It´s Complicated: Capítulo 6

Capítulo 6 – Desigualdade – A mídia social pode resolver divisões sociais?

Por Marcel Ayres

Danah Boyd inicia o capítulo discorrendo sobre o caso de Keke, jovem negra de 16 anos, que relata questões relacionadas a sua comunidade, tais como os conflitos entre negros e mexicanos em bairros periféricos de Los Angeles. Mesmo depois de quase 60 anos após a segregação de raça ser considerada inconstitucional pela suprema corte americana, Boyd encontrou, em muitas escolas as quais visitou, uma clara divisão étnica e social com base em variedades sociais, culturais, econômicas e políticas. No caso da escola da keke, por exemplo, os grupos de amigos, em geral, eram homogêneos racialmente e economicamente e isso se expande para as comunidades online.
Segundo Boyd, pessoas de diferenças raças/etnias podem falar polidamente entre si na sala de aula, mas isso não significa que vão interagir ou se conectar uns com os outros nas mídias sociais. A autora relembra o caso de Obama e como a imprensa atribui às mídias sociais o sucesso de sua eleição e, por conseguinte, como tais espaços aproximam as pessoas, erradicando divisões sociais nos EUA e fortalecendo a democracia ao redor do mundo. Esses discursos utópicos não refletem a real divisão social que podemos observar emergindo e persistindo na vida dos jovens.

Os vieses na Tecnologia

Novas tecnologias de comunicação, geralmente, inspiram a esperança de que eles serão usados para ir além das divisões sociais. Boyd comenta que, como disse no seu livro até o momento, a mera existência de uma nova tecnologia não cria ou resolve magicamente problemas culturais. Partindo disso, ela cita o ensaio de Langdon Winner, Os artefatos possuem políticas? Nele, o autor aponta o caso do planejador urbano Robert Moses, como exemplo de como o viés aparece no design. Em seus projetos, Langdon foi influente na construção de estradas, pontes e projetos de casas públicas em Nova York. Ao planejar as parkways, em Long Island, Moses desenhou pontes e passagens muito baixas para ônibus e caminhões. Winner argumenta, então, que as decisões de Moses excluem pessoas que dependem de transporte público, como pobres e outras minorias, de pegar as avenidas principais de Long Island – ou seja, o planejador havia, desta forma, incorporado seus preconceitos no design da infraestrutura urbana.
Respondendo ao ensaio de Winner, Bernward Joerges argumentou no texto As políticas possuem artefatos? que as decisões de Moses não haviam relações com preconceitos e, sim, foram resultados de restrições regulatórias que limitavam a altura das pontes e o uso de ônibus, caminhões e veículos comerciais na cidade. Joerges sugere que Winner usou informações aleatórias para avançar em seu discurso. Talvez Moses não tenha incorporado preconceitos em seus projetos, contudo, isso não muda o fato de suas obras interferiram na dinâmica social e contribuiu na segregação racial e socioeconômica em Long Island.
Empresas, constantemente criam, implementam e testam novas tecnologias em ambientes limitados. Apenas quando esses produtos aparecem no mercado é que as pessoas percebem aspectos da tecnologia ou de seu design podem resultar em um comportamento enviesado por parte de certos usuários. Exemplo: muitas tecnologias de captura de imagem têm dificuldade de pegar pessoas com pele escura, pois funcionam melhor com objetos mais claros. Como resultado, fotografia e filmes capturam melhor a pele branca do que a pele negra de formas inesperadas. Isso foi visto há pouco tempo, também, com a tecnologia Kinect da Microsot – frustrando muitos dos early adopters que testaram inicialmente a ferramenta. O reconhecedor de voz da Apple, por exemplo, o Siri, tem dificuldade em entender alguns sotaques, incluindo escocês, sudeste dos EUA e Índios. A ferramenta funciona melhor no reconhecimento do inglês americano (mais comum entre os representantes da Apple). A Internet, por sua vez, seria, supostamente, diferente dessas tecnologias citadas, pois ela seria um grande equalizador das divisões sociais – no qual raça e classe não importam. Porém, para Boyd, os mesmos vieses que configuram as experiências da vida cotidiana também pautam experiências na internet.
Boyd, então, menciona pesquisadores como Beth kolko, Lisa Nakamura e Gilberto Rodman, que escreveram o livro Race in Cyberspace. Eles explicam que “a raça importa no ciberespaço, pois todos nós que passamos um tempo online somos pautados pela forma como a rala importa quando estamos offline e trazemos nossas experiências, conhecimento e valores conosco quando estamos online”.
Preconceitos culturais permeiam as mídias sociais. Bolhas explícitas de preconceito emergem em comentários, na replicação de conteúdos com divisões sociais etc. A forma como os jovens americanos usam as mídias sociais reflete problemas existentes na sociedade e reforça crenças arraigadas. Isso frustrou muitos teóricos que acreditavam que a tecnologia serviria como uma panaceia cultural. A fim de entender as desigualdades presentes nesses espaços, devemos entender como os aspectos técnicos destas ferramentas podem ser influentes neste processo. Quando olhamos como as mídias sociais são adotadas pelos jovens, por exemplo, fica claro que a Internet não nivela as desigualdades existentes. Os padrões são muito familiares: preconceitos, racismo e intolerância são pervasivos. Muitas das divisões sociais existentes no mundo off-line são replicadas e, em alguns casos, amplificadas nos ambientes online. Essas antigas divisões pautam as experiências dos jovens nas mídias sociais e as informações que encontrarão.

Racismo em uma era conectada

Boyd comenta, neste tópico, o exemplo do cartoon publicado em 1993 pela New Yorker, no qual um cachorro fala para outro “na internet ninguém sabe que você é um cachorro”. A imagem remete a muitas discussões acerca de temas como anonimato, privacidade, racismo e outros preconceitos. Como abordado no capítulo sobre identidade, muitas pessoas acreditaram que a experiência online os tornariam livres das amarras culturais. Quando os jovens estão online, eles trazem junto seus amigos, identidades e redes com eles. Trazem, também, suas atitudes, seus valores e seus desejos de se posicionar em relação aos outros. Hoje não só outras pessoas sabem que você está online, mas há também uma infinidade de engenheiros de software que criam algoritmos capazes de observar práticas e interesses (diferentes ou comuns) entre os usuários. O que se torna visível é que, seja através das pessoas ou dos algoritmos, essa prática afeta a forma como as pessoas entendem as mídias sociais o mundo ao redor delas – e a forma como as pessoas respondem a esta informação irá variar.
Durante o BET 2009 (Black Entertainment Television Awards) as pessoas usaram o Twitter pra mencionar as celebridades da cerimônia. Beyonce, Ne-yo, Jamie Foxx, entre outras celebridades negras trouxeram visibilidade em torno do evento e chamou a atenção de pessoas que não estavam assistindo. Ao ver os nomes das celebridades, uma jovem branca comentou “Quantas pessoas negras!”, logo em seguida outra mulher mencionou “Pq tantas pessoas negras no Trending Topics? É o mês da história negra novamente? LOL”. Outro garoto publicou “Nossa. Quantos negros no trending topics. Pra mim o Twitter já deu”. Os jovens não foram os únicos a realizar comentários preconceituosos. Uma mulher mencionou “Alguém viu o novo trending topics? Eu não acredito que isso seja um aboa vizinhança, Tranquem os carros, crianças”. Esses comentários desencadearam na criação e um blog chamado OmgBlackPeople e uma série de menções sobre raça no Twitter. Infelizmente, o que ocorreu no BT não é um caso isolado. Em 2012, nas Olimpíadas de Londres, dois atletas foram expulsos dos jogos, após realizarem comentários racistas no Twitter. Boyd comenta sobre o site notaracistebut.com, que coleta centenas de menções no Facebook com a sentença “I’m Not a Racist, But…” e que, em geral, termina com um comentário racista. Exemplo, comentário de uma garota “Não sou racista, mas estou começando a ver que os negros não possuem um pingo de intelecto”. Enquanto sites como notaracistbut tentam criar vergonha pública nos racistas, o racismo continua pervasivo no ambiente online. Em vários espaços, de comunidades, ao YouTube, Twitter, WoW, o racismo e ódio são rompantes.
Outro caso citado por Boyd é o de Alexandra Wallace, estudante branca/loira da UCLA, que, em 2011, publicou no Youtube um vídeo criticando estudantes asiáticos por serem rudes e mal educados etc. Alexandra fala, em um tom de zombaria, do barulho que fazem ao celular na biblioteca da Universidade – a estudante então imita o que seria algo próximo de um idioma asiático: “Ching Ling Long chong ting tong”. O vídeo “Asiáticos na Biblioteca” chamou a tenção rapidamente e se espalho na web, gerando uma série de críticas e paródias. Ao mesmo tempo, Alexandra e sua família passaram a ser ameaçados de morte, foçando a garota a sair da universidade e pedir proteção policial. Um dos professores da UCLA disse, em uma entrevista, que o ato de Alexandra foi, sim, um erro e sem justificativas. Contudo, as reações ao vídeo dela foram ainda mais enérgicas e intolerantes. As mídias sociais, deste modo, podem amplificar certos aspectos da vida cotidiana, incluindo racismo e fanatismo. Algumas pessoas usam essas mídias para expor opiniões e visões de ódio, enquanto outros usam a tecnologia para promover “vergonha” em quem gera conteúdos negativos. Isso reforça as divisões sociais existentes na sociedade americana.

Segregação na vida cotidiana

Boyd irá falar sobre o trabalho da linguista Penelope Eckert, nos anos 1980, observando as dinâmicas entre jovens do ensino médio, organizados em categorias sociais. Boyd notou que isso ocorre com vários times esportivos em escolas da Carolina do Norte. Em um dos exemplos, ela fala de um colégio no qual o basquete é um esporte mais negro e que muitos jovens são reticentes em desafiar o status quo dessas divisões raciais existentes.

Mesmo em escolas nos quais os jovens são educados para serem “mentes abertas”, Boyd encontrou divisões sociais sendo replicadas. Caso de Kath – estudante branca de uma escola renomada da costa leste. Kath tem uma visão progressista e leva a sério a questão racial no seu dia a dia. Ao visitar o perfil da garota no Facebook, mesmo sua escola sendo multirracial, Boyd notou que a maior parte dos comentários na página dela eram de meninas brancas. Isso se replicou nos perfis das amigas também. Ao verificar isso, Kath ficou surpresa e embaraçada, pois, na cabeça dela, a questão racial não importava em sua escola. Mas no Facebook, por sua vez, ela estava passando mais tempo interagindo com pessoas que possuíam os mesmos backgrounds raciais. Esse padrão se mostrou recorrente em outras observações que Boyd fez – ou seja, o reforço (em comentários e fotos) de laços com pessoas com a mesma preferência racial e/ou social.

Sociólogos se referem a prática de se conectar com indivíduos com gostos parecidos de homofilia. Estudos observam que existem diversos casos de homofilia em relação a questões como sexo e gênero, idade, religião, nível educacional, ocupação e classe social. Nos EUA, entretanto, a homofilia é fortemente visível na questão racial e étnica. Dinâmicas baseadas em raça são parte fundamentais na vida de muitos jovens (urbanos e suburbanos, ricos e pobres). Quando eles estão online, essas dinâmicas não desaparecem, ao contrário, os jovens as reproduzem. Enquanto o ambiente online abre possibilidades das pessoas interagirem livremente, na prática, os jovens se conectam com pessoas com as quais eles acham que possuem mais características em comum.

Myspace vs. Facebook

Após citar uma série de exemplos de desigualdade nos Facebook e Myspace, Boyd conclui neste tópico que as pessoas influenciam as práticas em torno das tecnologias que os circundam. Por conta disso, a difusão de uma tecnologia sofre com os reflexos de redes sociais pré-existentes. Jovens trazem para as mídias sociais suas conexões “offilne”, e reproduzem redes que refletem as segregações existentes em sua vida cotidiana, baseada em desigualdades sociais, econômicas e culturais.

Redes Importam

Para Boyd, as mídias sociais não vão mudar radicalmente as redes sociais construídas pelos jovens. E, com isso, não reconfigura radicalmente a desigualdade. Embora essas mídias permitam diminuir a desigualdade, por meio da possibilidade de fazer novas conexões. Isso não é o que ocorre na prática dos jovens. Não vivemos em um mundo pós-racial e as mídias sociais não são a “cura cultural” que muitas pessoas esperavam. Hoje, os jovens vivem em um mundo no qual há divisões reais e pervasivas. Essas dinâmicas são reproduzidas online e possuem implicações significativas na forma como os jovens constroem seu senso de vida pública. Ter acesso a informações através da Internet não torna o mundo mais igual e, automaticamente, não o torna mais tolerante. Ao invés disso, desvela ainda mais as divisões sociais arraigadas no mundo.

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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