It´s Complicated: Capítulo 3

Capítulo 3 – Addiction: what makes tens obsessed with social media?

Em sequência à discussão do capítulo anterior, Danah Boyd aborda a questão do vício nas redes sociais digitais, apresentando argumentos que problematizam a própria definição do que é isso, o vício em plataformas digitais de sociabilidade. Ao longo de todo capítulo, seu ponto de vista é reforçado com trechos de entrevistas realizadas com adolescentes, usuários de tais redes, no sentido de contrapor a perspectivas desses usuários às daqueles que não compreendem o que está em jogo nas interações mediadas pelas redes sociais digitais.

Desse modo, Boyd articula o depoimento de Kimberly Young, psicóloga diretora do Center for Internet Addiction Recovery, com a entrevista de um jovem estudante. Enquanto a primeira afirma que vício nas redes sociais digitais são similares a quaisquer outro tipo de vício no qual o usuário tem sérias dificuldades de autocontrole, o caso do jovem Andrew apresenta um quadro de complicações na manutenção de atividades sociais somente pelo fato de ter deletado sua conta do Facebook. Ou seja, a doutora observa quão problemática é a participação massiva e constante de pessoas – sobretudo de jovens – nas redes sociais, enquanto o exemplo do jovem estudante aponta para maior dificuldade de relacionamento com seus pares a partir do momento que optou por não estar presente em uma das principais redes sociais digitais de nosso tempo.

Desde já, a autora aponta para a forma como a mídia aborda a questão. Através de reforços de estereótipos pejorativos, a imagem comum é a de adolescentes trancados em seus quartos, isolados do “mundo real” e detentores de sérios problemas de sociabilidade. Segundo Boyd, tal abordagem é sensacionalista e, por conta disso, pode confundir a mera participação em ambientes digitais com disfunções patológicas. Segundo ela, “it’s easier for adults to blame technology for undesirable outcomes than to consider other social, cultural, and personal factors that may be at play” (p. 79).

Como proposta de conciliação das perspectivas acima, a autora defende a ideia de que a conversação entre esses adolescentes persiste e se expande com os suportes digitais. Tanto o entretenimento quanto as potencialidades sociais são as principais razões pelas quais os adolescentes reservam às atividades online parte considerável de suas atividades diárias. Muitas vezes, o passar das horas sequer é percebido por tais usuários. Tal fator é observado a partir da ideia de flow, proposta por Csikszentimihalyi. Segundo o autor, flow é o estado de completa absorção da atenção. Este conceito é bastante similar ao de imersão, derivado da teoria literária. Os efeitos desse estado são variados: atenção focada, desaparecimento do tempo, engajamento eufórico por parte dos usuários. Esse mesmo estado de flow é vivenciado por artistas quando em criação e atletas quando em competição. Ou seja, o engajamento profundo não é, em si, o problema. A problemática emerge quando esse estado se combina com práticas socialmente inaceitáveis e fisicamente danosas. Boyd faz questão de problematizar esse juízo, afirmando que o suposto “vício” adolescente nada mais é do que uma nova extensão das típicas interações humanas.

No tópico The addiction narrative, Boyd lança um olhar etimológico acerca do termo addiction, situando seus primeiros usos enquanto um forte interesse em determinada busca, uma devoção a um objetivo em particular – como leitura ou jardinagem, por exemplo. O termo começa a ganhar novas conotações a partir na transição entre os séculos XIX e XX, originárias do campo da medicina. Ao passo em que a práxis médica passou a ser mais discutida popularmente, já no avançar do século XX, o termo começou a denotar compulsões comportamentais. Assim, termos como internet addiction disorder foram alcunhados, para denotar a falta de controle dos usuários para com a tecnologia digital.

Em suma, essas alterações semânticas vieram acompanhadas de transformações sociais mais amplas. Interessa a Boyd, neste capítulo, apontar e discutir as alterações dos conceitos de infância e adolescência, de modo que se tornem evidentes os pontos divergentes entre a geração inserida em um contexto de tecnologias digitais e as anteriores.

A autora, portanto, faz uma comparação entre a perspectiva dos adultos e dos jovens, no tocante à tecnologia. Resulta daí a ideia de que “many adults project their priorities onto tens and pathologize their children’s interactions with technology” (p. 83). Ou seja, devido à falta de conhecimento ou de participação em ambientes digitais, muitas vezes os pais recriminam a utilização que seus filhos fazem destes meios, taxando-os como “viciados”. No entanto, a autora pontua que se há algo em que os jovens sejam viciados é na interação com seus pares, um processo intrínseco à natureza humana.

Em Growing up with limited freedom, a discussão é iniciada com o exemplo de Tara, uma garota de 16 anos que se relaciona com diversos amigos através do Facebook. Boyd relata que a garota preferiria sair com os amigos face-a-face, mas que acha impossível que isso ocorra todos os dias, devido à carga de atividades que possui e às diferenças geográficas. Assim, o meio de trocar informações com os amigos passa a ser, principalmente, o Facebook.

Tara ainda afirma que para ela usar essa rede social é o único meio de se manter conectado, o que é motivo de desagrado de seus pais. “To many parents, the amount of time that tens spend on social media is evidence of addiction in a negative sense”. Ou seja, fica explícita a diferença de perspectivas dos jovens e de seus pais quando o tópico é a sociabilidade. A preocupação dos mais velhos, destaca Boyd, muitas vezes está associada à falta de conhecimento sobre as próprias ferramentas digitais, o que os leva a serem mais facilmente influenciados por discursos “apocalípticos”, reproduzidos em larga escala pela mídia.

O que é importante destacar dessa discussão é que a infância se modificou. Se antes as atividades “obrigatórias” de uma criança se resumiam, quase sempre, à escola, hoje a infância é compreendida como local de formação profissional. Assim, percebe-se atualmente a vasta quantidade de atividades que essas crianças desempenham: cursos variados, aulas extraclasse, participação em grupos de atividade física, enfim. A agenda das crianças contemporâneas está bastante concorrida, o que reflete transformações sociais mais amplas, devido à necessidade de maior capacitação em função do mercado de trabalho cada vez mais acirrado.

Nesse fluxo, o acesso a lugares públicos fica comprometido pela sensação de insegurança que se faz notório em grandes centros urbanos. Com o leque de opções de lazer em espaços públicos cada vez mais restrito e a sobrecarga de atividades que desempenham, as crianças e adolescentes de nosso tempo passam a recorrer aos meios digitais para se manterem conectados a seus pares. Como reforça a autora, “many teens turn to what they see as the least common denominator: asynchronous social media, texting, and other mediated interactions” (p. 90).

 Desse modo, o restante do capítulo é sustentado na ideia de que as práticas sociais online são parte de uma transformação social mais ampla no que concerne às demandas de atividades destinadas às crianças e adolescentes. Nesse sentido, estar conectado boa parte do tempo é um importante complemento às restrições de seu trânsito e ao trabalho pesado que exercem. É esse aspecto que possibilita a problematização da ideia de “vício”, sobretudo porque é nesses meios digitais que os jovens podem aprender e desenvolver um conjunto de habilidades sociais. Segundo a autora, “being ‘addicted’ to information and people is part of the human condition: it arises from a healthy desire to be aware of surroundings and to connect to society” (p. 92).

Contrapondo os trabalhos de Nicholas Carr e Steven Pinker, resulta a ideia de que essas novas tecnologias nos tornam mais inteligentes a partir do momento que funcionam também como plataformas de aprendizado.

Essa discussão está presente no tópico Reclaiming Sociality e repercute no subcapítulo posterior, Coming of age without agency. Neste último, é preocupação da autora pontuar o que é compreendido enquanto infância e adolescência, e as transformações que sofridas por tais conceitos. Se antes essas faixas etárias eram tidas como pouco influentes e desdotadas de qualquer poder de agência, relegando exclusivamente aos adultos o lugar hierarquicamente superior.

Boyd, por outro lado, questiona se essa estratificação social ainda se aplica. Segundo ela, o desejo que os adolescentes possuem, de adquirirem os direitos da vida adulta – mesmo que não compreendam a fundo as responsabilidades envolvidas –, encontram vazão nas mídias sociais. Aspectos da adultez são “experimentados” por esses jovens nas plataformas de interação online: autoapresentação, gerenciamento de relacionamentos e compreensão do mundo ao redor são algumas possíveis contribuições que a utilização desses meios pode proporcionar.

O último tópico chama-se Grappling with restrictions e aborda as ações dos adultos para com os jovens, principalmente no tocante ao cerceamento de seu fluxo cotidiano. Citando vários exemplos de seus entrevistados, Boyd discute a proibição de ordem social que os pais impõem a seus filhos. Movidos, em geral, pelo desejo de tornar o tempo das crianças e adolescentes mais produtivo, essas medidas ignoram parte fundamental do sistema educacional: a sociabilidade.

Segundo a autora, “most youth aren’t turning to social media because they can’t resist the lure of technology. They’re responding to a social world in which adults watch and curtail their practices and activities, justifying their protectionism as bein necessary for safety” (p. 98). A utilização das mídias sociais por adolescentes, portanto, é uma postura que visa situar a interação entre pares como aspecto fundamental à formação desses jovens. Essas ações se devem, em muito, às pressões que os adultos exercem sobre os jovens, privando seus momentos de socialização e sobrecarregando-os com atividades durante boa parte do dia. Para Boyd, esse é o motivo maior da controvérsia no tocante ao “vício” nas redes sociais.

Texto: Felippe Thomaz

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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