Game over, Privacidade! #SQN

Considerações sobre a privacidade on-line de crianças e adolescentes

Texto por Lorena Borges

O crescente avanço da presença das novas tecnologias no cotidiano requisitam dos estudiosos reflexões e pesquisas sobre seu impacto social, principalmente, no que diz respeito às interações sociais.

Um desses estudos que podem inspirar novas reflexões é a pesquisa sociodemográfica e quantitativa ‘TIC Kids Online 2016’, realizada pelo Centro de Pesquisas Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br/NIC.br) do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). Com objetivo de compreender o uso das novas tecnologias entre crianças e adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos,  investiga  como eles lidam com os riscos e danos desse uso e como seus pais acompanham estes usos. O órgão realiza anualmente esse estudo de abrangência nacional, e na última edição teve uma amostra de 5.998 participantes (metade era o público pesquisado e a outra metade, seus responsáveis), utilizando como método de coleta entrevistas domiciliares e questionários administrados por meio de tablets e ocorreu entre junho de 2016 a junho de 2017 (CGI.br, 2016).

A partir da análise desses dados, muito pode ser pensado. Em relação à conectividade, os dados demonstram que 82% dessa faixa etária acessa a internet, ou seja, estão cada vez mais conectados, inclusive aqueles oriundos da zona rural, 65% acessa, principalmente por meio do celular (que também é o principal meio de acesso de jovens das classes D e E). Os dados da pesquisa supracitada fornecem também um quadro sociodemográfico do uso das redes sociais Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat e que mostra justamente as questões sociais do país, como o indicador ‘ crianças e adolescentes que possuem perfil em redes sociais’, em que 86% deles possui um perfil em rede social. Sendo assim, buscar compreender e analisar como se dá as dinâmicas de interação e usos nas redes é de grande valia para a pesquisa acadêmica e científica.

Diante dessas estatísticas, generalizações sobre o uso da internet por essa faixa etária são comumente feitas e veiculadas como um fato. Dentre elas, há a ideia de que crianças e adolescentes não sabem gerir sua própria privacidade, expondo o que, por convenção social, não deveria ser exposto. Por conseguinte, em um contexto de redes sociais e conexão online, sua privacidade estaria acessível a todos e acarretaria situações tanto de constrangimento social, como de perigo para esse público e suas famílias. Esse é um argumento passível de uso para um rígido controle parental, e invisibiliza o protagonismo (lugar de fala) desse segmento geracional.

Ao questionar essas generalizações precipitadas, pode-se recorrer  às pesquisas qualitativas e estudos sobre o tema em diferentes áreas de conhecimento, como a Psicologia Social. Segundo essa perspectiva, a privacidade não é um conceito fechado e nem é consenso entre estudiosas/os (MARGULIS, 2003). Um aspecto que costuma ser enfatizado é que a privacidade não pode ser considerada como estado absoluto ou como aspecto a ser avaliado de forma binária como “ter ou não ter privacidade”. Segundo Derlega e Chaikin(1997), a privacidade é mantida através do gerenciamento que a pessoa faz dos graus de acesso a informação divulgada sobre si, ou seja, a questão é quando expor informações a outros e quando mantê-las confidenciais. Vários mecanismos e acordos operam nesse manejo entre expor-omitir (PETRONIO, 2002). O alcance do grau desejado de privacidade envolve regular o uso de múltiplas estratégias comportamentais, de acordo com o estado desejado de acessibilidade e exposição de si (ALTMAN, VINSEL E BROWN, 1981).

Esse aspecto de desenvolvimento de mecanismos adaptados a diferentes situações têm sido demonstrados estudos recentes sobre o uso das novas tecnologias. As questões entre público e privado não estão tão definidas e a fronteira entre eles está embaçada. As pesquisas apontam para contextos colapsados ou conceitos imbricados e que, portanto, suscitam estranhamento, adaptação e inovação.

Ao contrário do que diz o senso comum, vários pesquisadores e pesquisadoras constataram que, no contexto de conexão constante, para adolescentes, a privacidade tem uma perspectiva distinta da que os adultos tem: é conquistada limitando o acesso ao significado dos conteúdos compartilhados; privacidade é saber/ter a habilidade de controlar os acessos a informação que é exposta, ou seja, os adolescentes desenvolvem mecanismos para gerenciar sua privacidade a partir de restrições simbólicas, como utilizar uma linguagem específica, configurar o perfil para que alguns tenham acesso a fotos e outros apenas a status; elaboram um filtro, dentro de suas condições etárias, de visualizações e acessos (MARWICK, BOYD, 2014; ITO, OKABE, 2006;NEJM, 2015). Estes mecanismos apontam não apenas para uma real preocupação, mas também para uma atitude proativa em busca de estabelecer limites e regular o que é compartilhado.

Ao atentar-se para os indicadores relacionados à privacidade da pesquisa TIC Kids Online 2016 (Cetic.br/NIC.br), nota-se que as crianças e adolescentes, de forma geral, compartilham informações pessoais como Foto do rosto (82%), Sobrenome (75%), Idade real (55%) e o Nome da escola (42%). Pode-se pressupor que isso se deve aos requisitos das próprias redes sociais, as quais pedem uma foto de perfil e alguns dados, para criar um retrato mais autêntico de si e também de um quadro em que a visibilidade/ visualização de si é requerida e estimulada (MARWICK, BOYD, 2014) e não apenas pela proposição de que jovens compartilham tudo sobre si.

Ainda segundo algumas autoras e autores, entre adolescentes, dispositivos móveis são uma possibilidade de independência de controle das relações mais íntimas e formas de burlar o controle/vigilância familiar. Além disso, a privacidade é contextual: o modo de vivê-la varia de acordo com cada contexto social, cultural, histórico e de audiência. As novas situações, com o advento das tecnologias móveis, podem gerar dificuldades para manejar a privacidade, para pessoas de qualquer faixa etária.

2

Fonte: freepik.br

Isso pode ser visto analisando o indicador  sobre o tipo de configuração de privacidade do perfil da rede social.Os diferentes tipos de perfis variam, fundamentalmente devido a fatores socioeconômicos, isto é, contextuais. Apesar de quase metade deles ter um perfil público(49%), é importante considerar que dentre eles, a maioria é da zona rural (54%); ao observar a escolaridade dos pais e a renda familiar, percebe-se que são das classes mais pobres e apenas com ensino básico, além disso há a questão de gênero: a maioria é de meninos. Num país em que historicamente, pessoas da zona rural e mais pobres são as que têm menos acesso à informação, exigir que crianças e jovens dessa conjuntura compreendam o que significa ter um perfil aberto a todos ou exclusivo para alguns e o domínio das habilidades de uso das tecnologias digitais, é desconsiderar que suas concepções de privacidade são distintas, aplicam-se através de mecanismos diversos e que não tem acesso à uma otimização desse uso. Já em relação a questão da predominância no sexo masculino, deve-se ressaltar que o Brasil é um país institucionalmente machista e não raro, as tecnologias digitais são utilizadas como meio para violência contra mulheres, e como isso não ocorre tanto com homens, não há motivo para tanta preocupação em manter dados em sigilos, em especial, fotos e vídeos.

É o que se pode constatar em relação aos perfis que são privados (33%) em que há predominância do sexo feminino (36%), que muito provavelmente é devido não só a um medo de ter dados vazados, mas de uma cultura e socialização voltada para o recato feminino. Os dados sociodemográficos indicam que esses perfis, em sua maioria, são provenientes da zona urbana, das classes mais abastadas e pais com escolaridade mais alta. Novamente, ao recorrer à reflexões sociais, os grupos que são privilegiados são aqueles que mantêm comportamentos condizentes com as normas sociais sobre uso das novas tecnologias, que é de utilizar os mesmos mecanismos do fenômeno (já supracitados) quando era apenas presencial. Mas, para além disso, percebe-se que há, sim, uma atenção e cuidado dessas crianças e jovens em relação aos dados que estão sendo circulados, pois em sua maioria, eles tem o controle de suas configurações de perfil e provavelmente escolheram mantê-lo privado, apesar de que as estatísticas em relação a habilidade de uso das ferramentas digitais demonstram que ele é baixo para a maioria, em especial aqueles de condições menos favorecidas. Cabe uma análise qualitativa mais detalhada desses dados, para compreender os tipos de usos dessas configurações de privacidade. Portanto, há também um retrato dos problemas sociais do país e a pouca idade não define o que é ‘ter’ ou ‘não ter’ privacidade e agência social, corroborando o aspecto contextual da privacidade que os pesquisadores e pesquisadores indicaram.

É sempre importante considerar argumentos fundamentados antes de difundir ideias provenientes de “achismos”. O lugar da criança e do adolescente sempre foi subestimado; assistimos a algumas mudanças após movimentos sociais e a instauração do Estatuto da Criança e do Adolescente- ECA. Assim como em outras situações cotidianas, esse público também faz parte da dinâmica das novas tecnologias e apresenta um protagonismo de acordo com sua idade.

Isso não significa que não são capazes de regular sua própria exposição. É preciso lembrar-se de que novos contextos exigem novas posturas; dificuldades ou constrangimentos fazem parte do processo de construção dos acordos sociais, principalmente no que diz respeito à privacidade, que está diretamente ligada a esta mudança de acordos. Por isso, é sempre bom analisar os aspectos da questão, antes de generalizar a afirmação de que “todo jovem irá deixar sua privacidade a céu aberto”, quando na verdade isso depende muito dos contextos deles e não estritamente por uma questão etária.

Referências Bibliográficas

ALTMAN, Irvin; VINSEL, Anne; BROWN, B. Barbara. Dialectic Conceptions In Social Psychology: An application to social penetration and privacy regulation. In: ADVANCES IN EXPERIMENTAL SOCIAL PSYCHOLOGY, VOL 14.1981 p. 108-157.

CGI.br/NIC.br, Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). Pesquisa sobre o Uso da Internet por Crianças e Adolescentes no Brasil – TIC Kids Online Brasil 2016.

DERLEGA, J. Valerian; CHAIKIN, L. Alan. Privacy and self-disclosure in social relationships. Old Dominion University. In: JOURNAL OF SOCIAL ISSUES, VOL 33, NUMBER 3. 1997. p. 102-115.

ITO, Mizuko; DAISUKE, Okabe; MATSUDA, Miza. Mobile Phones in Japanese Life. In: THE MIT PRESS. Cambridge, Massachusetts, 2005.

MARGULIS, T. Stephen. Privacy as a social issue and behavioral concept. Grand Valley State University. In: JOURNAL OF SOCIAL ISSUES, VOL 59, No. 2, 2003. p. 243-261

MARWICK, E. Alice; BOYD, Danah. Networked privacy: How teenagers negotiate context in social media. 2014.

NEJM, Rodrigo. Minha privacidade, nossas regras: estratégias sociais de manejo da privacidade entre adolescentes. In: TIC KIDS ONLINE BRASIL 2015. Survey on internet use by children in Brazil, Brazilian Internet Steering Committee, 2015, p. 83-93.

PETRONIO, Sandra. Boundaries of Privacy: Dialectics of Disclosure. State University of New York, USA. 2002.

Karla Cerqueira

é mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

More Posts

Deixe um comentário