Media Rituals: A critical aproach | capítulo 5

Dando continuidade à ideia de fortalecimento do mito do centro midiático, Couldry busca, nesse capítulo, tratar desconstruir a naturalização dos “lugares especiais”, mostrando que processos relativos à cobertura e à midiatização colocam certas localizações num patamar de privilégio. O autor, assim, busca esclarecer como determinadas práticas ritualísticas ligadas à peregrinação enaltecem cenários utilizados em produções midiáticas, como filmes ou seriados.

Emerge, assim, o termo “media pilgrimages”, ou peregrinação midiáticas, as quais “são jornadas específicas  para pontos com significância em narrativas midiáticas” (p. 76). O termo, sublinha Couldry, dá conta não apenas de um deslocamento no espaço como também uma ligação entre o “mundo ordinário” e o “mundo da mídia”. O que nos interessa, pois, são os usos, apropriação e valorações pelos quais passam uma determinada locação, bem como as reais práticas espaciais (palpáveis, não apenas de cunho textual) que estão na base do poder simbólico dos media.

Por que se deslocar?

Tendo em vista leituras distópicas como a de Baudrillard, para quem passamos por uma aniquilação do lugar, e Boorstin, que fala sobre certa morte da viagem diante da saturação midiática, Couldry faz uma instigante pergunta: “por que gastar tempo e dinheiro visitando um lugar que você já viu, possivelmente milhares de vezes?” (p. 79). A questão é plausível: uma vez que determinadas locações, como Torre Eiffell, Estátua da Liberdade ou pirâmides diversas no Egito são amplamente veiculados em revistas, tevê, cinema e anúncios, qual a lógica do deslocamento para uma visita presencial para conhecer o, digamos, já conhecido?

De qualquer maneira, Couldry traz à tona ideias que nos colocam diante de emocionalidades e sentidos construídos em torno desses lugares – mesmo que sejam “emoções pré-programadas”, como é o caso de de parques temáticos, e mesmo que haja uma gigantesca artificialidade na base deles. O que interessa, no entanto, é o conjunto de capital simbólico alocado naquele lugar.

As fronteiras do dia a dia

Ponto importante trazido no capítulo diz respeito às bordas efetuadas cotidianamente por conglomerados midiáticos. Para além da dispersão de sinais, Couldry levanta aspectos problemáticos, como o acesso econômico e espacial a determinados recursos – recursos esses “concentrados em instituições midiáticas, as quais estão largamente situadas em poucos centros metropolitanos” (p. 81). O autor, assim, busca sublinhar o aspecto de construto social de certas fronteiras. “Elas não são naturais”, frisa, “mesmo que elas sejam tão regulares que alguém possa facilmente se enganar e tê-las como tais” (p. 81). A aglutinação de recursos financeiros (e, por decorrência, materiais), acaba sendo um problema não levantado por governos ou jornais, por exemplo. O direito à comunicação, assim, fica relegado a um plano longínquo da população, o que reforça, quase tautologicamente, a concentração de tais poderes nas mãos de poucos:

The boundary around the media production process here is, like most territoriality (…), connected with the protection of material resources: maintaining scarcity of access to media production skills and equipment, and thereby the symbolic capital of those who have that access. But this separation (…) is also part of what legitimates the enormous concentration of symbolic power in media institutions (p. 83).

Além dessas fronteiras, vale frisar outras formas de separação, como placas de “entrada proibida” em espaços utilizados como locações para gravações que ainda guardem características da produção. O autor, dessa forma, questiona: “poderia um espaço midiático – um espaço de representação – ser legitimamente protegido de um modo que o espaço real (…) não poderia?” (p. 84).

Peregrinações reversas

Couldry finaliza o capítulo propondo um conceito controverso: o de peregrinação reversa. Por tal termo, o autor se refere àquelas situações em que, ao invés de incorporarem valores e dramatizações em torno daquelas localizações distantes, certos processos se dão em relação a um indivíduo qualquer, “quer você aceite ou não” (p. 93).

A ideia não nos parece bem desenvolvida, mesmo porque Couldry afirma que pouco se sabe como certas “invasões” midiáticas na vida de pessoas comuns, ou não-celebridades. Devemos considerar, contudo, que o jornalismo e vigilância generalizada por câmeras eletrônicas lidam bastante com um aspecto invasivo, tomando como pressuposto a publicização inerente ao espaço público, comum a todos. É curioso, pois, quando Couldry coloca questões de imigrantes ilegais que não podem aparecer na TV precisamente pelo risco de deportação. Quais os limites da prática espacial vinculadas aos meios e da legitimação do poder dos veículos?

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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