Generating Utopia, ou uma cidade de cada um

Em outra ocasião, a respeito de mapas personalizados, falei aqui da preocupação das experiências e representações locativas altamente individualizadas ou excessivamente balizadas por dados pessoais. A questão atordoante é a possibilidade de passarmos a ter novas experiências fundamentalmente criadas e alimentadas a partir de uma postura egocentrada (o que faz com que não sejam tão novas, mas em boa parte repetidas): gostos, escolhas, riscos, consequências etc., qualquer coisa, em tese, pode vir a ter um caráter programado e voltado para o indivíduo – o que minaria outras formas de experiências baseadas em alteridades. Do eu partiria, para o eu voltaria. Não teríamos, portanto, apenas compras personalizadas, por exemplo, mas se daria da mesma forma todo um conjunto de representações que precisam, por definição, encontrar um denominador comum a todos os sujeitos. E encontrar consenso pressupõe enfrentar a diferença, o erro, o desvio…

Generating_Utopia_001O espaço, assim como todo o processo comunicacional que lhe é inerente em sua produção e representação, seria um desses conceitos: é preciso que eu e você tenhamos compreensões compartilhadas sobre aquilo que dividimos (uma rua ou uma sala), e igualmente é necessário percebê-lo e aceitá-lo como fonte de desavenças e disputas tanto quanto de potências criativas, colaborativas e de comunhão.

Seguindo essa linha de raciocínio, sublinho aqui o projeto Generating Utopia, uma experimentação de visualização de dados baseada em rastros pessoais produzidos no ambiente do Foursquare. Por rastros pessoais, refiro-me a dados relativos a uma única pessoa, exclusivamente, e não a um composto para um coletivo qualquer – afinal, todos os dados ali são, de certa forma, individuais, ou pelo menos em sua origem. O modo como são utilizados a posteriori é que os faz continuar sendo pessoais.

Criado pelo designer de interação Stefan Wagner, Generating Utopia é um projeto de visualização de dados baseado nos rastros deixados no Foursquare. Um script, usando a API da rede social e o serviço de mapeamento OpenStreetMap, faz uma simulação de como certas cidades seriam visualmente se fossem representadas tendo em vista o comportamento dos seus habitantes – e se elas fossem, fisicamente falando, passíveis de modelação. Ou seja, ao invés de tomar a fundamentação do planejamento urbano (que é rígida), o visual delas, nessa projeto, é maleável (como massa de modelar), e traz às vistas os lugares mais praticados por meio das perturbações visuais que essa maleabilidade cria.

»Generating Utopia« tries to make those individual utopias visible and shows, what human environments could look like if it was possible to transform them depending on location-based information of their inhabitants. The data was taken from various users of the social platform »Foursquare«.

Existe uma questão pessoal/individual em jogo na abordagem de Wagner que é precisamente quanto àquilo que se vê: ganha expressão o que está por traz das dinâmicas pessoais, não pela coletividade em si, mas pelo lado individual. Seu projeto deixa às claras que cada um de nós participa de e recria um espaço bem singular, apesar da determinação coletiva com a qual precisamos lidar. Dessa forma, Generating Utopia não cria uma representação generalizada da cidade, mas acaba sendo uma abordagem experimental referente à individualidade: Wagner escolheu usuários do Foursquare e utilizou seus check-ins públicos para criar visualizações individuais, e apenas individuais. Ao fazê-lo, revela como as cidades são tomadas de maneiras únicas, para cada um, apesar da dimensão coletiva que lhes é fundamental. Dessa forma, coloca em tensão o caráter de público desse espaço, e daí vem uma dimensão de ordem da diferença: como cada pessoa, particularmente, utiliza sua cidade? De que modos singulares se dão suas práticas e quais as decorrências representacionais que isso traz à tona?

Generating_Utopia_004

E se os elementos do espaço urbano fossem realmente remodeláveis tendo em vista as práticas de cada um?

 

Não é à toa, portanto, que o projeto recebe o nome de utopia, já que é justamente isso o que se dá, pelo menos aparentemente, nas práticas do Foursquare (mesmo que elas estejam baseadas em processos “reais”): construímos lugares que não existem (não da maneira como o projeto demonstra), por meio de nossas idealizações, experiências maquiadas, recortadas e amplamente selecionadas. Em outras palavras, seguindo a lógica da experiência particularizada e egocentrada, minha cidade é bem diferente da sua, ainda que vivamos na mesma.

Ao destacar as dinâmicas de cada pessoa separadamente, o Generating Utopia destaca a dimensão particularizada da experiência cotidiana do espaço urbano, o que nos faz encarar o modo mais que singularizado e quase enclausurado com o qual lidamos em nossa convivência citadina. De certa forma, ele espanta por colocar em evidência um certo caráter de estamos juntos porém sozinhos das práticas de sociabilidade evocadas na contemporaneidade, especialmente quando elas se dão por mediações quantificáveis e personalizáveis.

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

More Posts

Follow Me:
TwitterFacebookDelicious

Deixe um comentário