Media Rituals: a critical approach | Introduction

Referência:

COULDRY, Nick. Media Rituals: a critical approach. London: Routledge, 2003.

Introduction

“O familiar não é necessariamente o conhecido”. A máxima hegeliana trazida a partir do sociólogo francês Henri Lefebvre abre as cortinas para o capítulo introdutório de “Media Rituals: a critical approach”, de Nick Couldry. O livro – originalmente publicado em 2003 – direciona suas investigações ao papel da mídia no ordenamento da vida cotidiana e na organização do espaço social. A noção de espaço social tomada por Couldry não faz coro a presunções que advogam que a sociedade possui um “centro” e que a mídia seria, neste sentido, uma rota para alcançar este mesmo “centro”. Desta maneira, o olhar que direciona à relação mídia/sociedade é emoldurado por uma postura crítica, o qual, para ser legitimado, necessita de uma refutação bottom-up, que percorra os fundamentos filosóficos que sustentam a ideia da mídia enquanto meio para alcançar um suposto “núcleo” social e proponha, a partir daí, o exame de como nossas crenças e ações estão imbricadas na própria “media machine”. Sendo assim, o familiar não é necessariamente o conhecido, pois mensurar os impactos do processo midiático sobre nossa vida cotidiana parece requerer a desconstrução das estruturas que fundamentam o que se entende por “vida cotidiana”. Em que grau a mídia agencia nosso pensar/fazer?

Desde a introdução, Couldry nos convida a pensar criticamente o estranhamento gerado pela dificuldade de apreender a influência da mídia na organização social. Ao criticar a ideia de um núcleo social – e consequentemente a presunção de que a mídia se manifesta em torno deste centro – o autor se vale da perspectiva adotada por pensadores como Bourdieu para apresentar seu argumento central: se a crença da concentração de poder simbólico nas instituições midiáticas é legítima, os media rituals são a peça central desta engrenagem. Segundo ele, media rituals são quaisquer ações em torno da mídia e seus perímetros, ou seja, os pontos de encontro dos meios de comunicação – em suas diversas relações com o poder – com o corpo social. Sendo assim, as performances dos indivíduos reenforçam e legitimam o mito da centralidade social para onde a mídia se direciona. Exemplos abundam: das conversas em torno da possibilidade de aparecer na mídia (como o anseio massivo de participar de um reality show), à mudança de postura frente a presença de uma celebridade, passando por formas “ritualizadas” de assistir televisão. No esforço de refletir mais apropriadamente sobre o conceito de media rituals, Couldry apresenta dois vieses de entendimento: um caminho curto e um mais longo. Inicia, pois, a reflexão a partir da menor rota.

The short route to understanding “media rituals”

São apresentadas três aproximações gerais que contemplam o que se compreende por “ritual” no campo da antropologia:

  • ação habitual (qualquer hábito ou repetição de padrão, possuinte ou não de um significado particular);
  • ação formalizada (por exemplo, o constante padrão com o qual a mesa é posta em determinada cultura. Possuinte de significado particular);
  • ação envolvendo valores transcendentais (quando a ação visa algo além da simples forma, almejando determinados valores a partir desta conduta. Cultos religiosos como forma de entrar em contato com Deus pode ser um exemplo).

Para a investigação pretendida, Couldry aproxima-se das segunda e terceira definições. Segundo ele, a ação formalizada é mais que um mero hábito, uma vez que envolve um padrão ou forma que atribuem sentido àquela mesma ação. A ênfase dada pela terceira definição, em particular, supera a pura forma de conduta e mira valores os quais são alcançados por tais e tais ações ritualísticas. “Just as ritualised action turns our attention to “something else”, a wider, transcendent pattern “over and above” the details of actions, thereby raising questions of form, so too it is the media”s influence on the forms of contemporary social life – the wider transcendent patterns within which the details of social life make sense – that I intend to capture by the term “media rituals”” (p. 3). Aqui, novamente, o conceito-chave do presente trabalho recebe atenção.

A explanação supracitada, mais que definir o que são os media rituals, se preocupa com o comoestes rituais são abordados. No entanto, em seguida, explica com mais cuidado o que é compreendido por media rituals: “The term “media rituals” refers to the whole range of situations where media themselves “stand in”, or appear to “stand in”, for something wider, something linked to the fundamental organisational level on which we are, or imagine ourselves to be, connected as members of a society” (p. 4). Ou seja, planeja-se examinar os elementos conectivos da sociedade com os media a partir da ritualização[1] de ações engendradas por este jogo de influências entre o social e o midiático e como este fluxo está refletido na suposta “ordem social” estabelecida. Para tanto, aproxima-se de autores como Durkheim e Foucault como modo de fundamentar seu discurso.

Understanding the ‘order’ of mediated societies

 Este tópico, como já evidencia seu título, aproxima-se das reflexões acerca do conceito de “ordem” em perspectiva sociológica a partir de autores como Durkheim, Deleuze e Guattari e Pierre Bourdieu. Segundo Couldry, compreender esta dinâmica exige considerar as teorias sociais mais gerais, uma vez que o objetivo latente do livro é perceber como a mídia está envolvida na estruturação do corpo social – ou se de fato isto ocorre. Neste sentido, inicia a discussão partindo das contribuições de Durkheim.

 

Starting out from Durkheim

O sociólogo francês é trazido à baila por Couldry para uma aproximação prelimiar do conceito de ritual em um contexto social mais amplo do que a religião particularmente. A partilha de signos, a sensação de pertencimento e o sistema de ideias que envolvem os integrantes de determinado agrupamento social são mecanismos que fundamentam a religião, segundo Durkheim em seu The Elementary Forms of Religious Life. Ser membro de um corpo social condiciona a própria categorização de mundo que estes indivíduos realizam no curso de suas vidas. Portanto, segundo o autor, o agrupamento “molda” a própria percepção de “ser no mundo” (por exemplo, a naturalização dos constructos coletivos que distinguem o The games are powered by the inimitable Playtech platform – a global leader in online casino games development. “sagrado” do “profano”). É em torno desta partilha simbólica que a vida social é organizada.

Durkheim’s contemporary relevance

 Os ecos das contribuições do sociólogo francês resultam em novas questões: como as sociedades se organizam? Como são experienciadas por seus membros enquanto sociedades? Existem categorias centrais através das quais percebemos o mundo social contemporâneo? Quais as origens destas categorias? Nestes questionamentos, a influência dos media é determinante. Por exemplo, eventos midiáticos atuam como aglutinadores de sociedade, voltando nossa atenção ao outro em um contexto social mais amplo (a eleição do novo Papa, ilustra tal afirmação). “The exceptional sense of togetherness we may feel in media events is just a more explicit (ritualised) concentration of the togetherness, which, in a routine way, we act out when we switch on the television or radio, or check a news Website, to find out ‘what’s going on’” (p. 7).

 O que Couldry advoga a partir daí é que não há de fato a cristalização desta reunião que a mídia proporciona, mas tão somente uma aproximação. Neste sentido, preocupa-se – e afirma retomar a questão nos capítulos posteriores – em enfatizar o processo de construção social que substancia a aparente coesão das sociedades modernas, na qual a centralização de poder é fundamental à sua compreensão.

Rereading Durkheim

Neste tópico, os objetivos do livro são postos em evidência. Couldry visa preencher as lacunas incompletas deixadas por Durkheim no que concerne à relação indivíduo/sociedade, situando os media como engrenagem que permite esta articulação.

Há, segundo o inglês, ao menos duas maneiras de ler Durkheim, a saber: uma preocupada nas emoções coletivas (sensações de estar juntos como pertencentes de um grupo) e outra relacionada com o conhecimento coletivo (processos cognitivos e categorizações partilhadas pelos quais o conhecimento do mundo social se dão). Como perspectiva de trabalho em Media Rituals, opta-se pelo segundo viés. “Only the cognitive reading – because of its reference to everyday practices of categorisation – captures the pervasiveness of the structural links between media rituals and social life” (p. 8). O que está em jogo nesta afirmação é a própria diluição da ideia centralizadora da mídia e do corpo social. Ambos estão em fluxo, em constante construção. O caráter pervasivo desta relação se manifesta nas práticas cotidianas dos indivíduos enquanto partes constituintes da sociedade. Esta ligadura entre os indivíduos que resulta na ideia de um corpo social é influenciada diretamente pelas relações de poder e pela economia. “Modern societies, he [Durkheim] argued, are linked primarily by ‘organic solidarity’, based in the divisions of labour and economic life: the systematic linking of people who are precisely different in their social roles” (p. 8). Couldry afirma ainda que não há comparativo moderno ao ritual em torno dos totems em sociedades primitivas – os quais fixavam os valores e significações de determinada comunidade. Ou seja, a pervasividade apontada há pouco é central para a compreensão dos rituais de (ou da) mídia.

Beyond functionalism:

Neither too much order…

A perspectiva funcionalista em torno do social se baseia em três afirmativas principais: 1. as relações – quaisquer que sejam elas – são resultado do “funcionamento” do todo social e suas partes menores; 2. existe sim um “todo social”, a exemplo de territórios nacionais; 3. a integração social é a principal característica sociológica das sociedades e não algo secundário ou incidental. Ao apresentar estas três premissas, Couldry nega a sua adoção na construção do argumento que baseia o livro. Em outro viés, aproxima-se das ideias de Bourdieu devido à consideração da dimensão política da “ordem” social.

Em certa medida, é a própria ideia de “social” como algo estático, cristalizado, primaz com relação ao indivíduo que é questionada. Em Media Rituals, esta estrutura é compreendida em processo dinâmico, em constante produção. Da mesma maneira, problematiza-se o papel da mídia na formação deste coletivo, considerando-a enquanto mecanismo condicionante da partilha simbólica.

…Nor too little order

O autor traça aqui o mesmo caminho do tópico anterior, considerando, no entanto, a perspectiva contrária à sociologia durkheimiana. No caso, rejeita a ideia radical de que o frenético fluxo global de informações resulta na destruição da camada simbólica que agrega os indivíduos em um social. Segundo Couldry, esta postura não atenta à observação dos princípios de ordem social que persistem, como por exemplo, a noção de quem somos e ao que pertencemos.

Ao apontar as fragilidades de ambas as perspectivas (o mito da ordem fundamental e o mito da desordem fundamental), afirma que a mídia está envolvida na própria noção que é fundamental à constituição destes mitos. “…in media sociology we have yet to discover a coherent alternative that sufficiently recognises the pervasive pressures towards order in mediated societies” (p. 12).

Tracing media rituals across social space

O intento do autor neste momento do texto é ressaltar que uma aproximação não-funcionalista aos rituais deve considerar o processo mais amplo de “ritualização” no processo social. Ou seja, de que forma um media ritual emerge? Qual o cenário que permite este fenômeno? Neste sentido, os rituais em si (expressões desta ou daquela ideia) não importam tanto, mas é fundamental compreender o ritual space resultante da relação mídia/corpo social.

The ‘ritual space’ of the media

As relações de poder em torno da criação do espaço ritualístico da mídia guiam este tópico. “I use the word ‘space’ here metaphorically, as a convenient term to refer to the whole interlocking mass of practices that must be ‘in place’ for there to be ritual action oriented to the media” (p. 13). Em outras palavras, compreende-se “espaço” enquanto conjunto de práticas e normas que comportam certas ações (rituais) relacionadas à mídia. Este mesmo espaço não é igualitário, pelo contrário, possui sua base na concentração de poder simbólico por parte dos media e é constantemente reconstruído a partir de padrões de ações localizadas. Ilustrações desta relação são as mais diversas: a maneira como agimos ao encontrar uma celebridade ou ao aparecermos na televisão, por exemplo, constituem o que Couldry denomina media rituals. O autor pretende, justamente, penetrar a caixa preta dos mecanismos que governam a distribuição das representações nos grupos sociais.

Ritual categories

A concepção de Durkheim acerca das categorias são a chave para compreender este jogo de influências. A “categorização” são princípios que fundamentam os julgamentos e argumentos da sociedade, ou melhor, é o que dá condição à existência de “segurança ontológica” (como Giddens nomeia aquilo que permite ao indivíduo perceber-se indivíduo e membro de um coletivo).

Como dito, este processo de organização social está em constante movimento e tal dinâmica não é algo igualitário, mas sofre influências da concentração de poder nos media. O conceito de durable inequality é trazido neste âmbito, como a necessidade de persistente reprodução de categorias, processo que geralmente passam despercebido devido à sua incorporação nas práticas cotidianas.

Mais uma vez, conceitua o tema principal do trabalho em questão: “The term ‘media rituals’ is designed to imply neither a simple order nor a simple disorder, but a complex and never fully stable interaction between order and disorder” (p. 15).

 

Media rituals within the wider field of media research

O foco neste ponto é apresentar duas perspectivas distintas acerca das consequências da mídia sobre a vida social: uma pessimista e outra otimista.

Negative readings of the media’s effects

Trazendo autores como Baudrillard, Boorstin e Debord, apresenta as críticas de que a mídia desvaloriza a vida social, reduzindo a política a “pseudoeventos”, transformando pessoas públicas em “pseudopessoas”. Algo relevante aqui é conjugação feita entre as consequências sociais da mídia com um modelo sociológico de produção cultural. Citando Debord, “the spectacle is the map of this new world” (p. 16).

Positive readings of the media’s effects

“The only reality that media studies knows is a political reality. (…) It has a great difficulty with any idea of ordinary unpolitical daily life, and its everyday concerns and enjoyments” (p. 17). Precisamente, as leituras mais otimistas acerca da influência da mídia concentram-se nas potencialidades destes meios em diminuir distâncias, aproximar indivíduos, informar seus espectadores etc.

Como balanço geral desta dualidade, Couldry afirma: “positive evaluations of the media process address well how media penetrate the daily texture of private and public life, but fail to consider the social impacts of media power. Negative evaluations, by contrast, address media power, but lack engagement with media’s place in our everyday lives” (p. 18).

Mediated ‘reality’ and power

Aproximando-se da conclusão, o autor afirma que não é possível separar nossos anseios e nossos mitos, nossos momentos de ajuntamento ou conflito de uma perspectiva na qual a mediação é fundamental. Consequentemente, não se desconsiderar a desigualdade no tocante à distribuição de poder que abarca o corpo social como um todo (pessoas/mídia). “In contemporary mediated societies, almost all possibilities of ‘acting in common’ must pass through social forms (media forms) that are themselves inseparable from highly uneven effects of power” (p. 20). Esta afirmativa resume boa parte do argumento que fundamenta o Media Rituals.


[1] “What I do not want, however, by introducting the term ‘media rituals’ is to mystify what the media is, and its implications for questions of power.” (p. 4)

Felippe Thomaz

Felippe Thomaz é mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, onde examinou, na ocasião, o processo de construção identitária do jogador em MMORPGs, através de avatares. Doutorando pelo mesmo programa, seu objetivo mira agora a compreensão da influência exercida pelos variados dispositivos de controle sobre a experiência de jogos eletrônicos. Examinando o uso de joysticks, teclado e mouse, interfaces touchscreen e sensores de movimento, a questão que baseia a pesquisa, simplificadamente, é: de que maneira as formas de controle influenciam a própria experiência do jogar um game?

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