Ficar sem internet serve para alguma coisa?

Npaul_1020_2os últimos dias a notícia sobre o fim do experimento de Paul Miller, jornalista que passou o último ano sem acessar a internet, circulou exaustivamente em sites, blogs e redes sociais. Miller se desconectou em 30 de abril de 2012, justificando que estava se sentindo sufocado pela vida online. Concluída a experiência, um ano depois, ele admite que parte dos problemas que ele atribuía à internet, em realidade, eram problemas pessoais – a exemplo de: procrastinação, baixa produtividade e tendência a isolamento.

Ao longo do experimento, Miller escreveu diversos relatos sobre a vida offline, que incluía escrever, ler jornais e livros impressos, usar mapas de papel e conversar com os amigos pessoalmente. Apesar de interessante, o experimento não deixa de ser bastante ingênuo, visto que abandonar completamente uma tecnologia tão disseminada é algo praticamente impossível para quem vive em uma grande cidade.  Em alguns momentos Miller parece se dar conta de que a internet não se limita a computadores e telefones, como por exemplo nesse trecho do artigo Offline: What is the internet?”, publicado em julho de 2012:

“No  restaurante  provavelmente eu comeria uma comida que foi enviada de um chef para outro através do email, e em seguida, pagaria a conta com cartões de crédito conferidos pela internet. Logo depois tomaria um táxi para casa, cheio de telas embutidas, com informações também obtidas e distribuidas através da internet. Poderia ver um filme nos cinemas que foi entregue em formato digital através da internet. E, então, iria para casa e ouvir a música que comprei no iTunes, ou que foi originado por membros da banda que conheceu no Craigslist”

O experimento chama atenção para os discursos pró-conexão e pró-desconexão. Os primeiros se valem da conclusão de Miller para confirmar que o uso de internet não traz nenhum problema e exaltam as facilidades e vantagens da vida online, tais como: comunicação interpessoal, acesso a informação e estimulo a criatividade. O segundo grupo, por outro lado, patologiza grande parte do comportamento online e reforça suas características negativas – isolamento social, cibercrimes, baixa produtividade, dentre outras. Cabe destacar que subjaz a ambas as concepções a noção de que existe uma separação entre vida online (real) e offline (virtual), sendo uma “vida” mais ou menos valorizada de acordo com a visão de cada grupo.

Ao fim de sua experiência, Miller parece ter superado essa dualidade, já que afirma que apesar de suas expectativas sobre uma vida real promissora esperando por ele “do outro lado do navegador”, o fato de ter conseguindo se desconectar não o tornou mais “real” da forma que ele esperava. Leia AQUI o artigo publicado na integra.

Lisi Barberino

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Produção em Comunicação e Cultura.

More Posts

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.