Media, Place and Mobility: Capítulo 02 – Parte 2 de 2

Capítulo 02 – When space feels thorowghly Familiar

(parte 2 de 2 – p.47 a 68)

Por Claudia Galante

Knowledge in the hand

O filósofo contemporâneo Taylor Carman (2008) explana sobre a colocação de Merleau-Ponty: Percepção não é uma representação mental, mas uma orientação dada pela habilidade corporal.

Ponty critica o dualismo entre corpo e mente e coloca ainda, no livro Phenomenology of Perception, que o corpo é um lado do sujeito e não está separado do espírito. Ele habita o espaço, é como as mãos em um instrumento. Nós compreendemos o espaço através de situações com nosso corpo.

Moores traz três exemplos propostos por Ponty (1) bengala do cego, (2) instrumento musical e (3) máquina de escrever, como veremos abaixo:

Moores coloca que o melhor exemplo trazido por Ponty é a bengala do cego, que se torna uma extensão do corpo e dos sentidos.

Outro exemplo que trazido por Ponty que Moores considera relevante é do instrumento musical. Ao aprender tocar um instrumento, como o órgão, é importante perceber que não são apenas movimentos fixos repetidos diversas vezes. É necessário uma flexibilidade e adaptação do corpo. Com o tempo, as fronteiras entre corpo, instrumento e o ambiente acústico tornam-se imperceptíveis.

Outro exemplo trazido por Ponty foi a máquina de escrever (é importante colocar que quando o livro Phenomenology of Perception foi escrito, em 1964, a máquina de escrever não era obsoleta). De acordo com Ponty, é possível saber como escrever na máquina sem saber dizer onde as letras estão. O escritor sabe onde as letras estão assim como sabe onde seus membros do corpo estão.

O corpo conhece de acordo com o hábito, com a familiaridade. O fenômenos do hábito é o que nos leva a uma noção de entendimento e de corpo. O hábito leva-nos a familiaridade com o mundo.

O socioólogo Nick Crossley (2001) faz uma aproximação ao exemplo de Ponty e coloca: “Eu digito no computador e sei onde estão as letras no teclado. Eu não tenho que procurá-las uma a uma… meus dedos simplesmente se movem na direção da tecla correta. Eu não preciso de uma reflexão, eu não sei onde as teclas estão em um senso reflexivo. É uma prática, um conhecimento do corpo, diferente do conhecimento discursivo.

Crossley traz termos como “Saber sem saber” e “Know how do corpo”. Ele emprega termos como conhecimento pré-reflexivo (outros autores já tinham trazido o termo pré-cognitivo) para diferenciar o “saber sem saber” do conhecimento reflexivo ou discursivo, considerado mais convencional.

Moores coloca que uma importante contribuição para análise da mídia do que Ponty chamou de “conhecimento nas mãos” foi o livro de John Tomlinson, de 2007, The Culture of Speed: The coming of Immediacy”. Tomlinson combina o interesse nas tecnologias dos meios de comunicação com a história do desenvolvimento das tecnologias de transporte e outros tipos de “tecnologias da velocidade”.

Ele coloca que nossa habitual maneira de acesso via teclados obviamente envolve o corpo, particulamento as mãos e o sentido do tato. Usando teclados em várias atividades do nosso dia a dia, adquirimos hábitos e ritmos corporais sensoriais. Essa destreza, criada da familiaridade, é chamada também de “conhecimento dos polegares”. Há uma memória do corpo.

Seguindo na mesma direção de Tomlinson, Mark Nunes (2006), propõe um estudo sobre o duplo click no mouse. O conhecimento nas mãos está intimamente ligado com a mobilidade mediada tecnologicamente e essa interconexão pode constituir lugares.

Acessar e navegar com cliques, teclados ou botões seriam lugares na concepção de Tuan – lugar como realizações experienciais. O link direto entre conhecimento do corpo e mobilidade mediada tecnologicamente deixa dúvidas sobre a descorporificação da existência online. Moores coloca que questões corporais deveriam ser temas centrais nos estudos de mídia.

Everyday environmental experience

Moores traz o livro de David Seamon, A Geography of the Lifeworld: Movement, rest and Encounter para fazer outras considerações acerca da experiência. Seamon, alguns anos mais jovem que Tuan e um dos pioneiros na geografia fenomenológica, focou seu trabalho na experiência ambiental cotidiana. Para realizar sua pesquisa, utilizou do que ele chamou de grupos de experiência ambiental e analisou o significado do hábito e da rotina, movimentos padrões do cotidiano e emoções relacionadas ao lugar. As discussões gravadas nos grupos foi a base de sua pesquisa. Seamon caracteriza seu trabalho como envolvimento experiencial das pessoas com seu mundo cotidiano geográfico.

Antes de entrar nos dados que Moores considera relevante no trabalho de Seamon, eles faz duas considerações: (1) o caráter inovador da pesquisa de Seamon (apesar de algumas críticas) e (2) alguns dos termos-chave em seu vocabulário conceitual, ao lado do conceito de experiência ambiental cotidiana, são úteis nas investigações de mídia, lugar e mobilidade.

Seamon foi bem crítico quanto ao cognitivo. A cognição tem apenas um papel parcial no comportamento espacial cotidiano. Grande parte dos nossos movimentos cotidianos são pré-cognitivos e envolvem o conhecimentos pré-reflexivo do corpo. Seamon coloca ainda a importância dos movimentos cotidianos, incluindo andar e dirigir, para fazer lugares. O livro de Seamon pode ser considerado um precursos da Teoria da Não-Representação.

Seamon traz o conceito de body-subject. O corpo é uma parte da subjetividade. Os movimentos cotidianos estão amplamente integrados com as rotinas de tempo e espaço.

Seamon coloca também o termo “feeling-subject” para explicar o aspecto emocional ou afetivo do contato com o ambiente e da força do corpo nas emoções, que entrelaçados podem originar a familiaridade.

Os termos propostos por Seamon – body-subject, time-space routines, feeling subject e at-homeness – lidam com questões de hábito, afeto e apego ao meio ambiente na vida cotidiana.

Ele coloca também o termo “place ballets”, definido como uma interação de várias rotinas no tempo-espaço. Esses ritmos padrões do movimento humano têm a capacidade de criar forte senso de lugar.

A pesquisa de Seamon traz numerosos exemplos de como as forças do corpo e da emoção podem facilitar a familiaridade.

O termo place-ballets não é uma visão romântica da arte da vida, mas mosrta os fortes vínculos afetivos que se formam nas muitas rotinas no tempo-espaço (time-space rotines).

Moores traz duas falas da pesquisa de Seamon mostrando que a alteração na rotina incomoda os participantes. Quanto a isso Moores faz duas colocações relevantes: (1) Mudanças são encaradas como motivo de irritação e chateação. (2) uma alteração da rotina que incomoda muito é quando o participante não pode ler o jornal – o jornal tem uma função ritual, uma marca de confirmação. A leitura do jornal mostra que o café da manhã está em ordem.

A pesquisa de Seamon tem uma grande conexão com as discussões de Ponty acerca dos hábitos e do conhecimento nas mãos.

Hanging Out in the Virtual Pub

Moores inicia a seção trazendo o trecho do livro Hanging out in the Virtual Pub: Masculinities and Relationships Online, de Kendall (2002), que descreve o pub The Falcom.

A descrição é de um forum online, mas se encaixa perfeitamente nas descrições colhidas por Seamon em seus grupos. The Falcom mostra a dança criativa humana criando lugares. Kendall coloca que configuração de mídia síncrona, com respostas instantaneas, pode provocar um senso de lugar.

De acordo com Meyrowitz, podemos sim chamar o espaço virtual do The Falcon de lugar, uma vez que lugar é um espaço com realização prática e emocional. Porém, ela também se aproxima de Tuan e Seamon quando coloca a rotina vivida no pub com aspectos emocionais e afetivos de ação e interação com o ambiente online.

Moores aproxima Seamon e Kendall para fortalecer sua ideia de que pode-se tornar familiar tanto ambientes online quanto físicos. Porém, o autor enfatiza que outro motivo de trazer o exemplo de Kendall foi as importantes contribuições que ela traz sobre diferenças sociais e de poder (o pub era frequentado principalmente por homens). Isso traz a discussão sobre o lugar ser não só indas e vindas, mas um ambiente de exclusão – “Geographies of Exclusion (Sibley, 1995).

To Sociologize Phenomenological Analysis

Moores coloca que até então teve uma visão positiva em relação às perspectivas fenomenológicas, porém, a partir de agora, nestas três últimas seções, terá um tom mais crítico. Na penúltima seção e conclusão, irá contestar as reinvindicações sobre a ausência de lugar na sociedade contemporânea.

Moores traz como controvérsia Bourdieu, que coloca a importância de sociologizar a análise fenomenológica. Bourdieu coloca que o corpo está no mundo social, de acordo com Ponty, mas o mundo social também está no corpo.

O problema que Bourdieu vê na fenomenologia é que ela não dá atenção a especifidades históricas e culturais, incluindo divisões sociais, dentro dos quais tais relações familiares são formadas. Ela vem portanto com muito universalismo.

Para Bourdieu, sociologizando a fenomenologia, identifica-se diferentes disposições dos corpos na sociedade. A familiaridade considera uma coincidencia entre habitus e habitat.

Simon Charlesworth oferece uma ajuda para entender como sociologizar a análise fenomenológica. Charlesworth coloca que a experiência corporal não pode ser estudada separando-a dos aspectos culturais que a formaram.

Porém, não é só na sociologia, mas também na filosofia, que o trabalho de Ponty é considerado limitado. Lawrence Hass (2008) coloca:

“Para Merleau-Ponty o corpo é nossa potencialidade… em um campo de possibilidades… Mas… há uma outra dimensão que é loucura esquecer: o campo experimental é também político. É um local de relações de força… e Merleau-Ponty esqueceu do “corpo político” –  o que é uma grave omissão”.

Hass apresenta assim um engajamento feminista com a filosofia fenomenológica, assim como “Corporeal Feminism”, de Elizabeth Grosz (1994) e “Feminine Bodily Existence”, de Iris Young (1980).

Grosz, referindo-se ao trabalho de Ponty, coloca que não há corpo como tal, apenas corpos, anulando a questão das diferenças sexuais e de especificidade, e vai ainda mais longe afirmando que a generalização proposta considera apenas o corpo masculino. Ela defende que há um estilo particular no comportamento corporal feminino e na forma desse corpo feminino estar no mundo.

“A menina desde muito jovem adquire hábitos sútis de comportamento… andar como uma garota, ficar em pé e sentar como uma garota, gesticular como uma garota… Quanto mais uma garota assume um status feminino, mais ela inibe seu corpo.”

Isso indica a importância do corpo político feminino, apesar de Meyrowitz (1985) escrever sobre a mídia eletrônica e a situação andrógena, que também reflete como o aprendizado da masculinidade e da feminilidade tende a determinar a diferença no jeito de andar, falar, ficar de pé, sentar, olhar etc.

Moores retoma um tópico sobre os usos (e não usos) das tecnologias de mídia em ambientes materiais familiares. Um estudo de Ann Gray (1987) mostra os significados  de gênero dados a tecnologias usadas no cotidianos. Na pesquisa, Gray entrevista mulheres e pede que elas imaginem a cor dos equipamentos usados no cotidiano doméstico. O ferro de passar tem cor rosa, enquanto a furadeira é azul. Os equipamentos de entretenimento são de tom lilás. O video cassete pode ser dividido em partes: enquanto os botões “record”, “rewind” e “play” são lilás, o botão de liga e desliga, principalmente do controle, é azul.

Essa pesquisa é importante para ilustrar os significados culturais das tecnologias no contexto doméstico. Moores coloca que considera, pelo menos em parte do trabalho de Gray, as práticas corporais e disposições dos usuários de mídia e sobre como os significados emergem dessas práticas.

Place and Placelessness

Ralph é também um dos pioneiros em geografia fenomenológica e desenvolveu uma importante perspectiva experimental na formação de lugar na vida cotidiana. Uma das suas principais contribuições para o entendimento de lugar como realização prática e emocional é o conceito de interiorização existencial, que ele define como um lugar experimentado ainda sem reflexão deliberada e autoconsciente, cheio de significados… lado interno que a maioria das pessoas experimentam quando estão em casa ou na sua própria cidade ou região.

Seamon, fazendo uma conexão, coloca que essa interiorização existencial pode ser considerada como a forma mais profunda de familiaridade.

Ralph também propõe um termo oposto – exteriorização existencial, argumentando que é um tipo de exteriorização marcada por um senso de alienação, de não pertencimento. Isso pode ser sentido, por exemplo, por imigrantes ou por pessoas que quando retornam sentem-se estranhos – “Ausência de lugar geográfico”.

De acordo com Ralph, há um crescimento de ausência de lugar na contemporaneidade com a proliferação de espaços anônimos e ambientes de troca, que servem para minar a constituição de lugares significativos. Ele acredita que isso é causado pelo desenvolvimento na arquitetura, planejamento e tecnologia – criticando estruturas urbanas como locais para férias, arranha-céus, shoppings e conjuentos habitacionais. Ralph coloca ainda que essa emergência de ausência de lugar é resultado do desenvolvimento da comunicação de massa.

Na perspectiva de Moores, o argumento é falho e que as colocações de Ralph e Seamon dão muita importância para a arquitetura, planejamento e tecnologia como forças determinantes. Os habitantes desses lugares podem torná-los familiares com a repetição das práticas habituais. Mesmo Ralph e Seamon afirmam, próximos do trabalho de Tuan, que os lugares tornam-se familiares através da prática.

Non-Places

Augé apresenta uma visão sem vida do mundo, onde as pessoas nascem e morrem em hospitais, onde pontos transitórios e moradas temporárias estão se proliferando. Seu principal conceito é o de não-lugar.

O espaço de não lugar é algo que está ali apenas para ser atravessado, com a destruição de lugares de singularidade e a promoção de uma homogenização global.

Moores coloca mais uma vez que o argumento de Augé é falho – Augé supõe sobre o que sentimos em seu “não-lugar”, sem investigar a experiência de pessoas socialmente diferentes.

Moores traz exemplos de algumas pesquisas em aeroportos que refutam o argumento de Augé. Creswell, por exemplo, coloca em sua pesquisa, o aeroporto de Schiphol como um complexo “place-ballet”.

Moores traz esses espaços de fluxo para no próximo capítulo discutir a “networked Society” proposta por Castells.

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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