Google Glass e comportamento

Como já considerado em outros momentos neste blog, Goffman traz em seu Comportamento em lugares públicos questões pertinentes ao modo como nos dispomos e atuamos em situações públicas, sempre tendo em vista as balizas do que é socialmente aceito e as implicações que tal enquadramento de aceitação impõe. Alguns dos pontos curiosos da obra se situam nos registros de manuais de etiqueta da época (o livro foi escrito em 1963), os quais delineiam certas “regras” de conduta para situações diversas. Um pequeno exemplo:

[…] Ao ler ou assistir à TV: Você pode pentear seu cabelo; massagear suas gengivas, fazer exercícios para tornozelos e mãos e fortalecedores dos pés; fazer alguns exercícios para o busto e as costas; massagear o couro cabeludo; usar o tratamento abrasivo para remover pelos supérfluos (p. 77)

A questão, claro, não reside na efetividade de tais ações, nem nas suas finalidades ou ainda qual seria a melhor maneira de serem realizadas. Tendo em vista a perspectiva do interacionismo simbólico e a preocupação sublinhada no livro, o que diz respeito a tais atividades – descritas como “preocupações do próprio corpo” ou objetos de autoenvolvimento – é o contexto de atuação e, portanto, o que daí decorre em termos de interação ou não. Se considerados como objetos de autoenvolvimento, o nome já se descreve por si só: não se deve realizar isso ou aquilo na presença de terceiros (com exceções, claro).

Google Glass e as questões que tocam o que é “impróprio”

Realizemos um salto. Há poucos dias, foi publicado no blog de tecnologia Boing Boing um vídeo (acima) satirizando o procedimento de se tirar fotos com o Glass, os assim chamados “óculos digitais” do Google. Tecnicamente, o gadget tem a capacidade de reconhecimento de voz, dentre outras  potencialidades. Quando o usuário fala “Ok Glass”, o dispositivo fica na espera por uma outra ordem. Palavras como “record a video” (grave um vídeo) ou “take a picture” (tire uma foto) efetuam a ação desejada. Desde, claro, que os óculos compreendam bem o que foi dito… Veja abaixo como funciona.

stevejobswho-priyankO ponto de provocação do vídeo-sátira não está relacionado à capacidade do aparelho “entender” ou não a voz do usuário – o que já seria um grande problema, de fato, como mostra o blog Siri Funny, dedicado aos erros do aplicativo de reconhecimento de voz Siri, da Apple. A tensão provocada pelo vídeo, exagerado em sua tônica, situa-se nas suas formas de uso em ambientes públicos e, pois, no quão bizarro certas ações podem vir a ser – especificamente, neste caso, no que se trata de tirar fotos ou realizar gravações de vídeo com os óculos. Em busca de bons enquadramentos, por exemplo, supostamente teríamos que realizar manobras corporais que extrapolariam nosso aprendizado social relativo às câmeras fotográficas, se considerarmos seu advento no século XIX, e mais especificamente ao uso de telefones celulares dotados de capacidade de registro audiovisual, agora considerando o final do século XX. Essa seria, em princípio, uma das questões levantadas em outro recente post no blog do Gits, em que se consideram brevemente impactos relacionados à adoção de tecnologias wearable computing.

Qual o modo de se comportar publicamente com Glass?

Efetivamente, o Glass tem sido promovido por seus recursos futuristas, revolucionários. Entretanto, estar (ou se dizer) no topo da inovação tecnológica traz uma característica de estranhamento ao produto, justamente por romperem com uma linha de aceitação social. No fim das contas, é isso o que óculos digitais do Google têm sido considerados: estranhos. Os próprios executivos da empresa assim o tratam, como falou Eric Schmidt, chairman da companhia: “as pessoas precisarão desenvolver novas etiquetas para lidar com tais produtos”. De outro lado, Tim Cook, da Apple, adota o discurso lógico da competição mercadológica: o Glass terá ‘apelo limitado’, diz.

Não há dúvidas de que, com Glass e similares, teremos novas etiquetas, já que elas se renovam sempre. Entretanto, enquanto não as “naturalizarmos”, por assim dizer, tecnologias como essa causarão sempre certas “impropriedades situacionais” – termo usado por Goffman para se referir às ocasiões em que um “indivíduo, intencionalmente ou não, se comporta de forma que os outros consideram situacionalmente inapropriada, e mostra assim que ele ou está alienado do ajuntamento, ou estranho a ele” (p. 233). Nesse sentido, quais serão os caminhos que se tomarão para a aceitação plena de óculos digitais e outros dispositivos “vestíveis”? Criação de desejo no público-alvo? Criação de necessidade (ainda que de ordem secundária)? Imposição de procedimentos técnicos? A ver.

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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