FIM DAS CURTIDAS, COMEÇO DE NOVAS INTERAÇÕES

Chegou hoje no Brasil a atualização do Instagram mais comentada – e polêmica – dos últimos meses. No primeiro semestre desse ano a plataforma anunciou que iria iniciar testes retirando as curtidas e visualizações das fotos e vídeos e passando a exibi-las de modo privado apenas para o dono do perfil. O procedimento começou no Canadá desde maio e por meio de nota o Instagram declarou: “não queremos que as pessoas sintam que estão em uma competição dentro do Instagram e nossa expectativa é entender se uma mudança desse tipo poderia ajudar as pessoas a focar menos nas curtidas e mais em contar suas histórias”.

O objetivo segundo a plataforma, portanto, é que as pessoas se engajem mais com o conteúdo em si do que com a aceitação social que ele pode proporcionar. O Instagram já havia tomado outras decisões que segundo a assessoria seriam em prol da saúde mental dos usuários, como uma mensagem que sugere e recomenda tipos de apoio toda vez que um indivíduo busca pelas hashtags #ansiedade ou #depressão. A nova medida – ainda em teste – pretende promover um ambiente mais fértil para conteúdos de qualidade, desestimulando as publicações apenas por disputa de popularidade.

No Twitter, o assunto “E o Instagram” ocupa os assuntos do momento dessa quarta feira. Desde o começo do dia diversas pessoas se manifestaram a favor ou contra as mudanças e comentaram sobre suas perspectivas:

Para os influenciadores digitais a mudança não pareceu tão interessante assim e alguns se mostraram preocupados já que o Instagram era uma plataforma que tinha os números de curtidas e visualizações como importantes balizadores de engajamento, girando a roda de trabalho com marcas e publicidade, por exemplo.

Ainda que haja dúvidas sobre como isso funcionará, outras formas métricas para esse mercado ainda existirão, já que os influenciadores têm acesso a outros dados sobre engajamento dos seus perfis, como a quantidade de impressões. Um dos pontos positivos é que a atualização tende a quebrar o mercado de compra de curtidas que ocorria em perfis que precisavam de maior alcance para a troca de serviços, já que não fará mais sentido nessa nova lógica.

Os usuários também declararam não ter mais que se preocupar em fazer suas postagens visando o crescimento dos números e, por isso, agora podem se expressar de forma “livre”:

Essas reações evidenciam como a lógica da contabilidade das curtidas e visualizações atingiam negativamente uma parcela de pessoas que acabavam utilizando a rede como forma de comparação, gerando sintomas de ansiedade e exclusão. Com a retirada das curtidas muitos usuários comemoraram nos seus perfis, demonstrando uma sensação de alívio por não precisar mais se preocupar com esse tipo de pressão social.

Ainda assim, outras formas que quantificam dados ainda permanecem visíveis, como o número de seguidores, e o próprio conteúdo de alguns perfis não estão imunes de serem propulsores de competitividade e redução da saúde mental. Mas é possível que com a mudança os usuários se dediquem a construir um conteúdo mais relevante, criativo e que tenha um real impacto nas outras pessoas.

Não se sabe ao certo o que esse teste proporcionará no contexto brasileiro, mas o que fica evidente é que novas formas de interação serão privilegiadas no lugar das curtidas, sejam elas as esperadas pela plataforma, com “um maior engajamento no conteúdo” ou outras que ainda não temos como prever. De qualquer forma as mudanças implementadas nessa quarta-feira nos fazem refletir: como é o conteúdo que nós criamos? O quanto ele vai mudar depois de hoje?  

Tainá Almeida

é mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Psicologia da Universidade Federal da Bahia (PPGPSI/UFBA) na linha de Cognição Social e Dinâmicas Interacionais. Graduada em Psicologia com ênfase em Saúde pela mesma instituição. Atuou dois anos como psicóloga clínica em Salvador. Temas de interesse: Interações Sociais Online, Influência Mediada, Influenciadores Digitais, Performance e Comportamento Alimentar.

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