It’s Complicated: Capítulo 5

Capítulo 5 – Bullying – Is social media amplifying meanness and cruelty?

Por Marcel Ayres

Introdução

Através de diferentes relatos realizados em entrevistas com adolescentes, Danah Boyd vai falar, neste capítulo, como o tema Bullying e Drama sempre emergem na sociedade e no campo acadêmico, contudo, pontua que ambas as práticas possuem definições imprecisas.A autora contextualiza o tema, mostrando como a preocupação com o Ciberbulling se tornou uma obsessão nacional nos Estados Unidos, recheado de casos de jovens se suicidando devido a atos cruéis compartilhados em rede. Leis anti-bullying estão sendo implementadas no páis e, desde 2012, 48 estados e o governo federal implementaram estatutos para tratar casos de bullying, incluindo, especificamente, casos online.

A grande questão do texto é: por que jovens usam termos diferentes para descrever conflitos interpessoais ou por que as dinâmicas do que eles descrevem são tão comuns. Entender essas dinâmicas é essencial para entender como desenvolver estratégias de intervenção. 

Definindo Bullying na Era Digital

Não há uma definição universal para bullying. Pesquisadores continuam em desacordo com a definição, sendo que a mais comumente aceita é a do psicólogo sueco Dan Olweus (1970). Ele definiu três componentes centrais para o bullying operar: agressão, repetição e desequilíbrio de poder. Além disso, pontuou que o bullying entre os jovens acontece quando há os três componentes acima – alguém com diferenças físicas ou sociais julgando outra repetidamente, com agressões sociais, psicológicas e físicas.

Ao levarmos em consideração a definição de Olweus, assédios e brigas pontuais não podem ser vistos como bullying. Repetição e diferença de poder seriam, deste modo, centrais na definição do psicólogo.

Boyd cita como as pessoas comuns não necessariamente abraçam os conceitos definidos pelos teóricos e como, para alguns pais, o bullying serve como um guarda-chuva para descrever ou julgar qualquer ato agressivo em relação a seus filhos. Cita, também, como os veículos de imprensa descrevem atos criminosos de agressão como bullying, usando outros termos como perseguição, abuso ou assédio. Ironicamente, os jovens usam o termo bullying para descrever incidentes semelhantes aos da definição de Olweus, enquanto adultos e a imprensa usam esse termo de forma mais abrangente.

Neste tópico, Boyd toma como exemplo o caso famoso de Amanda Todd (que cometeu suicídio após ter imagens suas compartilhadas na web) e como a mídia enquadrou o caso como consequência de bullying. Parte do que Amanda descreveu em seus relatos, sobre o que sofreu após a publicação do vídeo, encaixa-se na rubrica do bullying, porém, definir a situação dela apenas como bullying tira de foco o assédio criminoso que foi a causa principal do sofrimento dela. Desse modo, para Boyd, quando provocações e atos cruéis de agressão são generalizados como “bullying”, torna-se difícil para o público entender plenamente o significado deste tipo de atitude/comportamento.

Tecnologias da Comunicação/Informação complicam ainda mais o entendimento das pessoas sobre o bullying. Algumas pessoas acreditam que o cyberbullying é um novo fenômeno, já outros argumentam que a tecnologia somente oferece um novo espaço para a operação do bullying, assim como era antes com o telefone. Muitas vezes, o que está em jogo tem a ver com divergências sobre a forma de dar sentido ao papel da mídia social em ampliar a visibilidade do bullying. Não há dúvida que as tecnologias de rede aumentam o potencial da audiência, mas o que não está claro é se o impacto que tem nas pessoas muda radicalmente por conta dessa característica.

A persistência e a visibilidade do bullying, quando publicado na rede, adiciona uma nova dimensão para seu entendimento (construção de sentido).

Por um lado, interações cruéis deixam rastros que permitem que outros vejam o que está havendo. Quando isso resulta na amplificação de uma ocorrência por outros usuários, a maior visibilidade pode aumentar a pressão emocional em torno de um caso de bullying. Isso leva as pessoas a assumir que a tecnologia deve, inerentemente, tornar o bullying mais doloroso e prejudicial, ainda que os adolescentes relatam consistentemente que eles vivenciam um maior estresse quando são intimidados no ambiente escolar.

Sites de Rede Social (SRS), como Tumblr, Instagram, Facebook e etc. deixam diversos rastros relacionados a atitudes/comportamentos dos jovens e podem, com isso, criar novas oportunidades para pais abrirem diálogos com seus filhos sobre o que está acontecendo na vida deles. Porém, é importante, segundo Danah, entender o contexto das publicações.

Alguns pais acreditam que a vigilância é a melhor forma de deixar os filhos a salvo do bullying. Para isso, seguem seus filhos quando estão online ou simplesmente olham o que estão compartilhando. Como vimos no capítulo sobre privacidade, os jovens criam códigos para seus conteúdos com intuito de ofuscar o significado deles para os adultos. Através da vigilância, os pais presenciam muitas formas de mesquinharia e crueldade, mas podem não estar aptos para diferenciar uma piada de um ato cruel intencional. Muitos adultos acabam juntando alguns rastros e pulando para conclusões precipitadas.

Quem é a culpa?

Danah, neste tópico, fala como o bullying tem consequências para quem recebe e para quem pratica. Quem nem sempre a pessoa que pratica o bullying é uma pessoa má. A maioria reage agressivamente, pois possuem problemas/questões séries com eles mesmos.

Atuar sobre o bullying com ações de punição, como a maioria das escolas fazem, raramente ajudam a resolver as situações. Em geral, os adultos envolvidos não entendem os detalhes do contexto. Quando falamos de Bullying sempre se presume que há um algoz e uma vítima. Julgar os algozes e proteger as vítimas é a ação que, geralmente, é tomada pelos adultos nestas situações, porém, quando a punição é o foco das ações, eles acabam incentivando o ciclo de violência.

Quando os adultos observam a situação como um todo, buscando compreender ambas as partes, isso pode gerar oportunidades para entender dinâmicas interpessoais envolvidas nestes casos.

Drama adolescente

Danah e sua parceria Alice perceberam que a forma como jovens entendem o bullying difere dos adultos (após uma série de entrevistas). Em busca do entendimento sobre a perspectiva dos jovens acerca dos conflitos sociais, as pesquisadoras se debruçam, então, no uso pervasivo do termo “Drama”. Jovens regularmente usam essa palavra para descrever várias formas de conflitos interpessoais – de uma piada insignificante até ato de ciúme/agressão.

Danah definiu drama como “conflito interpessoal performativo que toma forma em frente a uma plateia ativa, engajada, até mesmo nas mídias sociais”. Drama não é um simples substituto pra Bullying. Drama não coloca automaticamente os envolvidos em posição de autor e vítima. Os envolvidos não se enxergam como agressivos ou fracos nestas situações, mas como parte de algo mais amplo – de um processo social. Mesmo quando alguém é central em um Drama, os envolvidos possuem a mesma oportunidade de responder, dando a sensação de poder mesmo quando são feridos.

Alguns jovens acham que as mídias sociais são fator-chave para a propagação do Drama. Para alguns, incitar o Drama é uma fonte de entretenimento ou forma de “matar o tédio”. Para outros Drama é uma forma de testar as amizades e compreender dinâmicas sobre o status de popularidade. Em geral, os meninos acabam associando o termo a práticas femininas.

Danah aponta, então, que a tecnologia pode amplificar dramas existentes em outros ambientes sociais, mas pode, também, criar novos mecanismos de crueldade. Cita, em seguida, um estudo da Psicóloga Elizabeth Englander que encontrou o seguinte dado em sua survey: 9% das pessoas usavam a internet para cometer Bullynig com elas mesmas – realizando um processo de vitimização em busca de atenção e status.

Buscando Status Social

Danah cita a pesquisa do sociólogo Murray Milner Jr. e como ele analisa a cultura teen norte americana e suas práticas de consumo e de sharing. Segundo Milner, os adolescentes estão em uma fase de maior agência das próprias vidas e aprendem rápido o valor social das informações como parte do desenvolvimento do seu senso de relações sociais. Muitos, então, usam a fofoca para separá-los de outros jovens e para serem vistos como populares em suas redes.

Serviços de mídias sociais, para Boyd, possuem um papel de destaque em como os jovens compartilham informações de dinâmicas que ocorrem em suas vidas sociais a fim de buscar visibilidade. Nessas tecnologias, as pessoas conseguem manter e criar laços sociais mais “facilmente”, provendo uma estrutura propícia para a disseminação da informação.

As pessoas percebem como alguns conteúdos podem ser fascinantes e atrair a atenção dos outros na rede. Com base nisso, compartilham conteúdos embaraçosos, humilhantes, grotescos, sexuais e/ou chocantes como forma de conquistar essa atenção. As pessoas escolhem o que compartilham online, mas a tecnologia que utilizam pode criar uma grande visibilidade para esse conteúdo, atraindo ainda mais atenção.

As mídias sociais estão, então, situadas em uma economia da atenção no qual as tecnologias criam, capturam e sustentam o interesse dos usuários. Porém, pontua Boyd, que a dinâmica do Drama e a busca pela atenção não é uma descoberta (revelada) pelas mídias sociais. Os adolescentes aprendem a se engajar em dramas como forma de aprenderem diferentes táticas de ganhar a atenção dos outros. Uma das formas pelas quais desenvolvem essa sensibilidade é através do consumo de informações sobre dramas de celebridades e figuras públicas – parte de uma cultura contemporânea do entretenimento.

Celebração da Vida Cotidiana

Danah Boyd aborda como a atenção possui um tremendo valor social e cultural para os jovens e que eles aprendem o valor da atenção, o custo da fofoca e o poder do drama observando o que está ao redor deles. Reality Shows, notícias sobre celebridades, etc. promovem um enquadramento sobre o entendimento da atenção e como ela opera para abastecer o drama para o entretenimento. 

Caminhando para uma cultura de mesquinharia e crueldade

Quando os jovens se engajam em públicos conectados em rede, eles devem negociar em um ecossistema social no qual seus pares não estão apenas passando um tempo, mas, também, disputando por status sociais. Nesse contexto, os conflitos interpessoais emergem e os jovens participam de batalhas pela sua reputação, status e popularidade.

A atenção se torna artigo comum e, algumas vezes, jovens participam de um drama intencionalmente ou acidentalmente – machucando outras pessoas. Nem todo frama ou fofoca são problemáticos ou negativos, mas, algumas dessas experiências, causam dores silenciosas.

Enquanto não conseguimos proteger os jovens de todas as formas de crueldade ou parar os jovens de machucarem uns aos outros em suas relações sociais, podemos, certamente, nos esforçar em empoderar este jovem, tornando-o forte para lidar com situações negativas.

Quando os jovens entendem como seus atos afetam os outros, inclusive aqueles que são aparentemente invulneráveis, eles se tornam mais atentos às consequências do que fazem e falam. Enquanto novas formas de drama ganham espaço nas mídias sociais, o comportamento dos jovens não sofre mudanças significativas. Ou seja, as mídias sociais não mudaram radicalmente as dinâmicas do bullying, mas tornou essas dinâmicas mais visíveis para mais pessoas.

Boyd fecha seu argumento dizendo que devemos usar essa visibilidade não para justificar punições contra os jovens, mas para ajudar aqueles que estão “chorando por nossa atenção”. Culpar a tecnologia ou assumir que o conflito desaparecerá com minimização do seu uso é um pensamento ingênuo. Reconhecer onde esses jovens estão e por que eles se engajam em atos de crueldade é crucial para criar trabalhos de intervenção.

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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