Foursquare: rumo a uma serendipity artificial?

Serendipity é uma das palavras mais complicadas de se traduzir. Em geral, diz respeito ao acaso, às boas descobertas feitas ocasionalmente, ocorridas sem planejamentos prévios. É, por um lado, uma espécie de sorte, mas sem a espera pela qual se anseia quando se busca por algo. Quando se fala de serendipity, até essa sorte ou esse algo são de natureza inesperada.

Talvez por ser tão complicado, o termo também não seja assim tão fácil de ser implementado em processos digitais. Como criar, como exemplo, aplicações que promovam a serendipia, o acaso, o fortuito? Jogar dados não parece uma boa resposta, diante da óbvia possibilidade de ocorrências negativas. A despeito dessa dificuldade, é definitivamente esse o passo que o Foursquare deu uma vez mais: conforme anúncio no final de agosto, o serviço agora se considera “mais esperto, para que não se perca nada”.

Um Foursqure mais e mais smart. Mas para quê?

O que foi anunciado pela empresa nada mais é senão uma atualização nos seus algoritmos, os quais promoverão recomendações de maneira ativa. Com essa atualização, o aplicativo instalado no smartphone faz, em plano de fundo, uma verificação constante da localização do usuário e, mesmo sem a realização de check-in (o que foi extremamente marcante para o serviço até agora), passará a recomendar lugares ou atividades por perto. Desde que, claro, façam parte de um potencial universo de interesses daquela pessoa, o que significa levar em conta também seus contatos e as atividades destes.

Tais indicações têm, a priori, pelo menos duas implicações mais óbvias: um aumento suposto no engajamento do usuário com o aplicativo (pois estaria recebendo potenciais dicas de seu gosto); e uma decorrência de ordem comercial, na medida em que poderá ser do interessante de empresas locais comprar patrocínios ou demais pacotes de visibilidade que o Foursquare possa vir a oferecer. Ou seja: de certa forma, a empresa faria frente ao Google em termos físicos.

Essa atuação perene, na verdade, sempre foi o objetivo da empresa: uma espécie de “acaso fabricado”, como diz o pessoal do About Foursquare. Ao ter um sistema de monitoramento no próprio celular do usuário, o aplicativo passa a ter um universo de dados para recomendações cada vez mais acuradas (pelo menos em tese). O monitoramento, vale ressaltar, já existia antes, mas era feito apenas quando da realização de check-ins, especialmente devido ao alto consumo de bateria que o uso constante de GPS requeriria. Era, pois, extremamente recortado diante do check-in – o qual sempre esteve atrelado aos aspectos de referenciamento identitário e interacional mais amplos e direcionados a públicos e redes de contato. Agora, a verificação da localização passa a ser constante, mas não publicizada, e talvez nem mesmo os usuários saibam quando e onde estão enviado dados para os servidores do serviço.

A nova característica é em grande parte bastante similar à função Radar, como mostra o TechCrunch, mas difere dela à medida em que não necessita mais da ação humana para ser ativada (o Radar do Foursquare estava atrelado à funcionalidade Explore). Além disso, a funcionalidade nova ainda não tem nome e estará disponível paulatinamente apenas para usuários da versão Android. Estaria o Foursquare tentando não chamar tanto a atenção para as questões concernentes à privacidade, por exemplo?

Para além desses termos, ao se colocar como um recurso de potenciais recomendações, o que preocupa com tal novidade, além de certa invasão de dados pessoais, é o possível enclausuramento cada vez maior em redes sígnicas similares. Não parece ser fácil perceber o novo, o diferente, o acaso qualquer se os dados se correlacionam a partir de interações e marcações ocorridas num universo (semi)fechado. Nessa jogada do Foursquare, nossa experiência de mundo parece ir ficando cada vez mais mediada. Como perceber a serendipity nesse contexto? Ou ainda: que nível de alteridade, de diferença e de acaso querem as pessoas ao utilizarem recursos como esse?

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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