Media Rituals: A critical aproach | Capítulos 2 e 3

Capítulo 2

Objetivo central: compreender rituais de mídia como parte do seu poder na organização das sociedades.

Ritual: três apreensões

  1. Ação habitual: meramente repetitiva, associada também à ideia de declínio nas sociedades atuais, pouco tradicionais

  2. Ação formal: nesse aspecto, a mídia estaria apenas reproduzindo rituais já constituídos, sem muitas particularidades

  3. Ação associada a valores transcendentais

Preferência pelo terceiro, para além das apreensões específicas do que seja transcendental (de ordem religiosa)

Conceitos importantes para a compreensão do ritual da mídia: padrões de ação, enquadramento (framing), fronteiras e categorias de ritual.

Padrões de ação

Compreensão geral de que o ritual é uma forma de ação, distinto de uma mera ideia, pensamento ou sensação.

Rappaport: define ritual como a performance e as sequências de ação formal e desdobramentos decodificados pelos indivíduos

Dois pontos importantes nessa apresensão:

  1. Insistência de que o ritual está além do que se aparenta – além da percepção do indivíduo o que decorre de suas ações

  2. Centrado num comportamento ritualístico, e não em simbolismo e ideias – ritual é ação, não ideiais

Rituais, através da repdrodução repetitiva de categorias e padrões, perpassa a compreensão do inidvíduo de seus atos

Indivíduo absorve rituais sem se dar conta

Media rituals são um tipo particular de ação convencionada, que envolve o próprio ato de se fazer os meios.

Enquadramento

Remete a uma relação entre propriedades das ações ritualísticas com um espaço social mais amplo (contexto)

Ressonância com um enquadramento: ritual como um modo de reiterar um enquadramento da situação

Valores que são confirmados e comunicados

Victor Turner: processo de ritual associado, ou capaz de expressar, conflitos sociais e uma cena (drama)

Esses quadros de compreensão operam da seguinte forma:

  1. Ações são estruturadas a partir de categorias ou limites

  2. Tais categorias manifestam um determinado valor

  3. Esse valor captura a noção de que o social está em processo no ritual

Exemplo: quando nos deparamos com uma celebridade, assumimos performances diferentes

Limites

Rituais não apenas expressam uma ordem, como também a naturaliza

Formaliza categorias, e as diferenças e limites entre categorias, em performances que operam de modo a parecer natural – processo de legitimação

Bourdieu: o que importa não é a passagem de um estado a outro pelo indivíduo, mas a constatação da passagem por uma linha ou fronteira

O fato de um limite ser ultrapassado em virtude de um ritual faz com que essas fronteiras sejam importantes

A legitimação dos limites se dá pela existência de rituais que são necessários para sua passagem

Rituais reforçam a existência de limites nos quais podemos transpor

Rituais possuem implicações no poder

Media rituals e a ordem social

Media rituals: ações formalizadas, organizadas sobre categorias e limites de ações com os meios, na qual a performance enquadra, com valores associados aos meios

O que faz ser um media ritual não é apenas de ocorrer na mídia, mas categorias de reações com os meios sobre os quais se estruturam e os valores relacionados à mídia no qual dirigimos nossa atenção

Baudrillard: implicações com o poder com a mídia contemporânea são sempre questões de forma

Divisão social que a mídia constitui entre consumidores e produtores de representações

Todo meio busca falar por todos, naturalizando o fato de que geralmente não falamos por nós mesmos

Processo de ritualização: ajuda-nos a organizar nossas ações num contexto

Media rituals: através da organização de ações sociais por meio de algumas categorias-chaves

Ritualização: incorpora uma lógica categorizante da sociedade (estrutura), que está organizada através de uma centralidade dos meios

Durkheim: ritual possui uma relação com a integração da sociedade

Foco de Nick Couldry: como pequenas práticas de categorizar, baseadas no poder da mídia, faz com que essa centralidade seja reforçaca

Atenção em linhas de ação em rituais dos meios e as categorias que tais linhas estão articuladas

Ações são orientadas através de convenções e acordos que fazemos tendo em vista algumas orientações inerentes aos rituais

Liminaridade

Conceito de liminaridade acentua uma noção que temos de “extraordinários” os rituais da mídia

Liminaridade salienta como rituais são reflexos de ações mais amplas, que faz parte da sociedade

Giddens vai chamar de natureza recursiva das ações

O conceito vai trazer a ideia de uma ordem face a eventos públicos maiores, associando ações específicas como componentes que vão fazer com que perpetuem os rituais

Maffesoli: liminaridades particulares estão em jogo, de modo a criar um novo senso de tribalismo – ações contínuas de certos agrupamentos

Ritual formal é essencial na manutenção da ordem social, mas retóricas ligadas a uma comunhão de certos grupos estão se intensificando, de modo que o compartilhamento de experiências como um todo tem diminuído

Interesse de Couldry: como em grandes sociedades as pressões por uma comunhão cresceu, tendo em vista como a plausibilidade disto diminuiu

Isto está ligado a várias questões referentes à centralidade, como por parte do governo e dos próprios meios de comunicação – a conquisa de uma audiência, nesse caso.

 

Capítulo 3

Neste capítulo, Couldry explica detalhadamente por que o estudo dos rituais de mídia deve estar fundamentado em uma análise crítica do poder da mídia.

Isto permitirá ser mais específico sobre os tipos de ações abrangidas pelos rituais de mídia, e também para sugerir mais concretamente como uma análise crítica dos rituais de mídia pode cruzar com outras leituras críticas de produção de mídia, por exemplo, em termos de classe, gênero ou etnia

Poder econômico ou político (coercitivo) tem usado frequentemente ritual, mas a ligação mais próxima é entre ritual e a forma de poder engajados no desempenho do próprio ritual: isto é, o poder simbólico (Thompson, 1995: 15-17), ou, como outros teóricos dizem, a “dominação ideológica”.

Existem implicações de poder envolvidas nas formas simbólicas em si, dado que a capacidade de produzir formas simbólicas não está uniformemente partilhada.

A ligação entre ritual e poder simbólico – para a diferenciação de pessoas umas das outras em termos de recursos simbólicos que possuem – é de uma maneira óbvia: formas rituais sempre envolvem sacerdotes ou funcionários, com um poder especial e autoridade.

Em sociedades contemporâneas mediadas, onde há uma concentração enorme de recursos simbólicos em instituições particulares (a mídia), não deve-se ignorar conexões rituais com o poder simbólico.

Poder simbólico

Um forte conceito de poder simbólico insiste que algumas concentrações de poder simbólico (por exemplo, a concentração de meios de comunicação contemporâneos) são tão grandes que dominam todo o social; como resultado, eles parecem tão naturais que tornam-se difíceis de localizar (como diz Bourdieu), e com isto sua arbitrariedade subjacente torna-se difícil de precisar.

Todas as formas de poder possuem ramificações incontáveis ??através do espaço social.

A concentração de poder simbólico é tanto um fato por si só e um fator que afeta a representação dos fatos sociais. Efeitos de “não-reconhecimento” são, então, inerente à distribuição desigual do poder simbólico.

Esta noção de não-reconhecimento  foi desenvolvido, mais precisamente por Bourdieu através de seu conceito de “violência simbólica” – que nunca é reconhecida como tal, mas perpassa questões como violência de crédito, confiança, compromisso, lealdade pessoal, hospitalidade, presentes, gratidão, piedade. “Violência simbólica”, então, refere-se a formas indiretas de dominação que operam sem compulsão formal ou violência.

Crítica de Nick Couldry: no geral se nega esses esquemas de violência, por considerar que tais questões de poder se perdem por trás da sensação reconfortante de que “nós” somos todos de alguma forma envolvidos no processo de construção de “nossa” realidade através de rituais e eventos da mídia.

A violência simbólica é, portanto, inerente às operações da mídia, mas só pode ser compreendida através de uma teoria dos rituais específicos e ritualizações que a sustentam no dia-a-dia.

Para além do mito do centro

Os EUA são uma sociedade saturada pela mídia em um grau enorme, e a imagem da “centralidade” pode ter alguma ligação com isso.

A ideia da sociedade de “centro” também está na raiz de todas as concepções de Durkheim e pós-Durkheim sobre como a sociedade se mantém undida através do ritual, então não há muito mais em jogo do que uma discussão sobre o consumo de uma nação da televisão.

Dayan e Katz (1992) argumentam que a mídia recria uma “solidariedade mecânica” através de uma tecnologia totalmente moderna de coordenação social (o horário de transmissão, distribuição por satélite, e assim por diante).

Assim que cair a hipótese de que a sociedade tem um núcleo de “verdadeiros” valores sociais à espera de ser “expressos”, então estamos livres para reler processos contemporâneos de definição social e cultural para os conflitos abertos que eles realmente são.

Termo mais fundamental do conflito é a definição de “realidade” em si, embora a realidade, é claro, está registrada em formas diferentes em uma variedade de contextos: a realidade dirigida por políticas governamentais de controle social, realidade econômica etc.

Como os recursos simbólicos da sociedade são desigualmente distribuídos (com destaque para as instituições de mídia), esses conflitos em curso são marcados pela violência simbólica: certas definições têm bastante peso e autoridade para dominar a maioria das outras alternativas de discussão.

De modo a responder a questão da dominação de um discurso, Couldry defende que precisamos de um conceito que capta essas batalhas locais de definição que vá além da percepção de um “consenso social”. Este seria o conceito de nomeação (naming), introduzido por Alberto Melucci.

Enquanto vivemos em sociedades pouco centradas na fé religiosa, nossas vidas estão organizadas para outras formas de consenso, através da padronização de consumo e as forças de mercado, e as estratégias dos governos

Acesso ao conhecimento torna-se um novo tipo de poder

Indivíduos têm uma participação nessas batalhas através de suas próprias tentativas locais de se definirem enquanto pessoas que devem ser reconhecidas, apropriando-se de recursos simbólicos comuns

Sociedades contemporâneas dominadas pela mídia: nova forma de pensar sobre o poder e a desigualdade, reconhecendo a importância do controle ou influência sobre o Melucci chama de códigos de mestre. A real dominação é atualmente a exclusão do poder de nomear – ser reconhecido.

Como analistas dos rituais de mídia, devemos ser suspeitos com relação aos espetáculos públicos. Estes, longe de ser uma revelação da realidade da vida social, podem ser visto como a representação de ordem social sob vigilância, sob controle, manipulado por seus compositores e auditores.

É esse poder de categorizar e escolher o que é do interesse público que reside um ponto importante para se compreender a influência dos meios de comunicação.

Desconstrução mítica ou análise ideológica?

Nesse ponto, Couldry vai falar de uma interpretação errônea que pode-se sucitar: a de compreender, através de uma orientação marxista, os rituais de mídia como processos ideológicos que mistificam um nível subjacente de dominação. Os meios de comunicação, e os rituais de mídia, seriam o veículo para interesses de poder que se encontram fora da mídia, acima de todos os interesses econômicos.

Visão marxista da mídia como um reflexo de um poder institucional, que estaria sendo perpetuado nos veículos de comunicação – portador do discurso desse poder

O perigo deste tipo de argumento é a compreensão de que os rituais de mídia trabalham para implementar uma necessidade funcional subjacente, decorrente da base econômica da sociedade, como refletido através de estruturas governamentais

Análise de Couldry: não se concentra sobre as mensagens comunicados através de rituais de mídia, mas na mistificação mais básica inerente à forma de rituais de mídia, qualquer que seja o seu conteúdo

Essa é a ideia que a sociedade tem um “centro”

Não há tal centro social que funciona como um fundamento moral ou cognitivo para a sociedade e seus valores, e, portanto, nenhum papel natural para mídia como intérprete desse “centro”, embora exista pressões para acreditar nisto

A compreensão de que a sociedade tem um centro ajuda a naturalizar a ideia de que nós temos, ou precisamos, de meios de comunicação que “representem” esse centro; reivindicações da mídia que seriam um enquadramento da sociedade ‘frame’ ajudam a naturalizar a ideia de que não há um “centro” social a ser representado para nós.

Princípio central de compreensão desse mito é a hierarquia do que está ou não na mídia

Rituais de mídia operam de naturalizar a noção de uma “ordem mediada social” em que todas as ideologias específicas devem competir, bem como legitimar o privilégio especial de representação dos meios de comunicação.

As reivindicações de mídia para representar a sociedade como um todo são quase sempre ideológicas neste sentido geral, e são intrínsecas às auto-imagens das empresas de comunicação

Não são todos os meios que fazem: em determinados locais e para fins particulares (seja em canais a cabo, ou no mercados de revistas para mulheres ou homens), um outro discurso de fragmentação e segmentação é importante. Mas isso raramente opera contra um sentido subjacente de que existe um centro de atenção representados pela mídia (“o que está acontecendo”) para que o público ou leitores em questão devem prestar atenção

Uma das principais ações que as empresas de comunicação instituições fazem, como os principais beneficiários da concentração dos recursos simbólicos da sociedade, é a legitimação dessa concentração.

As categorias de rituais da mídia

O “mito do centro mediada” é um rótulo para algo mais complexo e mais confuso: o conjunto de práticas através das quais o poder da mídia é legitimado. O poder da mídia parece legítimo, porque, através de todos os tipos de arranjos de pensamento, palavra e ação, ele é feito para parecer natural.

Aquilo que Couldry vai interpretar como “práticas banais de ordenamento” envolve as formas em que a prática social é, cada vez mais, organizada em torno de fontes de mídia e do acesso à mídia

Mídia tornou ponto de passagem obrigatório em muitas áreas da vida pública e privada, e este é um fato cotidiano da organização social.

Rituais de mídia são formas condensadas de ação onde as distinções de categoria e limites relacionados com o mito do centro mediado são trabalhados com particular intensidade

Em rituais de mídia, nenhuma rede é diretamente criada ou fortalecida, mas em vez disso categorias de pensamento que naturalizam o poder da mídia são encenadas

Couldry vai chamar isto de categorias dos rituais da mídia – categorias de distinção

Categoria primeira: a diferença básica de categoria entre algo que está associado à mídia ou qualquer coisa que não está

Categoria segunda: baseada no pressuposto de que aquilo que está na mídia deve ter um status mais elevado em comparação ao que não é, embora sejam distintas em seu ponto de referência

Como a realidade apresentada na mídia, em detrimento daquela cotidiana, menos importante por conseguinte.

Rituais e rituais do corpo

A ação ritualística fica entre a internalização pura e a articulação explícita; a ênfase e exposição que a ação ritualística traz pode encorajar certos tipos de disputa e debate, mas eles tendem a ficar dentro do quadro ritual, cuja organização já naturalizou as mais importantes categorias de distinção.

Nesse ponto, Couldry vai enfatizar a presença do corpo na constituição dos rituais. Vai trazer a noção de habitus de Bourdieu para dizer que as ações individuais das pessoas são moldadas por (1) forças que estruturam os princípios que, por sua vez, restringe o número de práticas no qual é possível se envolver

Processo de ritualização (Catherine Bell): forma de se envolver em algum consenso mais amplo que determinada ação ocorre em como uma forma de resposta natural para um mundo concebido e interpretado como afetado por forças que o transcendem.

Na medida em que rituais de mídia invocam os meios de comunicação como representantes do centro social, que é exatamente tais afirmações transcendentais que se seguem a uma proposta neo-durkheimian da mídia

Argumento de Couldry: considera a ideia de que, embutida em certos tipos de prática formal que realizamos em relação à mídia, existem categorias de distinção que naturalizar a ideia de que a mídia é socialmente central

Rituais de mídia (e ritualização) capturam essa “extra”, em grande parte naturalizada, dimensão da vida social, que reconhece de forma condensada o poder de enquadramento dos meios de comunicação.

Vitor Braga

Jornalista, professor da Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia.

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