Fotos compartilhadas: entre o inofensivo e o ilegal

Assim como na última eleição, nos dias de realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) têm ocorrido um fato interessante, resultado desse processo de exibição de si através das imagens – algo bem peculiar se observamos os ambientes interacionais dos sites de rede sociais. Isto porque as pessoas utilizaram seus smartphones para registrar o momento em que faziam a prova e, no caso da eleição, o momento em que votavam.

Em ambos os casos, a ideia era apenas compartilhar essas imagens para sua rede social, como alegaram as pessoas que sofreram sanções legais pelo ato do registro imagético. Isto ocorreu porque, pela lei, é proibido fotografar qualquer parte da avaliação do Enem e fotografar uma urna eleitoral. No primeiro caso, o argumento para a proibição é para evitar que seja passada a informação para pessoas com interesses escusos, com o objetivo de beneficiar algum aluno que faz também a prova; no segundo caso, para evitar que um político ou correligionário utilize esse artifício como uma prova de que o eleitor votou realmente em um candidato – ferindo assim o voto secreto, uma premissa fundamental da democracia brasileira.

Contudo, diria que essas pessoas, nas duas situações supracitadas, estariam difundindo não com o intuito de denunciar algo, mas simplesmente como uma forma de se expressar para seus contatos dos ambientes das tecnologias digitais, demonstrando uma ação cotidiana que esse usuário-fotógrafo achou interessante compartilhar.

Se observarmos a partir de uma perspectiva histórica, esse é o primeiro momento no qual as pessoas possuem aparelhos dotados da capacidade do registro fotográfico a todo o momento.Perante essa ubiquidade da câmera – presente em diversos dispositivos que portamos continuamente, cotidianamente – estamos diante de um cenário diferente daquilo que pesquisadores da fotografia, de fases anteriores ao processo de digitalização das imagens, se depararam; temos agora um momento no qual as fotografias das nossas câmeras que precisam ser usadas a todo o momento passam a dizer muito sobre nós; e é por isso mesmo que é necessário esse ritmo muitas vezes frenético e incontrolável de imagens compartilhadas dos nossos dias supostamente espetacularizados.

Nesse momento contemporâneo, inúmeras questões surgem para se pensar essa acelerada produção de imagens. Como essa perda da solenidade, característica do ato fotográfico de outrora; isto porque se o uso da câmera estava reservado a ocasiões que tinham algo de especial inerente – uma viagem, um evento, uma ocasião solene -, atualmente temos um aumento exponencial e não delimitado do número de ocasiões consideradas como importantes para o registro. E é justamente nesse ponto que aquilo pensado como inofensivo – mostrar para sua rede social você no primeiro dia de prova – pode causar sanções legais, como a eliminação do candidato que postou essas imagens no Instagram.

Ainda, algumas exigências caíram em desuso, como o de ir a um show sem câmera. É praticamente impossível manter o controle disto em uma pequena casa de espetáculo, quanto mais em um grande evento, daqueles que as pessoas esperam horas para ver o artista de perto – nem sempre tão de perto assim, se pensarmos naqueles shows em estádios. Por essa cultura de compartilhar imagens, que causa uma imensa demanda pela contínua exposição de si, e que vai ocasionar em mais e mais fotos a cada situação diária, temos esse problema de nosso tempo, localizado justamente na pouca preocupação com alguns procedimentos; não só nas eleições e no Enem, mas no caso do teatro – se pensarmos com cuidado, veremos que nada atrapalha mais uma cena do que várias luzes de flashs de câmeras e pessoas levantando os braços na busca dos melhores enquadramentos.

O que fazer? Apenas proibir o uso, assim como tradicionalmente era feito antes dessa explosão dos dispositivos de registro de imagens? Reeducar as pessoas pessoas sobre aquilo passível de ser fotografado? Questões como essas são difíceis de se responder em um breve post. Mas que há algo de diferente nesse processo de fotografar e compartilhar…

Vitor Braga

Jornalista, professor da Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia.

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