Gratuito…a que preço?


Ao mesmo tempo em que favorece incríveis espaços de libertação, a Internet materializa muitos elementos do que podemos chamar de sociedade do controle, especialmente quando pensamos no registro e venda de nossas “pegadas digitais”. Uma pesquisa do Wall Street Journal sobre aplicativos realizada em 2010 permite uma visualização interessante desta dinâmica de rastreamento e venda dos nossos hábitos de navegação. No estudo foram analisados 101 aplicativos, de jogos à redes sociais, para visualizar os tipos de dados que ficam registrados quando usamos estes aplicativos.

 

Somando estes novos controles aos mais antigos relacionados às nossas informações bancárias, nossas compras e nossas viagens, agora é possível compilar isto tudo ao lado de detalhes sobre com quem mais conversamos on-line, que tipo de filmes e músicas assistimos, que livros gostamos e até quais lugares mais frequentamos. São dados que são ainda associados ao tipo, modelo, identificador e localização dos aparelhos com os quais navegamos. Na Europa e nos países norte-americanos o debate sobre os limites dos usos comercial, político e militar destes dados é muito forte.

Interessante indagar sobre o tipo de engajamento e preocupação dos usuários com esta dinâmica de rastreamento e controle. Além das informações que divulgamos consciente e voluntariamente em nossas redes de relacionamento, geralmente ignoramos sumariamente as políticas de privacidade e as regras de uso dos aplicativos e serviços digitais. Uma prática bem usual é apertar com toda força nos botões: “Próximo”, “Próximo”, “Próximo”….“Aceito” para poder entrar logo nos encantadores espaços de compartilhamento.

Em tempos em que estas informações coletadas são o “novo ouro” do mercado, vale indagar o que nos faz ainda pensar que os serviços e aplicativos são gratuitos? Seriam nossos dados pessoais efetivamente irrelevantes que nem nós mesmos os valorizamos a ponto de precisar preservá-los? Será ainda sustentável a ilusão do poder de controle sobre o uso? A simples possibilidade de desfrutar do uso destas criativas inovações já valem a pena? Será o retorno social e pessoal para o usuário ainda mais valioso do que os dados puros?

Com certeza não há resposta única a nenhuma destas indagações, mas parece importante incluí-las no conjunto de lições básicas para o letramento digital. Pensando que está cada vez mais evidente a ubiquidade dos ambientes digitais, vale sempre a pena ficar atento às ressonâncias que os dispositivos tecnológicos produzem, simultaneamente, nas possibilidades de libertação e controle.

Vale conferir o artigo que acompanha a pesquisa.

Rodrigo Nejm

É psicólogo pela Universidade Estadual Paulista UNESP/Assis-SP, doutorando em psicologia social no Programa de Pós Graduação da UFBA e mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pelo CIAGS/UFBA. Realizou intercâmbio acadêmico na graduação para estudar “Médiation Culturelle et Communication” na Université Charles de Gaulle Lille 3, França. Atualmente é psicólogo e diretor de educação na ONG Safernet Brasil, responsável pela criação de materiais pedagógicos, pesquisas e campanhas educativas sobre Direitos Humanos e governança da Internet no Brasil. Tem interesse de pesquisa nas interfaces da psicologia com a comunicação, privacidade e sociabilidade de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.

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