Media Rituals: A critical aproach | capítulo 4

Nesse capítulo, Couldry toma por base a ideia de que eventos midiáticos são uma ótima ocasião para pensar sua teoria dos rituais de mídia. Nesse sentido, os eventos atuariam como fonte de certas verdades menos aparentes, restando ao pesquisador um olhar para além da superfície, para além do que está sendo dito e para aqueles que estão silenciados.

Couldry está claramente preocupado em ressaltar que eventos são construções, e não meramente expressões da ordem social. Isso nos guia para a compreensão de que há processos que erguem um senso de centro, e é aqui que reside o papel privilegiado da mídia. Um evento e seu caráter de centralidade passa por um processo de veiculação midiático. Em tal sentido, não é algo dado, mas erguido por certo esforço. É esse esforço que o autor deseja sublinhar e deixar claro, desnaturalizando as expressões que condensam o status a priorístico que certos eventos – e centros de mídia – conseguem ter.

Uma compreensão inicial sobre evento midiático

Acima de tudo, é necessário esclarecer a que se refere o autor por tal expressão. Couldry parte da coroação da Rainha Elizabeth, em 1953, que foi transmitida por rádio e TV. A ocasião inaugurou uma forma de experiência a distância daquilo que estava se dando alhures. Havia o ritual em si (a coroação, que não tinha nada de novidade), mas havia também uma audiência ampliada diante do evento, o que criaria um senso de “família nacional” assistindo àquilo tudo.

Citando o trabalho de Cardiff e Scannel, para Couldry um evento como tal sempre transforma a sociedade. Ainda que a audiência fosse maior, ela seria mais fragmentada diante da multiplicidade de pessoas acompanhando a transmissão – atira-se longe, assim, qualquer visão que encare o público como um receptor passivo e homogêneo, uma massa inerte e vazia. Mas mesmo a audiência fragmentada estava ali sendo posta diante uma “cultura em comum, uma imagem da nação como uma comunidade reconhecível” (p. 57). Esse acaba sendo um ponto importantíssimo: a transmissão de coroação não se tratava tão de um ritual sendo publicizado; mais que isso, criava em si um senso comunitário crucial para a o Reino Unido. Como um reino pode ser um reino se ele for totalmente disperso?

Mais que mostrar o caráter unificador que os rituais em torno dos eventos midiáticos têm, Couldry ressalta o papel privilegiado que a BBC teve durante essa cobertura.

[T]he BBC needed to establish itself in relation to the British state, and obtaining the right for television cameras to be present at royal ceremonies was an important way of doing this. (p. 57)

Por meio de negociações com instâncias variadas de poder, a rede de televisão pode se colocar num lugar de acesso escasso e representar um ritual de cunho nacional. Couldry acredita, assim, que daí decorre que o papel dos meios, especificamente o da TV, mudou profundamente. De um modo geral, não se trata apenas de transmitir e deixar a par aquelas pessoas que não podem ter a informação: estabelece-se, através daquele evento transmitido, um unificação e a criação de um ritual específico. No fim das contas, tanto o objeto de culto (a rainha, a coroa, o ato da coroação) quanto o veículo prestigiado ganham em termos de poder.

Diante dessa explicação inicial, o autor baseia-se no livro Media Events, de Daniel Dayan e Elihu Katz, os quais definem evento midiático como “aquele evento que é transmitido ‘ao vivo’ e ‘remotamente’, longe de suas audiências, o qual também se trata um evento real ocorrendo no ‘centro’ da sociedade e não fabricado por algum veículo de mídia” (p. 58). A definição guarda seus problemas, e mais à frente Couldry traz sua própria definição mais precisa.

Media events or media rituals?

Para ir além em sua argumentação, Couldry pergunta-se: qual a relação entre os eventos midiáticos e os rituais midiáticos? Relembrando sua definição no capítulo 2, os rituais midiáticos são “ações formalizadas organizadas em torno de categorias e fronteiras relacionadas à mídia”. Tendo em mente que os eventos midiáticos são de larga escala (no sentido de irem além do in loco), de natureza pública (ainda que a coroação tivesse um caráter privado, sempre foi, mesmo que não transmitida, de interesse nacional) e focados numa singularidade (o evento em si), Couldry estabelece a relação entre os dois termos na organização no conjunto geral do acontecimento.

[W]hat makes a mass of actions in many places come together as a ‘media event’ is the fact, or the construction of the fact (…), that through the narrative frame of that media event a social collectivity is affirmed, reinforced or maintained (p. 60).

Preocupado com essa “coletividade afirmada, reforçada e mantida”, Couldry assinala sua leitura Durkheimiana sobre os rituais midiáticos. A questão principal a se levar em conta é a formação desse coletivo em torno dos meios de comunicação e como eles se reforçam por meio das ritualizações que conseguem estabelecer (não forçosa, mas dialogicamente).

Redefinindo os eventos midiáticos

Tendo em vista a preocupação sobre como os eventos midiáticos constroem um senso de centro relacionando à transmissão do evento em si, Nick Couldry busca problematizar a até então levantada definição de eventos midiáticos a partir de dois pontos principais: primeiramente, vivemos uma situação de complexidade de meios de comunicação (TV à cabo, transmissões por satélite, internet…). Apesar dessa multiplicidade de distribuições, o autor acredita porém que, “em momentos de crise intensa ou de interesse compartilhado num evento em comum, aqueles diferentes outputs podem ser facilmente conectados intertextualmente de modo a recriar um senso de ‘centro’ mediado compulsório” (p. 66). Diante de tal veiculação compulsória (à qual certos agentes midiáticos praticamente não podem escapar – vide Copas e Olimpíadas), parece não haver grandes opções para os espectadores e usuários.

O segundo ponto de problematização diz respeito à escala dos acontecimentos. Diante da possibilidade de visibilidade global de certos eventos, Couldry se pergunta se qualquer evento público sendo transmitido para diversas nações realmente pode ter um “impacto integrador” em qualquer localização. Sua resposta é contundente: “certamente, não”. Diante de tais pontos, o autor traz, por fim, sua própria consideração sobre eventos midiáticos, usando-o para cobrir:

(…) aquelas narrativas midiaticamente focadas e baseadas em eventos de larga escala em que os clamores associados com o mito do centro midiático são particularmente intensos” (p. 67, grifos do autor)

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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