It´s Complicated: Capítulo 2

Capítulo 2 – Privacy

Por Rodrigo Nejm

Why do youth share so publicly?

Neste segundo capítulo a autora traz suas reflexões para o complexo debate relacionado à privacidade dos adolescentes, destacando que mesmo fora dos ambientes digitais este é um tema que historicamente envolve conflitos entre os limites da expressão de si e dos espaços privados. Como em outras questões debatidas no livro, as mídias sociais trazem novos desafios para estas questões sensíveis relacionadas à socialização dos adolescentes. Se os adolescentes sempre lutaram para que seus pais preservassem seus poucos espaços privados, antes a maior parte de suas interações com os pares não deixavam registros para que os pais fiscalizassem diretamente. Nos ambientes digitais tudo deixa um rastro e os adultos passam a julgar as exposições dos jovens não apenas em relação aos conteúdos, mas também ao volume de compartilhamentos. Recuperando os discursos dos próprios adolescentes entrevistas em sua pesquisa Boyd aponta que eles não abriram completamente mão da privacidade online como supõem o discurso dos adultos e da imprensa, mas manejam de nova forma suas interações e socialização mantendo seus espaços de intimidade, como ilustra o depoimento de um dos entrevistados: “Every teenager wants privacy. Every single last one of them, whether they tell you or not, wants privacy.” (p. 55)

Em suas análises Boyd traz argumentos que desafiam os discursos de pânico moral reforçados pelos pais, educadores, imprensa e grupos religiosos sobre o desinteresse dos adolescentes por qualquer tipo de privacidade. A pesquisadora mostra como as políticas públicas, o discurso das grandes empresas de tecnologia e da imprensa já incorporaram este discurso sobre o fim da privacidade ao ponto de menosprezarem pesquisas que indicam o quanto os adolescentes não apenas buscam, mas trabalham para conseguir alguma privacidade nos ambientes digitais. Boyd evidencia que os adolescentes cuida sim de sua privacidade, mas de maneiras que não são evidentes para os adultos já que não temem tanto a vigilância dos governos ou das empresas, mas temem a vigilância dos próprios pais e as figuras de autoridade em suas vidas como professores, treinadores e futuros empregadores. A autora explora seu argumento de que há uma enorme diferença entre estar em público e ser público (“There’s a big difference between being in public and being public”) e que o desejo de estar em público e de ter privacidade não são contraditórios. Os adolescentes querem participar dos ambientes públicos para socializar sem necessariamente querer que toda sua vida seja publicizada. Para entender a concepção de privacidade dos adolescentes nos ambientes digitais é preciso o significado e as negociações que ela provoca nos networked publics.

Navigating Conflicting Norms

Se os adultos se sentem no direito de ver o que está publicado, os adolescentes descordam fortemente. A questão dos limites da privacidade para os adolescentes é muito mais relacionada às normas sociais e à etiqueta do que às questões técnicas. Boyd recupera o conceito de “desatenção civil”, do sociólogo Erving Goffman, como exemplo de estratégia usada para negociação dos limites que respeitosamente construímos nas relações com os outros em espaços públicos. Não é porque as pessoas podem ouvir/ver a conversa dos outros que devem fazê-lo.
Para os adolescentes o exercício é escapar da supervisão dos pais e adultos para manter alguma privacidade nas interações com os pares, o que fica evidente na migração de serviços quando os adultos passam a usar as mesmas plataformas. Analisando a fala de seus entrevistados Boyd argumenta que os adolescentes estão tendo que inventar novas estratégias para lidar com a singularidade dos espaços e audiências em rede, precisando desenvolver soluções inovadoras para ter privacidade em público. Para conseguir devem se virar com as ferramentas disponíveis, as normas sociais e sua própria agência.

Achieving Privacy by Controlling the Social Situation

Entre as diferentes definições conceituais de privacidade há sempre um destaque para o controle sobre acesso e visibilidade das informações e espaços pessoais. Do direito de ser deixado em paz aos limites de onde, quando, como e quanto de si será comunicado aos outros, a falta de consenso sobre as definições indicam a complexidade do conceito e seus manejos no cotidiano. Para Danah Boyd, concordando com as discussões de Helen Nissenbaum, aponta que a privacidade sempre está relacionada ao contexto. Nas entrevistas que realizou com os adolescentes percebe que privacidade não é algo que eles tem, mas algo que eles estão tentando conquistar com árduo e contínuo esforço apesar das barreiras estruturais e sociais que enfrentam. Para controlar a situação é preciso ao menos ter alguma agência na situação, ter uma compreensão mínima sobre a situação social em questão , e ter as habilidades para manejar a situação social para entender e atuar nela. Com as singularidades do networked publics, com o controle dos pais e com as mudanças repentinas nas regras e configurações de privacidade das mídias sociais, os adolescentes tem muita dificuldade em conseguir definir os limites entre os contextos e manejar o fluxo de informações nas situações sociais em rede. Nesta batalha alguns adolescentes inventam novas e criativas alternativas para controlar a situação e conquistar maior agência nas situações.

Public by default, Private trought effort

Normas sociais em torno da polidez e civilidade permitem que as conversas em um café ou restaurante sejam mantidas em privado. Violações dos limites são mais claras fora da rede pois nos ambientes mediados as normas relativas à visibilidade e disseminação de expressões são desafiadas já que os serviços e aplicativos são feitos para ampliá-las em grande escala. Atualmente é mais simples publicar para amplas audiências do que restringir o acesso e, ao inverso do que acontecia em ambientes não mediados, a pergunta que se faz é se o conteúdo é íntimo o suficiente para ser preservado ao invés de questionar se é importante o suficiente para publicar. Este raciocínio a autora encontra nas falas dos adolescentes entrevistados, apontando que partem do princípio de que seus pares sabem filtrar os conteúdos e avaliar sua relevância. Eles podem limitar o acesso escolhendo certas plataformas para evitar certas audiências, avaliando os custos sociais da publicação. Incorporando a lógica público por padrão e privado através de esforço, os adolescentes indicam que controlam sua privacidade escolhendo o que não publicar.
Publicações podem ser usadas fora do contexto, recuperados em outro tempo, mas aplicativos como o Snapchat são exemplos de um uso que pode ser mais imediato e contextualizado, publicações que tem seu valor no instante e que não necessitam persistir. As potencialidades técnicas e o design certamente influenciam o uso que os adolescentes fazem das mídias sociais mas não definem estas práticas. Ao publicar continuamente na rede não significa que os adolescentes abandonaram a privacidade por completo, nem que estão desesperados por atenção. Segunda a autora, talvez eles simplesmente não vejam motivos para justificar o esforço de minimizar a visibilidade de seus conteúdos e criam outras estratégias para manter sua privacidade.

Social Steganography

Se as crianças sempre brincaram com formas de codificar suas conversas e brincadeiras, a autora aponta que em suas pesquisas com os adolescentes na Internet evidenciou o quanto usam a chamada “estenografia social”, a prática de esconder mensagens dentro de conteúdos conhecidos para que a decifração dependa doe um contexto particular e não apenas das informações explicitadas. É necessário possuir os conhecimentos específicos da situação para interpretar as mensagens e contextualizar, ficando o significado codificado para aqueles que não compartilham o contexto. Para Boyd, nas últimas décadas estas práticas parecem intensificadas no cotidiano dos adolescentes que excluem certas audiências ao transmitirem mensagens bastantes específicas. Falas embutidas nas mensagens de outros, estenografia social e demais estratégias de codificação são formas de buscar maior agência e conquistar alguma privacidade no networked publics. Os adolescentes parecem considerar que limitar o acesso aos significados é uma ferramenta de privacidade mais poderosa do que tentar limitar o acesso aos conteúdos em si. Os adolescentes não apenas usam estas estratégias para comunicar com audiências específicas, mas também para se expressarem de forma privada em situações que sabem que estão sendo vigiados por quem não gostariam.

Living with Surveillance

Muitas das estratégias usadas pelos adolescentes são formas de tentar contornar as dinâmicas de poder impostas pelos pais e demais adultos que se consideram no direito de vigiar e escutar tudo o que eles conversam. Uma das adolescentes entrevistas relata uma estratégia curiosa para garantir alguma privacidade em suas interações no Facebook: desativar a conta e reativar para usos pontuais, nos horários em que sabia que não haveriam adultos supervisionando seus conteúdos, encontrando um forma de controlar a situação social a sua maneira. Seja a vigilância do estado ou dos pais, os adolescentes estão constantemente sob supervisão e tem sua agência questionada. A autora relata o quão recorrente são os discursos dos pais que associam a vigilância com cuidado e proteção, ao ponto de admitirem que não consideram necessário que os filhos tenham privacidade, especialmente quando se trata de Internet. Pais checam histórico, conferem os logs e seguem todos os rastros digitais do filhos em nome de uma proteção, usando a posição de poder para manter-se sobre controle de todas as ações dos filhos, deixando poucos espaços pessoais livres. O que já ocorria antes da Internet torna-se ainda mais intenso pelas condições técnicas do networked publics. Na opinião dos adolescentes entrevistados é comum perceber a decepção e incomodo com estas vigilância, sendo que alguns apontam que a privacidade estaria mais ligada à questão da confiança do que apenas na questão do direito à privacidade. Alguns adolescentes compartilham suas senhas com os pais e entendem que precisam deles para ter mais segurança, mas apostam na relação de confiança e no respeito aos limites. Boyd recupera o conceito de vigilância como mecanismo de controle (como trabalhado por Foucault em “Vigiar e punir”) para destacar o quanto a postura dos pais pode representar um forma de opressão que limita a autonomia de seus filhos. A autora reforça que independentemente da forma como reagem as estas vigilâncias, os adolescentes acabam incorporando esta lógica como parte de seu contexto social e tem sua agência limitada para poder manejar adequadamente as situações sociais.

Privacy as process

Na busca de manter pelo controle da situação alguns adolescentes relatam que publicar e compartilhar nas redes permite manter ocultas as questões que realmente são íntimas e sensíveis para eles. Assim como algumas celebridades na rede, os adolescentes percebem que é melhor estar no controle das publicações para ter o poder de definir o contexto e evitar que outros façam isso em seu lugar. A autora destaque que este tipo de tática atesta o quanto a privacidade não pode ser confundida com um construto estático. Privacidade é um processo pelo qual as pessoas tentam ter controle sobre a situação social, gerenciando as impressões, o fluxo de informação e o contexto. Apesar de ser fácil pensar o conceito de privacidade como oposto de público, mas as experiências cotidianas, especialmente no networked publics, mostram que este processo é cada vez mais complexo e com fronteiras cada vez mais borradas. Boyd insiste que os adolescentes não parecem ter abandonado a privacidade, mas ao contrário, percebem a importância dela e buscam estratégias para conquistá-la dentro e fora da rede. Estas buscam permitem não apenas conquistar a privacidade, mas também poder. “Privacidade não depende apenas da agência; ser capaz de obter privacidade é uma expressão de agência” (p. 76 Tradução nossa)

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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