It´s Complicated: Capítulo 1

Capítulo 1 – Identity

Por Rodrigo Nejm

Why do teens seem strange online

Neste primeiro capítulo a autora inicia seus argumentos partindo de uma caso de seleção para entrada na universidade vivido por um jovem negro. No ensaio que elaborou como parte de seu processo de seleção, o jovem descreveu com ótima qualidade suas estratégias para escapar da violência das gangs de sua comunidade. Apesar da qualidade do ensaio, o comitê de seleção buscou mais informações sobre o candidato na Internet e ficaram surpresos ao encontrar vários conteúdos de violência e símbolos das gangs em seu perfil nas redes sociais. O que surpreendeu o comitê pareceu familiar para a autora quando comparado com o conjunto de entrevistas que fez com jovens desta mesma comunidade sobre seus hábitos de uso dos sites redes sociais. Danah Boyd destaque que muito além de ser um ensaio mentiroso, o jovem parecia ser legítimo em seus anseios de sair do ciclo das gangs e o equívoco estaria justamente na interpretação feita pelo comitê. Debatendo com o comitê, a pesquisadora aponta que provavelmente o conteúdo no My Space tinha como audiência os membros da sua comunidade e enquadrar-se neste contexto seria mais uma estratégia de sobrevivência do que efetivamente uma plena adesão às gangs. Sem perceber o contexto das informações publicadas nos sites de redes sociais o comitê avaliador se enganaria sobre os interesses do candidato e as diferentes estratégias de auto-apresentação usadas por jovens de sua idade no networked publics. Tomado fora do contexto, o que os adolescentes dizem e fazem nas mídias sociais parece muito peculiar e mesmo problemático. Em sua pesquisa Danah Boyd aponta o quanto é importante entender como a relação entre contexto, audiência e identidade é vital para aprender a navegar nestes ambientes digitais.

Taking out of context

Recuperando as reflexões de Meyrowitz em No sense of Place (http://gitsufba.net/no-sense-of-place-introducao/), a autora chama a atenção para o contexto colapsado das audiências também nas mídias sociais. Ainda mais emblemática do que a fusão de diferentes audiências nos discursos feitos pela televisão e pelo rádio, no networked publics as mensagens chegam a contextos sociais desconectados e com normas sociais diversas, produzindo diferentes respostas e interpretações. A dinâmica narrada por Meyrowits não estaria mais restrita às figuras públicas ou personalidades que fazem seus discursos através das mídias eletrônicas já que os adolescentes que interagem pelas mídias sociais também convivem com contextos colapsados e audiências invisíveis em seu cotidiano. A autora aponta que os jovens também acabam por eleger uma audiência imaginada para poderem definir o contexto no qual estão se expressando e apresentado-se. Apesar de ser possível limitar parcialmente as audiências através das configurações de privacidade e da seleção dos amigos nos sites de redes sociais, os adolescentes geralmente imaginam como audiência não apenas os que os seguem mas também aqueles que eles mesmos seguem. Como resultado, independentemente das configurações de privacidade usadas, eles precisam levar em consideração quem pode acessar seu perfil, quem realmente acessa e a forma como estes diferentes públicos que acessam irão interpretar seus conteúdos.
Em suas pesquisas Boyd nota que o manejo destes diferentes contextos não é simples e que com muita facilidade os adolescentes acabam concentrando naqueles que efetivamente comentam e interagem com suas publicações, da mesma forma que em uma conversa durante um jantar podemos dialogar com uma ou duas pessoas em detrimento dos demais presentes à mesa. O desafio adicional nas mídias sociais é dado pela buscabilidade e pela persistência dos conteúdos, o que permite que sejam recuperados em outros momentos, em outros contextos e situações. Usando exemplos das entrevistas com os adolescentes a autora destaque que, diferentemente de situações em ambientes físicos, nos ambientes digitais não é tão simples mudar o tópico da conversa ou mesmo interrompê-la quando um adulto se aproxima para controlar a situação. Nas mídias sociais espera-se que os familiares e amigos possam entender e respeitar os diferentes contextos sociais, para saber quando algo não é direcionado para eles. Usando relatos dos adolescentes a autora mostra como são difíceis de manter estes limites e acordos de respeito ao contexto nas conversas no networked publics já que parentes e amigos de grupos diferentes acabam se intrometendo em assuntos e relações que não deveriam, causando vários tipos de constrangimentos ao misturar dois contextos que não estão relacionados e podem até ser inconciliáveis. O jovem Hunter aponta em seu relato que há maneiras de falar com cada grupo e que as audiências devem respeitar estes limites e o código de conduta implícito nas mensagens que permitiriam posicionar a conversa dentro de certos contextos na expectativa de excluir outros, mesmo que tudo se passe de forma pública. Frustrado com as intromissões de sua irmã e de seu primo, Hunter apelou para os recursos técnicos e optou por reconfigurar seu perfil no Facebook para limitar o compartilhamento de certos tópicos para certos amigos da rede. No argumento da autora este tipo de reação demonstra não demonstraria vergonha ou arrependimento sobre os conteúdos, mas uma das estratégias usadas pelos adolescentes para controlar as situações e interagir sem ter que articular e justificar o contexto de cada conversa. Sem este este senso de contexto, interagir online pode ser muito custoso. Falar com os amigos é bem diferente de falar com os pais ou familiares, o que exige uma intensa negociação social para escolher as melhores estratégias e manejar estes diferentes contextos nas interações no networked places. Neste cenário é preciso estar muito atendo às nuances entre as diferentes formas como as pessoas leem as situações sociais e se apresentam adequadamente.

Identity Work in Networked Publics

Neste tópico Danah Boyd recupera as reflexões de Sherry Turkle, no livro Life on the sreen (1995) (http://gitsufba.net/alone-together-nota-da-autora-e-introducao/), sobre as potencialidades da auto-apresentação nos ambientes digitais. Observando usuários intensos de computador as reflexões de Turkle destacavam o quanto a construção das identidades poderiam ser potencializadas com as oportunidades das relações mediadas, explorando novas possibilidades e extrapolando os limites do corpo. Para ter presença online os usuários precisam exercitar a auto-reflexão e poderiam escolher mais livremente as estratégias de auto-apresentação. Apesar de vividas muito intensamente por alguns anos, estas utopias libertárias sobre as possibilidades de construção das identidades sem corpos e totalmente livres não condizem mais com a realidade 20 anos após o livro de Turkle. Danah Boyd aponta que apesar de o uso dos ambientes digitais e dos games estar cada vez mais popular, atualmente há uma grande diferença cultural nas formas de uso das mídias sociais, cada vez mais conectadas a uma atmosfera não ficcional. Os adolescentes hoje estão online para socializar com amigos que já conhecem e há cada vez mais uma continuidade entre o que chamamos mundo online mundo offline. No argumento de Boyd, mesmo que certo anonimato ainda seja possível, quando os adolescentes usam diferentes pseudônimos em diferentes serviços online Boyd visualiza não o exemplo de múltiplas identidades mas sim múltiplas formas de auto-apresentação em diferentes sites com expectativas de normas e audiências diferentes. A autora reforça a mensagem de que o contexto sempre importa e quando os adolescentes transitam entre diferentes contextos sociais eles gerenciam diferentemente as dinâmicas e normas sociais.
Apesar de os sites mais usados e as plataformas mudarem com o tempo a autora aposta que o que importa mesmo neste processo de construção identitária não é a mídia social em questão, mas o contexto no qual esta está situada em relação a um grupo específico de jovens. O contexto de um site em particular não seria determinado pelos recursos técnicos, mas prioritariamente pela relação dos adolescentes com o site, o contexto das mídias sociais é socialmente construído. Mesmo que o uso de nomes verdadeiros e as relações com pessoas conhecidas sejam cada vez mais evidentes nos usos das plataformas, o anonimato também continua sendo usado como uma das formas de auto-apresentação, especialmente nos jogos e em fóruns na deep web. Além de permitir experimentações identitárias, as interações através de avatares e anônimas são também formas de escapar da supervisão dos adultos e explorar os ambientes com mais liberdade. O que parece evidente é que os adolescente estão cada vez mais sofisticando as formas como manejam dos contextos sociais e como se apresentam para atingir suas audiências imaginadas. Mesmo que nem sempre tenham sucesso, o esforço que fazem é enorme.

Crafting a Profile, Creating an Identity Performance

Comentando o caso de uma adolescentes de 16 anos que convidou o pai a ser sua amiga no auge do My Space, Danah Boyd exemplifica como a definição do contexto é vital para interpretar as diferentes formas de expressão dos adolescentes nos ambientes digitais. Quando o pai navegou pelo perfil da filha logo encontrou referências às drogas. Do susto e mesmo pânico inicial, apenas dialogando com a filha o pai pode compreender o contexto no qual estas referências estavam e que, fruto de um quiz famoso entre os pares de sua filha, não passava de uma brincadeira para expressar os diferentes estilos identitários e marcar o pertencimento a certas tribos dos colegas da escola. O mesmo jogo identitário ocorre quando os adolescentes brincam com os formulários de identificação dos sites que exigem nome, idade, renda e naturalidade. As informações falsas que fornecem não parecem ser totalmente aleatórios já que costumam conter sinais significativos sobre seus laços de amizade e sociabilidade, além de sinalizar uma posição de controle sobre o manejo de seus perfis já que não se limitam a respeitar integralmente as regras definias pelos sites. A autora destaque que ao criar perfis nas mídias sociais os adolescentes estão simultaneamente navegando por ambientes extremamente públicos e espaços de amizade cada vez mais íntimos. O desafio é conseguir definir os limites entre estes espaços como networked publics para que os contextos e as formas de auto-apresentação sejam ajustadas devidamente às diferentes e conflitantes audiências.

Impression Management in a Networked Seting

Nesta parte final do capítulo Danah Boyd recupera a obra Apresentação do eu na vida cotidiana, do sociólogo Erwing Goffman, que descreve os rituais de interação envolvidos na auto-apresentação como “gerenciamento de impressões”. Como apontado por Goffman, as impressões que deixamos são produto daquilo que transmitimos voluntariamente e daquilo que emitimos involuntariamente aos outros nas interações, sempre relacionadas às normas, dinâmicas culturais e instituições que definem o contexto mais amplo de nossas performances. Seguindo os argumentos de Goffman, a autora lembra que quando interpretamos as auto-apresentações de outras pessoas nós lemos os conteúdos transmitidos com base nas informações implícitas que são emitidas e no contexto no qual ocorrem. Baseado no entendimento sobre a situação social – incluindo o contexto e a audiência – as pessoas tomas decisões sobre o que compartilhar para agir de acordo na situação e para serem percebidas da melhor forma. A autora indica que os adolescentes experimentam os espaços online e tentam obter um senso de contexto para poderem definir a situação e agirem de acordo, o que complica o gerenciamento de impressões quando os contextos colapsam ou as informações são tomadas fora de contexto.
Desta vez recuperando o conceito de “equipe” de Goffman, Danah Boyd lembra que a auto-apresentação nunca ocorre no vazio e que o exercício não é apenas individual já que também produzimos e gerenciamentos as auto-apresentações como parte de coletividades e grupos. A autora destaque que ao criarem perfis nos sites de redes sociais os adolescentes são tanto indivíduos quanto parte de coletividades. A auto-apresentação dos adolescentes sempre um processo social, fruto daquilo que eles explicitam, daquilo que os amigos compartilham e fruto de como as outras pessoas respondem a eles. O desafio do gerenciamento das impressões nos ambientes digitais é grande não apenas pelo colapso dos contextos, mas também pelo fato de que cada indivíduo pode ter uma percepção diferentes sobre os limites e sobre como suas decisões influenciam outros indivíduos do grupo. Usando exemplos de suas entrevistas, a autora indica que no caso dos adolescentes o desafio é maior quando consideramos que os adultos que possuem poder sobre eles se sentem no direito de acessar, julgar, compartilhar e até interpretar seus conteúdos mesmo que totalmente fora de contexto. Especialmente os adolescentes que tentam preservar certos aspectos de sua sexualidade ou que convivem em grupos sociais conflitantes, o esforço para gerenciar as impressões é sempre maior já que dependem também do uso que os amigos e as próprias plataformas farão das suas conversas e conteúdos, o que pode os colocar em sérios conflitos. Nos argumentos de Danah Boyd, enquanto os adolescentes enfrentam estes desafios para dar sentido aos diferentes contextos sociais e se apresentarem adequadamente, uma coisa fica clara: a Internet não evoluiu como uma zona livre na qual as pessoas estariam livres das limitações dos corpos e do “mundo concreto”. Os adolescentes estão tentando dar sentido ao que são e ocupar seus espaços na sociedade num ambiente no qual os contextos estão em rede e colapsados, as audiências são invisíveis e tudo o que dizem ou fazem pode ser facilmente tomado fora de seu contexto. Apesar de os adultos também lidarem com o mesmo cenário, os adolescentes o fazem sob constante supervisão e sem uma convicção sobre quem eles são em termos identitários.

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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