It´s Complicated: Capítulo 4

Capítulo 4 – Danger: are sexual pretadors lurking everywhere?

Por Felippe Thomaz

Aqui, a pesquisadora apresenta uma argumentação mais específica que os capítulos anteriores. Na ocasião, Boyd discute os perigos do assédio sexual nos ambientes digitais envolvendo crianças e adolescentes e, de maneira complementar, reflete sobre o medo excessivo demonstrado por pessoas de uma geração anterior à Internet, situando a mídia como um dos principais fomentadores dessa preocupação.
Assim, a partir do exemplo de um adolescente que foi proibido pelos pais de acessar o Facebook devido aos enquadramentos dados a tal meio pelos noticiários americanos – tratando, muitas vezes, como ambiente hostil, no qual há pedófilos à espera de vítimas potenciais –, a autora já afirma que é preciso compreender como essa sensação de preocupação e temor é gerada e alimentada. A grosso modo, Boyd defende que os adolescentes evitam de se relacionar livremente nas redes digitais devido à preocupação com aquilo que é comumente divulgado pelos meios massivos de comunicação e com o medo que seus pais demonstram, a qual sofre também grande influência da mídia convencional. Como a própria autora afirma, “their [dos adolescentes] fears were rooted not in personal experience but in media coverage magnified by parental concerns”. Assim, a Boyd defende que essa insegurança deriva muito da incompreensão acerca da Internet enquanto espaço de interação e, como artifício retórico, afirma que escolas, igrejas e até a própria casa são locais onde tais assédios e abusos ocorrem com certa frequência e, ainda assim, tais lugares são tidos como seguros.

The foundation of our fears
Nesse tópico, Danah Boyd afirma que são diversas as raízes da ansiedade relacionada a espaços perigosos para adolescentes, mas que essa mesma preocupação provem de longa data, do temor relacionado aos espaços públicos como ambientes nos quais “estranhos” circulam. Acerca disso, são retomados os estudos de Gill Valentine acerca do “perigo do estranho”. Na ocasião, a geógrafa aborda o medo que os pais sentiam na década de 1980 em deixar seus filhos adolescentes passearem sozinhos por parques e praças, sob o risco de encontrarem pessoas desconhecidas que poderiam, por sua vez, oferecer riscos a esses jovens.
Assim, Boyd destaca como esse problemático cenário repercutiu na mídia e gerou posicionamentos de governantes – mesmo que movidos sob o intento de gerar visibilidade sobre si. Como exemplo dessas medidas, Boyd fala da instauração um toque de recolher, restringindo o fluxo de pessoas em espaços públicos a partir de determinado horário. Como contraponto, cita o trabalho do sociólogo Michael Males, que observou as ações dessas figuras públicas, defendendo a ideia de que as atitudes tomadas por estes foram muito mais no sentido de fortalecer o controle social que de combate às altas taxas de criminalidade da época. Em analogia, as mídias sociais são vistas como as praças e parques dos trabalhos supracitados e, portanto, o fenômeno parece se repetir: difusão da ideia de perigo público e do estranho como ameaça. Dessa forma, os adultos isolam os adolescentes, limitando suas oportunidades de aprender como se engajar produtivamente na vida pública.
Em suma, a autora percebe um pânico moral em latência, emergente quando um artefato cultural, uma prática ou movimento cultural ameaçam a ordem social. Como exemplo de medidas tomadas para remediar tal cenário, Boyd cita o Deleting Online Predators Act, introduzido pelo Congresso americano e voltado à restrição de menores à interação com estranhos online. Exemplos como esse ato funcionam, segundo a autora, desconsiderando a compreensão do meio em si e servem para reforçar o pânico moral que, por sua vez, reconfiguram as vidas dos jovens de maneira restritiva. Boyd ironiza esse conjunto de medidas, afirmando: “givern the cultural work done in the name of fear, it’s astounding that Young people have as much freedom as they do” (p. 106).

Incorporating fear into everyday life
O pensamento que guia esse tópico se refere às formas como o medo se introjeta nas práticas cotidianas dos indivíduos, reconfigurando seus fluxos diários a partir de tais ansiedades. Com diversos exemplos de adolescentes entrevistados, a síntese possível é a de que permanecer em casa é muito mais seguro que transitar pelas ruas da cidade. Além disso, a utilização das mídias sociais seria uma alternativa às restrições de fluxo sofridas pelos jovens, de modo que estar em contato constante com seus pares é algo perfeitamente natural, sobretudo no período da adolescência.
A autora apresenta números que reforçam seu argumento: em survey nacional conduzida por ela própria, 93% de pais demonstraram preocupação em seus filhos conhecerem um estranho online que poderia, eventualmente, ferí-los de algum modo. Em contraste, apenas 1% desses pais afirmou que algum dos seus conheceu um estranho online que foi, de fato, uma ameaça.
Muito desse medo é gerado por inúmeros tv shows, além dos noticiários. “Combine this with the media’s magnification of the cultural mythos of the online sexual predator and it’s no wonder that countless parentes become hyperprotective without considering the costs of their actions” (p. 110).

The online sexual predator myth
É ilustrando o predador sexual como uma imagem “mitológica” que Boyd se posiciona nesse tópico. Segundo ela, embora haja leis rígidas no controle do acesso de crianças e adolescentes a espaços de interação online – sob o risco de serem assediadas –, não há medidas semelhantes no tocante à restrição do acesso a igrejas, escolas ou inclusive suas próprias casas – locais onde mais ocorrem assédios e abusos sexuais.
Dessa forma, a autora reforça que a taxa de crimes sexuais contra menores tem decrescido desde 1992, o que também sugere que a Internet não está criando uma nova praga social. Assim, citando estudo da Crimes Against Children Research Center (CCRC), são apresentados dados que reiteram a postura da pesquisadora. Sendo os entrevistados menores de idade, apenas 4% de “solicitações sexuais” (desde um mero flerte até um assédio mediado pelo computador) recebidas vieram de pessoas acima de 25 anos, 76% vieram de outros menores e o restante veio de pessoas entre 18 e 25 anos. Em 75% dos incidentes reportados, os jovens não indicaram medo ou revolta pela solicitação. Ainda, 69% das solicitações não envolveram qualquer tentativa de contato off-line. “In other words, although any sexual solicitation that a youth receives might be problematic, this statistic does not signal inherently dangerous encounters” (p. 112).
Em suma, no contexto dos adolescentes, Danah Boyd aponta correlações entre práticas online arriscadas e problemas psicossociais com a família, abuso de álcool e drogas e problemas na escola. A questão, segundo a autora, é que nas mídias sociais tais comportamentos ganham visibilidade e, portanto, ressoam de maneira tão preocupante. Como encaminhamento, é reforçada a necessidade de compreender os motivos pelos quais determinados jovens agem de forma arriscada nas redes sociais.

Unhealthy sexual encounters
Esse tópico é bastante ilustrativo da argumentação sustentada ao longo desse capítulo. São diversos os casos de adolescentes que entraram em contato com pessoas off-line a contragosto dos pais e que os resultados foram problemáticos. Em resumo, a autora chama em causa a forma como a desordem psicossocial influencia os comportamentos dos adolescentes online, considerando que muitas das vezes tais atitudes são um esforço de receber atenção e validação de pessoas mais velhas.

A parent’s worst nightmare
A essa discussão convém recordar a argumentação do capítulo anterior, no qual há distinções claras entre a percepção dos interlocutores de diferentes faixas etárias acerca dos “riscos da internet”. Assim, alguns exemplos citados pela autora abordam os casos de “abdução”, de repentino sumiço de adolescentes pós (ou em busca de) contato físico com seus pares online.
O caso da garota Alexis, de 15 anos, que fugiu de casa em busca de sua namorada virtual e foi interceptada pela polícia americana dias depois. Pelo apelo popular desse caso nos EUA, a autora afirma que histórias como as de Alexis reforçam a cultura do medo e acabam por exagerar os riscos existentes no âmbito da internet.

Blaming the technology
De forma renitente, a autora aponta novamente a influência exercida pela mídia na manutenção desse temor social acerca das tecnologias digitais – o que já apresentamos aqui anteriormente. Resumidamente, o que ela sugere como novo argumento é, assim como há grupos de risco, há agrupamentos sociais que visam o bem estar de pessoas que, muitas vezes, passam por dificuldades psicossociais similares. “The internet is not just a place where people engage in unhealthy interactions. It’s also a place where people share their pain” (p. 123).

Eyes on the digital street
De forma conclusiva, o ultimo tópico resume bem os pontos apresentados anteriormente. Desse modo, Boyd reitera seu argumento de que a existência de relações problemáticas off-line pode aumentar o risco de vitimização sexual pela internet e que se faz necessário, portanto, compreender os comportamentos que levam o jovem a se comportarem de forma arriscada na rede. Tal medida é, segundo a autora, muito mais salutar que o simplório julgamento condenatório e sensacionalista. Citando o trabalho de Jane Jacobs, Boyd defende que as comunidades não estão seguras quando todos se voltam para si, mas que a mesma se mantém sadia quando as pessoas trabalham cooperativamente e coletivamente no sentido de um auxílio mútuo.
Em suma, “Young people need the freedom to explore and express themselves, but we all benefit from living in na environment in which there’s a social safety net where people come together to make sure that everyone’s doing okay” (p. 127). Portanto, a postura da autora aponta que o medo não é a solução para tais problemas, mas que a empatia e a compreensão são o caminho mais viável à resolução de tais desafios.

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

More Posts

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.