“Luto não é like”? Morte e dor em tempos de Instagram

No dia 27 de maio, a queda de um avião, no sul do estado de Sergipe, provocou a morte do cantor Gabriel Diniz, conhecido em todo o Brasil pelo sucesso da música “Jenifer”. Desde que noticiada a queda do avião, inúmeros famosos manifestaram preocupação em publicações no perfil do cantor no Instagram:

Manifestações de famosos após o acidente.

Após a confirmação da morte, as reações do meio artístico mudaram o tom da expectativa/torcida para o lamento pela tragédia. Não demorou muito para surgirem as primeiras homenagens, com fãs/seguidores engajados nas publicações, partilhando seus sentimentos de pesar e luto

.

Comentários em publicação de Nego do Borel. Uso de Emojis com lágrimas e corações partidos foram comuns.

Para além de seus próprios lamentos, usuários do Instagram se engajaram em atividades de fiscalização e cobrança de homenagens a “altura” do cantor. A cantora Ivete Sangalo foi “exaltada” por cancelar (e informar em publicação do Instagram) às comemorações do próprio aniversário em respeito a morte de Gabriel. Já Lucas Lucco irritou usuário por publicar um comentário considerado inadequado:

Comentário de Lucas Lucco em publicação de Gabriel Diniz.

Depois de quase mil reações, a maioria negativa, Lucas deletou sua mensagem. Mas os fãs de Gabriel Diniz foram ao perfil de Lucas e continuaram com as críticas. 

Reações ao comentário de Lucas Lucco.

Também muito críticada foi a humorista e digital influencer Gkay. Amiga pessoal de Gabriel Diniz, Gkay foi acusada de não ter realizado uma homenagem pública adequada, sendo taxada de “falsa” e “interesseira” pelos fãs do cantor.

As animosidades contra a humorista aumentaram quando ela não transmitiu registros no stories durante o sepultamento de Gabriel. “Gkay nem ao velório foi” diziam alguns dos comentários. Em resposta ao processo acusatório que se estabeleceu, Gkay realizou uma série de stories sobre a situação. Segue transcrição de alguns trechos:  

“Gente, recebi muitas mensagens de conforto. Mas também muitas mensagens perguntando ‘cadê você no velório?’. Eu cheguei em João Pessoa às 3 horas da manhã e fui direto para o velório, fiquei até o sepultamento, até o fim. E mesmo se não tivesse ido, isso não diminui a dor de ninguém” .

 Eu precisava ter filmado? Registrado? Deveria ter que provar que eu tava lá? Hoje, a gente só vale, só está presente em alguma coisa se a gente estiver registrando, filmando, fazendo stories. Aí sim a gente tá lá. Mas senão, é o mesmo que não está. É isso que tá acontecendo com a gente agora? E talvez a gente não tenha notado? A gente chegou a este ponto.”

Luto não é like. O velório não é um evento, é uma das coisas mais terríveis que a gente pode passar na vida. A última coisa que passa na cabeça é registrar um momento desse para provar que tá lá.

As cobranças direcionadas a Gkay nos faz lembrar de uma máxima bastante presente no imaginário sobre da cultura digital, aquela que diz “se não postou, não aconteceu”. Viver o luto, em tempos atuais, é publicizá-lo em sites de redes sociais? De que modo as normas e sanções sociais em torno do luto tem sido alteradas? Qual o nosso lugar na tragédia e lutos alheios? Não pretendo aqui encerrrar tais questões, mas é bastante interessante pensarmos a morte e o luto inseridos em um processo de transformação através das tecnologias de comunicação.

Se durante boa parte do século XX o luto esteve ligado predominantemente a esfera familiar e privada, (inclusive com condenações a manifestações de luto excessivas), com o incremento do aparato de comunicação mídiatica, tal momento foi se tornando mais público – pelo menos no caso de pessoas públicas, famosos e celebridades. Nos cabe agora perguntar de que modo a emergência da internet, de aplicativos e sites de redes sociais estariam impactando na vivência desse luto.

Lisi Barberino

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Produção em Comunicação e Cultura.

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