaço social invadido por barulhos que saturam a vida cotidiana e invadem a privacidade. Como para os adolescentes, para os jovens adultos a extinção do silencio resulta da possibilidade e ser contatado em todos os momentos. As novas tecnologias ligam os indivíduos que então encontram-se num permanente estado de disponibilidade para a comunicação. Os silêncios, ameaçados de extinção, adquirem então novos significados.

Cabe ressaltar que a percepção do silêncio e da comunicação não são atitudes solitárias, mas são alimentadas por diversos discursos do espaço social, entre eles, o discurso publicitário. O silêncio é implicitamente pintado como hostil à comunicação e aos laços sociais e pode se tornar fonte de preocupação (ex. esquecer o celular em casa causa a impressão de estar perdendo ligações importantes). Para os adolescentes, desde que o silêncio pode ser tecnicamente eliminado, o silêncio de uma pessoa é considerado um comportamento intencional. Os adultos jovens preocupam-se com esta super disponibilidade comunicacional que elimina seus momentos consigo mesmos de silêncio e paz.

1.12 Comunicação: entre o barulho e o silêncio.

Além da tendência de preencher a inatividade com fluxos de trocas, muitos adultos jovens notam o uso da mídia de massa como background para atividades cotidianas. (ex. Deixar a TV ou o rádio ligados enquanto se está em casa) Isto gera a impressão que o silêncio é algo difícil de se tolerar. Muitos participantes alegaram o uso das mídias com o medo de estar sozinhos – conforto de uma presença humana. As novas tecnologias podem gerar a impressão de um universo social saturado de informação e ser assim perturbador sentir a pressão de sempre ter que ser informado o mais rápido possível.  Sobrecarregados por esta situação, muitos veem no silêncio e no anonimato uma forma de refúgio. Mas por outro lado, a internet possibilita expressões de si que podem ser potencialmente lidas ou ouvidas por milhões de pessoas e o grande fluxo de informações rápidas e facilitadas é aparentemente sobre assuntos que lhe interessam de alguma forma. Os adultos jovens pensam que o desenvolvimento tecnológico encoraja a profusão de diferentes pontos de vista, conferindo à internet um caráter democrático poderoso. Por este motivo, o silêncio como resposta a determinada questão ainda tem sido pouco aceitável já que as tecnologias têm facilitado amplamente os recursos comunicacionais. Para alguns, as novas tecnologias libertam e mesmo promovem o silêncio como uma grande essência comunicacional humana. Por outro lado, vivemos hoje num modelo tão complexo de sociedade que se resignar a ficar num canto em silêncio não necessariamente nos fornece paz e conforto, como os adultos jovens colocaram. Os autores afirmam que nas sociedades contemporâneas comunicar é viver e concluem que ao invés de se suicidarem, as pessoas decidem matar o silêncio, pois se tornam suportes de discursos ou de comunicação, condenando o silêncio à extinção.

Assim como as tecnologias tradicionais (TV, rádio) podem ajudar os idosos a lidar com a solidão e o isolamento, talvez um fenômeno análogo esteja acontecendo com os adolescentes na internet, telefones móveis e outros dispositivos multifuncionais. Certamente quando os adolescentes usam estas novas tecnologias de modo interativo, eles visam sobretudo se comunicar com outras pessoas. Mas do momento que elas também são usadas simplesmente para preencher os espaços de silêncio (ex. escapar do silêncio batendo papo – chatting) sua função se aproxima à função da televisão na prevenção da sensação de isolamento. De qualquer modo há uma diferença intergeracional na noção da morte do silêncio. As percepções e representações são mais ou menos opostas: adolescentes percebem o silêncio como um buraco a ser preenchido (as tecnologias são portanto meios de eliminar a solidão e o tédio); as pessoas um pouco mais velhas veem o silêncio na comunicação tanto como impotência para fazer-se ouvido pelo outro, tanto como valor de comodidade que precisa ser cultivado dado a sua raridade. Para estes, o silêncio pode ser quebrado em alguns casos, mas ao ser substituído por barulho/ruído e caos, atrapalha a reflexão. No entanto os autores pontuam que somos rotineiramente cercados de ruídos diversos (alarme, carros, toques de telefone, músicas ambientes, etc.) e a inexistência do silêncio absoluto nos lembra a todo momento que não estamos sós no mundo. Este silêncio absoluto temido pelos adolescentes, este que causaria intensa ansiedade seria então sinônimo de morte.

1.13 Atores sociais: locações e laços (links)

Espaços fundidos, tempos fluidos e extinção do silêncio: as novas tecnologias nos convidam a abraçar cenários incomuns. No entanto os autores alertam que não devemos concluir que estamos capturados por um redemoinho tecno-midiático, cujos atores sociais são simplesmente levados. Pelo contrário, as pessoas estão constantemente inventando novas respostas, tanto no que diz respeito aos seus relacionamentos com os outros quanto ao seu relacionamento com a tecnologia em si. Assim, os indivíduos (sobretudo os mais jovens) não são apenas sujeitos, mas acima de tudo co-criadores dos desafios tecnológicos e categorias sociais relacionadas. Conhecendo como as práticas comunicacionais são construídas atualmente e as maneiras como as pessoas constroem a si próprias através delas, podemos perceber as novas tecnologias como verdadeiros conjuntos de significados sociais. Elas são lugares e relacionamentos povoados por muitos atores sociais, tanto humanos, como não-humanos.

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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