Media, Place and Mobility: Capítulo 3

Capítulo 3 – Forms of Dwelling in a World of Flux

Por Thais Miranda

No terceiro e último capítulo de mais este livro estudado pelo GITS | UFBA, intitulado Media, Place and Mobility, o autor, Shaun Moores, discorre acerca das formas de habitação num mundo de fluxos – como é chamado o capítulo em questão. De início, Moores retoma as principais questões abordadas no capítulo anterior, para então apresentar o objetivo do presente capítulo: dar continuidade à discussão acerca das relações entre lugar e mobilidade. O principal foco do autor, entretanto, concentra-se nas abordagens que se referem às mobilidades transnacionais e às interseções local-global. A pergunta norteadora do capítulo, segundo Moores, citando David Morley (2000, p. 13) será: “Como, em um mundo de fluxos, as formas de habitação são sustentadas e reinventadas?” Questões sobre a transnacionalidade são levantadas em sua discussão crítica sobre as noções de placelessness – na qual a ideia problemática de homogeneização global foi mencionada. Entretanto, Moores afirma que as respostas apresentadas ao longo do capítulo oferecem uma visão mais suave acerca dos processos de globalização contemporâneos, quando comparados às encontradas nas obras Place and Placelessness (Ralph, 2008) e em Non-Places (Augé, 2009).

Dwelling and Traveling

Moores inicia as discussões explicando que recorrerá ao ensaio seminal de Clifford (1997) sobre “culturas viajantes”, já que o texto ajuda a pensar a questão das mobilidades, incluindo a ideia de “viagem imaginativa de assistir televisão” (Urry, 2000), bem como pela forma com que ele defende uma análise cultural combinada de práticas de habitação e viagem. Clifford foi o responsável por fazer com que Moores discuta temas como lugar e mobilidade, juntos, em um mesmo livro.

Segundo Moores, o ponto de partida do ensaio de Clifford é uma reflexão crítica sobre determinadas estratégias de pesquisa etnográficas tradicionais que têm sido aplicadas na Antropologia. O interesse específico de Clifford é: de que forma os antropólogos olham, tradicionalmente, para seus objetos de pesquisa – em particular, os “termos espaciais”, como cidades, locais delimitados etc? A construção de um campo de trabalho nesse sentido, como uma “prática de co-residência” em locais delimitados, mais do que uma “viagem de pesquisadores que se movimentam mundo afora”, envolve deixar de fora do enquadramento etnográfico, aspectos importantes. Os meios de transporte são esquecidos. Essas tecnologias sugerem contatos recorrentes e práticas de comércio com lugares exteriores e forças que não fazem parte do campo. O “estar lá” é separado do “chegar lá” ou do “viajar para chegar lá” (Clifford, p.23).

Moores destaca que Clifford não está preocupado apenas com as viagens feitas pelos pesquisadores. Antropólogos e nativos posicionam-se diferentemente em relação às questões de movimento e de residência, mas alguns desses últimos podem viajar longas distâncias, o que faz com Clifford questione: por que os antropólogos não se concentram em alguma cultura de viagem – deslocamento – em escalas de longa distância, ao mesmo tempo em que observem seus centros, suas cidades, suas áreas rurais intensas? Segundo Moores, as palavras-chaves aqui são “while also” (ao mesmo tempo) – já que o objetivo não seria o de substituir a figura cultural do nativo pela figura intercultural do viajante, mas sim de recomendar que as dinâmicas específicas de habitação e viagem precisam ser compreendidas. Assim, Moores destaca que é necessário considerar as mudanças nas formas de habitação em um mundo de fluxos, sem deixar para trás questões de hábito, afeto e attachment (pertencimento) ao ambiente da vida cotidiana. Também não significa esquecer questões importantes sobre geografia situacional e comunicação mediada. Entretanto, uma grande atenção deve ser dedicada ao “movimento in and out” (entrada e saída) dos ambientes – o que Ingold (2007) considera como um dos elementos significativos do place-making (formação de lugares) na vida em sociedade.

Na sequência, Moores explica que enquanto ele se apoiava nas propostas de Clifford, outros pesquisadores desenvolviam pontos de vista semelhantes, na década de 90, sobre as formas através das quais os antropólogos, tradicionalmente, olhavam para seus objetos de estudo, em culturas de locais delimitados. Um deles foi o Ulf Hannerz (1996), com seu livro Transnational Connections: Culture, People, Places. O outro autor, mais caro à discussão de Moores, é o Arjun Appadurai (1996). Appadurai defende uma antropologia transnacional, argumentando que existem mudanças sociais – de escala global – com as quais a etnografia precisa se confrontar. Segundo Appadurai (1996, p. 48):

Quando um grupo migra, ele se reagrupa em uma nova localidade. E reconfigura seus projetos étnicos. O “etno” da etnografia torna-se escorregadio e as práticas descritivas precisam responder a tais mudanças. O cenário de uma identidade de grupo mundo afora não são mais objetos antropológicos familiares, fortemente territorializados, espacialmente delimitados. Existe uma urgência em focar nas dinâmicas culturais da desterritorialização.

Para a presente obra de Moores, particularmente, interessam dois aspectos da argumentação de Appadurai: (1) O primeiro é a relação estabelecida entre migração e mídia, ou entre os termos “ethnoscapes” (cenários étnicos) e “mediascapes” (cenários midiáticos). (2) O segundo é a ideia de que “a globalização da cultura não é sinônimo de homogeneização” (Appadurai, 1996, p. 42).

Discorrendo sobre (1) a relação estabelecida entre migração e mídia, ou entre os termos “ethnoscapes” (cenários étnicos) e “mediascapes” (cenários midiáticos), Moores cita Appadurai, a partir da definição de “ethnoscapes” como “um cenário/paisagem de pessoas que constituem o mundo em mudança – onde vivemos: imigrantes, refugiados, exilados, trabalhadores convidados e outros grupos ou indivíduos que se movem” (Appadurai, 1996, p. 33). Já o conceito de “mediascape” é aplicado para fazer referência à circulação de sons e imagens mediadas eletronicamente. O interesse de Appadurai é o de entender como se dá o encontro entre essas moving-people, que se reagrupam em novas localidades e os sons e imagens que circulam.

Alguns exemplos do que interessa a Appadurai: Trabalhadores turcos em visita à Alemanha assistem filmes turcos em seus apartamentos alemães; Taxistas paquistaneses, em Chicago, escutam sermões gravados em cassetes, nas mesquitas do Paquistão. “As migrações em massa (forçadas ou voluntárias) não são uma novidade na história da humanidade, mas quando elas são justapostas com o rápido fluxo de imagens massivamente mediadas, aí temos uma nova ordem – de subjetividades modernas” (Appadurai, 1996, p.4).

Para além, Appadurai acredita que existe a criação de “esferas públicas de diáspora”, que são geograficamente dispersas além das fronteiras nacionais. Moores considera que os exemplos trazidos por Appadurai são bons como ilustrações de comunicações transnacionais e de comunicações de diáspora – e as circunstâncias sociais através das quais os projetos étnicos se reconfiguram são mais ainda mais complexas. Ele destaca que o exemplo do paquistanês ilustra como as chamadas “pequenas mídias” ocupam um papel importante na comunicação de diáspora, juntamente com os meios convencionais e massivos. O autor completa que, atualmente, podemos incluir na discussão o papel da internet, como condutor das comunicações audiovisuais e interpessoais entre familiares de continentes diferentes.

Sobre (2) o segundo elemento destacado, a ideia de que “a globalização da cultura não é sinônimo de homogeneização” (Appadurai, 1996, p. 42), Moores afirma que tal afirmação contradiz as ideias de Ralph e Augé no que tange a difusão da uniformidade e também dos conceitos de placelessness e non-places. Autores como Hannerz (1996,2001) e Appadurai (1996) escolheram, ao contrário, enfatizar a heterogeneidade, embora seja vital perceber que essa heterogeneidade envolva mais que as velhas diferenças de um mosaico global. Em um ecumenismo global, as conexões transnacionais ajudam a desenvolver novas e diferentes culturas misturadas ou confluências numa miríade de padrões sociais locais. E então existe amplo espaço para um estudo aprofundado de geografias e histórias específicas – mas que demanda, como enfatiza Moores, métodos móveis de pesquisa.

Com o objetivo de retornar à questão norteadora do capítulo, Moores retoma ideias de Clifford sobre “habitação em viagens” (dwelling-in-travel). Clifford apresenta um exemplo, considerado como um caso extremo de “dwelling-in-travel”: Um grupo de artistas veteranos toca violão típico do Hawaii, canta e dança, mas suas experiências de vida são de ininterruptas viagens. A pergunta colocada por Clifford é: como eles conseguiram preservar e inventar uma noção de “lar” no Hawaii? Moores afirma que, tendo em vista as ideias de Bourdieu, Clifford responde que essa manutenção e reprodução da noção de “lar” construída à distância é algo como um “hábito, um conjunto de práticas e disposições que poderiam ser lembradas e articuladas em contextos específicos”.

Moores amplia o conceito de Clifford, com o objetivo de permitir um entendimento completo sobre os usos comuns das tecnologias de mídias móveis. Interessa ao autor as práticas cotidianas da comunicação/telefonia móvel e também o fenômeno social que Morley (2003) chama de “deslocamento da domesticação”. Esse deslocamento, que também implica num grau de recolocação e numa atividade de place-making em espaços midiáticos, ocasiona uma mobilização tecnológica de “at-homeness”. Moores recorre a Bull (2010, p. 185) para explicar que “uma das coisas que o telefone móvel faz é descolcar a ideia de home. O telefone móvel nos permite levar nossas casas conosco”.

Por fim, Moores retoma a discussão sobre desterritorialização, a partir de Appadurai (1996). Moores propõe uma ampliação desse conceito, mencionando a importância do livro Globalization and Culture, de John Tomlinson (1999). Tomlinson entende que a viagem transnacional física, incluindo a migração, tem se mostrado importante para o processo de globalização, mas que não se deve exagerar nessa ênfase. Para ele, é na transformação das localidades, que a globalização encontra sua mais importante expressividade. Tomlinson chama de experiência mundana da desterritorialização, àquela em que nossas vidas diárias ficam cada vez mais entrelaçadas com – e penetradas por – influências que se originam de longas distâncias. Mídia e tecnologia da comunicação ocupam papel importante no entrelaçar do local com o global e, segundo Tomlinson, tais tecnologias proporcionam entradas e saídas para nossos espaços íntimos.

A Global Sense of Place

Moores inicia essa parte do capítulo retomando a discussão sobre globalização e transformação das localidades. Para tanto, ele se baseia em argumentos da geógrafa Doreen Massey que propõe “um repensar sobre o conceito de lugar” (Massey, 1994, p. 120), capaz de caber em circunstâncias sociais contemporâneas. Moores pretende refletir sobre a noção de Massey acerca de senso global de lugar, ou, em outras palavras, no que acontece com a noção de lugar agora, em tempos de globalização. Massey escreve sobre a abertura de lugares, rejeitando concepções prévias de lugar como algo fechado. Importante ressaltar que para a autora, os processos de globalização não estão eliminando a singularidade local. Para Massey (1994, p. 5), “a particularidade de qualquer lugar é construída precisamente através da especificidade de links e interconexões para “além”. O global é parte do que constitui o local. Lugar é aberto e poroso”.

Moores ressalta que uma das maiores características do trabalho de Massey é a quantidade de exemplos que ela utiliza para ilustrar seus argumentos teóricos e aparentemente abstratos. Os exemplos de Massey, trazidos por Moores são o de Londres (onde Londres termina?) e o de Kilburn High Road (shopping em Londres). Em ambos os casos, o ponto principal está relacionado às suas linhas de engajamento com outro lugar, como importantes jornais e performers visitantes, que são parte do que fazem com que aquilo seja o que de fato é. O autor pontua que outra questão interessa a Massey: trata-se do que chama do caráter único/singular de Kilburn. Enquanto Kilburn pode ter uma singularidade, esta não é uma identidade sem costura, coerente, com uma única noção de lugar que alguém compartilha. Pelo contrário, Massey explica que sua vizinhança possui múltiplas identidades, ligadas às diferentes pessoas que ali circulam e às conexões – físicas, por telefone, por memória ou imaginação – que elas fazem entre aquele lugar e o resto do mundo.

Moores também apresenta outros exemplos utilizados pela geógrafa, visando ilustrar as dinâmicas de classe e gênero que podem surgir quando se investiga questões como espacialidade. Para Moores, o investimento de Massey em se debruçar sobre questões como desigualdade social e poder alcançam seu ponto alto quando ela escreve sobre “o poder geométrico da compressão tempo/espaço” (Massey, 1994, p. 149). O conceito de compressão tempo/espaço está associado com o trabalho do geógrafo David Harvey (1989), com o qual ela discorda em alguns pontos. Para discorrer sobre o tema, Massey se vale de exemplos de grupos com membros que possuem diferentes experiências de espacialidade e mobilidade. Massey menciona as fronteiras nacionais e a polícia de imigração, o que faz com que Moores estabeleça uma conexão com os conceitos de openness e permeabilidade dos lugares. Segundo ele, tendo em vista que, como argumenta Massey, os lugares não se prestam a ter fronteiras desenhadas em sua volta, ela, ainda assim, reconhece o fato de que as fronteiras importam como um meio de organizar o espaço social. Moores complementa que as teorias de permeabilidade do local ou do regional do nacional não podem excluir a possibilidade de que o place-making pode envolver práticas excludentes.

Finalizando esse trecho, o autor afirma que o senso de lugar global defendido na tese de Massey representa uma contribuição valiosa aos trabalhos anteriores sobre lugar, no campo da geografia humana. Como aspecto positivo dessa contribuição, Moores destaca o fato de Massey levar em consideração, ao conceituar lugar, a interseção das relações sociais locais e globais. Como crítica, o autor afirma sentir falta de uma atenção detalhada à experiência do ambiente e das questões de habitação. Para Moores, tanto a preocupação com habitação e práticas incorporadas, como o interesse pela abertura de lugares ou conexões transnacionais contemporâneas são necessários para se chegar à discussão sobre habitação em um mundo de fluxos.

Space of Flows/Places

Nessa seção, Moores relembra o exemplo trazido no capítulo anterior (aeroporto de Amsterdam como um nó em um espaço global de fluxos) para fazer uma diferenciação entre conceitos usados por Manuel Castells (1996): espaço de fluxos e espaço de lugares. O autor concentrar-se-á, assim, na teoria social de espaço, tendo como foco aquilo que ele julga como problemas na forma com que Castells lida com lugar e mobilidade – ou ainda na relação entre espaço e fluxos.

O espaço é definido por Castells (1996, p. 411) como “o suporte material das práticas sociais de tempo compartilhado”, embora ele pondere que as práticas simultâneas de hoje não perpassam, necessariamente, pela contingência física dos participantes, em uma dada interação social. De fato, para Castells, é fundamental separar as noções de suporte material de práticas simultâneas, da noção de contingência. Isso se deve ao fato de existir, no ponto de vista de Castells, uma nova forma espacial – que ele denomina de espaço de fluxos. E é esse espaço que ele acredita ser a característica da sociedade em rede. Castells defende que “a nossa sociedade é construída em torno de fluxos – fluxos de capital, fluxos de informação, fluxos de interação organizacional, fluxos de som e imagem. Tais fluxos têm facilitado o desenvolvimento tecnológico como a microeletrônica, telecomunicações, processamento computacional, sistemas de broadcasting e transportes ultra-rápidos.

Moores discute que é nesse ponto, quando Castells introduz seu conceito de espaço de fluxos, que ele primeiro reflete sobre as conseqüências dos fluxos para alguns lugares na sociedade em rede. Para Castells (1996, p. 412), “o espaço de fluxos não é placeless (sem lugar). Lugares não desaparecem, mas sua lógica e seu significado são absorvidos pela rede. Nenhum lugar existe por si mesmo. Lugares são nós da rede, a localidade de funções estratégicas. Como exemplo, Castells se vale do fluxo do sistema financeiro global, no qual os nós dessa rede seriam localidades como os centros de serviço que operam trocas de mercado de ações, em todo o mundo.

Para Moores, o argumento desenvolvido por Castells se aproxima das ideias de Massey sobre a noção global de lugar.  Assim como ela, Castells defende que os lugares não desaparecem, ainda que em circunstâncias de globalização e eles também precisam ser entendidos como relacionais – o que Massey chamava de “linhas de engajamento com outros lugares”. Para Moores, apesar das similaridades nos pensamentos de Castells e Massey, é o conceito de abertura de lugar (openness of place) em tempos de globalização, proposto por Massey, que mais se apresenta como convincente e coerente.

Para justificar sua escolha, Moores recorre ao conceito de espaço de lugar, proposto por Castells. Moores explica: Quando Castells afirma que lugares são nós, com lógica e significado que são absorvidos pela rede, é fundamental atentar que ele se refere apenas a tipos específicos de localidades – aquelas que possuem funções estratégicas para o espaço de fluxos. Nesse sentido, Castells não entende essas localidades-nós como partes constituintes do espaço de lugares. O que Moores deseja enfatizar, aqui, é a confusão que Castells estabelece entre espaço de fluxos e espaço de lugares, mas também entre lugares como nós numa rede e outros tipos de localidades que Castells considera como não pertencentes ao espaço global de fluxos.

Fundamentalmente, a diferença que Castells estabelece entre espaço de fluxos e espaço de lugares tem a ver com questões de desigualdade social e poder. Ele entende o espaço de fluxos como processos dominantes e como funções na sociedade em rede. Já o espaço de lugares é associado a funções e pessoas subordinadas, que moram em locais físicos, considerados como segregados e desconectados uns dos outros e também desconectados do próprio espaço de fluxos. A crítica de Moores se torna mais acirrada quando Castells afirma que, como resultado dessa divergência crescente entre as duas formas de espaço, nós podemos estar caminhando rumo a uma vida com universos paralelos. Nesse ponto, Moores lembra que Castells esquece a ideia de experiência mundana de desterritorialização, identificada por Tomlinson.

Aparentemente, as propostas de Castells parecem estar alinhadas às propostas de Massey, já que ela também indica uma divisão entre pessoas poderosas que geram movimento e se comunicam e grupos subordinados, que são mais enraizados aos seus locais físicos. Entretanto, para Moores, a proposta de Massey sobre espacialidade e mobilidade tem muito mais requinte que a de Castells, já que ela considera que existem muitos outros grupos que também estão se movimentando fisicamente – o que ela chama de jet-setters. E Moores continua sua crítica. Para além, diz ele, a defesa de Castells de que a maioria das pessoas mora em espaço de lugares – e que são desconectados dos fluxos ou das mobilidades – vai de encontro à tese principal de Massey sobre o senso global de lugar e da rejeição dela à concepção de lugar como espaço fechado. A ideia de Castells de que “as pessoas são locais” parece não reconhecer a transformação das localidades nos contextos de globalização – em que ninguém no primeiro mundo, atualmente, vive completamente local, ou localmente.

 De acordo com Moores, os principais problemas dos exemplos que sustentam os argumentos de Castells têm a ver com o fato dele se concentrar na descrição do bairro em que morava – Belleville, em Paris. Moores acredita que isso compromete sua teoria social do espaço e discorre sobre isso, a partir de uma breve descrição de Castells sobre Belleville. Por fim, no final da seção, o autor explica que Castells reviu seu ponto de vista sobre espaço de lugar e espaço de fluxos – ao invés de olhar para eles como formas opostas de espaços, o que conduzia à ideia de universos paralelos, o autor já afirma que “a geografia na nova história não será feita, afinal de contas, da separação entre lugares e fluxos, mas da interface entre eles” (Castells, 2000, p. 27). Moores finaliza dizendo que prefere a visão atualizada de Castells, que ele acredita combinar mais com o olhar de Massey sobre a noção global de lugar – e na qual ele se sustenta para desenvolver o argumento do livro: o entendimento de diversas mobilidades como essenciais para a constituição de lugares na vida social.

The Social as Mobility

Moores começa a seção ressaltando dois livros de John Urry: (1) Sociology beyond Societies: Mobilities for the Twenty-First Century (2000) e (2) Mobilities (2007). O destaque dado ao referido autor se dá ao fato dele ser considerado, por Moores, como um dos principais teóricos do estudo sobre mobilidade, no campo das Ciências Sociais. O objetivo de Moores, nesse momento do livro, é o de enfatizar aquilo que ele próprio considera como aspectos-chave da teoria de Urry sobre “o social como mobilidade”, incluindo uma reflexão sobre as maneiras com que ele lida com os conceitos de lugar e habitação, quando comparados com viagem ou mobilidade.

Ao discorrer sobre a obra de Urry, Moores considera fundamental a análise sociológica do autor acerca das “cinco mobilidades interdependentes” – que produzem vida social através de longas distâncias – já que tal ideia de muitas viagens contribui para a inserção da comunicação nos estudos de viagem e transportes. Moores discorre sobre as cinco mobilidades de Urry: (1) A primeira delas está relacionada ao movimento físico, ou à viagem corpórea a que as pessoas se submetem – com objetivos de trabalho, aprendizagem, migração etc. (2) O segundo tipo de mobilidade é aquela relacionada ao movimento físico dos objetos na vida social ou coisas-em-movimento. Um dos exemplos de Urry é o do walkman – como uma tecnologia de portabilidade. (3) Os três próximos tipos de mobilidade estão relacionados aos usos de meios de comunicação. A viagem imaginativa, a priori, está relacionada diretamente ao ato de assistir TV, mas Urry também reconhece que as pessoas viajam através de fotografias, guias de turismo, cartões postais etc. O exemplo utilizado é o do funeral da Princesa Diana, em que é possível, segundo o autor, estar em dois lugares ao mesmo tempo – ao acompanhar o evento ao vivo, pela televisão. (4) A quarta mobilidade seria a viagem virtual, através das redes de computadores – capaz, segundo Urry, de desenvolver o que ele chama de proximidade virtual. Nessa proximidade, os tipos de viagem e presença envolvidos

mudam o caráter e a experiência da co-presença – já que as pessoas sentem-se próximas, ainda que estando distantes. Moores tende a entender essa proximidade virtual não como uma alteração/mudança, mas como uma espécie de continuidade de outro tipo de presença mediada, ou mesmo de uma intimidade à distância. Por fim, Moores chama atenção, criticamente, ao fato de Urry insistir que a viagem e a proximidade virtuais não substituem o movimento físico, nem a co-presença física. O argumento principal de Urry é de que é fundamental pesquisar as diferentes formas de viagem e mobilidade, diante do seu caráter interdependente – tese que ele defende. (5) Por fim, Urry trata da mobilidade de viagem comunicacional – com complexas inter-relações entre comunicação e transporte -, já que ele menciona o número crescente de tecnologias midiáticas (ipod, laptop e telefone celular), explicitamente projetadas para serem usadas enquanto as pessoas se movem, em contextos de viagens corpóreas.

Ainda sobre esse tema, Moores destaca duas observações de Urry: (1) A primeira é a formação das culturas de encontros fluidos. Para Urry, a telefonia móvel leva a um contexto em que a “hora de relógio” é substituída pelo tempo fluido da comunicação móvel – encontros que podem ser negociados durante o movimento de deslocamento, antes finalizado na hora da partida. (2) O outro ponto diz respeito ao armazenamento e recuperação do afeto. (Exemplo da brasileira estudando num café em Londres, sem conseguir se concentrar porque precisa falar com a filha. Sem conseguir sucesso na ligação telefônica, ela escuta uma música, via iTunes, capaz de colocá-la em contato com a memória afetiva da família). E é esse item o mais explorado por Urry – a música utilizada em mídias móveis de áudio e vídeo alterando o contexto social através do qual as pessoas acessam música.

Para concluir a seção, Moores propõe uma reflexão sobre como Urry lida, de maneira sofisticada e interessante, com as questões de lugar e mobilidade. Para Moores, o potencial de Urry está justamente nas referências ao “corpóreo”, ao “emocional” e às semelhanças híbridas entre humanos e tecnologias. Moores acredita que Urry desperdiça a chance de explorar a realização/construção cotidiana de lugar através das atividades rotineiras de habitação. Por fim, Moores lembra o argumento de Urry de que as formas contemporâneas de habitação quase sempre envolvem diversas formas de mobilidade.

I Know how to Get Around

Nesse momento final do capítulo, Moores relata sua experiência em um projeto colaborativo de pesquisa, pontuando questões de ordem metodológica – para então, na sequência, retomar comentários previamente feitos por ele, sobre o texto A Geography of Lifeworld, de Seamon. Sobre os aspectos metodológicos, Moores destaca aquilo que Urry chama de método de pesquisa móvel – viajar com as pessoas e observando suas atividades rotineiras. A partir das experiências vividas com seu projeto de pesquisa, Moores levanta algumas questões, como por exemplo: Será que as migrações físicas transnacionais sempre obtêm resultados mais aprofundados e prolongados sobre as quebras da rotina? Seriam essas espécies de conseqüências sociais nas quais as pessoas são capazes de trazer aspectos do conhecimento prático para a consciência discursiva?  Poderia uma pesquisa nesse período – de seguir a migração – ser um daqueles em que os pesquisadores entendem como as pessoas reconstituem as noções de lugar?

Moores segue relatando detalhes de entrevistas realizadas em 2006 e 2007, com um grupo de vinte jovens, entre 18 e 34 anos, que migrou para o Reino Unido. Dentre os entrevistados, Moores destaca o caso de Petra, uma húngara que se mudou de Budapeste para Londres e à medida que foi se familiarizando com os movimentos de deslocamento, estabeleceu uma relação afetiva com a cidade. Além disso, Petra se sentia em casa a partir das notícias sobre Budapeste, acompanhadas através da comunicação mediada. Outro exemplo ressalta o desconforto de outra jovem, advindo da falta de familiaridade nos novos espaços do carro e na cena urbana – levando a dores de estômago e falta de ar. Alguns temas são destacados por Moores, fruto da referida pesquisa. São eles: (1) a primeira impressão dos imigrantes trans-europeus, ao chegarem na Inglaterra; (2) o gradual surgimento das noções de lugar, em novas redondezas físicas; (3) reflexões previamente tidas como certas e noções de lugar previamente estabelecidas; (4) o alcance que é conferido ao transporte e aos links comunicacionais dos trans-europeus.

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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