Internet traz felicidade?

Segundo matéria do Jornal da Globo, pesquisa de um instituto britânico demonstrou que “tecnologias da informação (como celular e internet) fazem as pessoas mais felizes, especialmente mulheres”. O estudo foi feito com 35 mil pessoas em vários países, e chegou à conclusão de que as tecnologias da informação tornaram essas pessoas mais felizes, por despertarem um senso maior de liberdade e autonomia, o que aumentou o bem-estar. Tal efeito seria maior entre pessoas com menos escolaridade, renda mais baixa e nas mulheres (em especial naqueles países em desenvolvimento). A reportagem traz ainda um exemplo de uma personagem que usa o laptop para se comunicar com filhos, o que consiste em uma atividade tipicamente prazerosa e que “traz felicidade”.

Uma matéria como essa remete à época das maiores mistificações já feitas sobre a Internet – aliás, a própria idéia de que a “felicidade” pode depender de um único fator é bem questionável. O uso de alguma tecnologia da informação (como Internet ou celular) estará inserido em um contexto muito maior, com inúmeras variáveis tão ou mais importantes para a percepção de “bem-estar”. Possivelmente, não é estritamente o uso da tecnologia que “traz felicidade” (como nos termos da reportagem), mas a situação vivenciada pela pessoa, em toda sua complexidade. Como no caso da personagem citada na matéria, o conteúdo e o contexto da comunicação praticada com os filhos são fatores centrais para a sensação de felicidade. A ferramenta tecnológica é um dos elementos relacionados à experiência.

Salientar que este efeito seria maior sobre determinados grupos também é problemático. Por mais que a pesquisa tenha verificado relação positiva entre determinados segmentos da amostra e aumento da sensação de bem-estar, não é oferecida nenhuma resposta razoável para a causalidade. Inevitavelmente, alguns grupos irão sobressair-se nos dados obtidos. Porém, não foram apresentadas razões que esclareçam a sensação de felicidade que a Internet poderia levar, de maneira reforçada, para mulheres, pessoas mais pobres ou menos instruídas.

 

Vitor Braga

Jornalista, professor da Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia.

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