Facebook goes mobile: 10 anos de likes

The great obsession of the nineteeth century was, as we know, history… The present epoch wil perhaps be above all the epoch of space. We are in the epoch of simultaneity: we are in the epoch of juxtaposition, the epoch of the near and the far, of the side-by-side, of the dispersed (Foucault, Of Other Space)

Em fevereiro desse ano, o Facebook completou 10 anos de existência. Numa era que tem a efemeridade como uma de suas mais contundentes características, uma década de funcionamento é bastante digno de atenção, especialmente se lembrarmos que o Orkut, que já foi o maior site de rede social do Brasil, teve suas atividades encerradas pelo Google e se transformou, no último mês de setembro, numa espécie de memorial das suas comunidades. Enquanto isso, contudo, o Facebook continua a plenos vapores, sendo uma das mais ricas plataformas a receber aportes dos negócios, da política e da ciência.

Merecedor da atenção acadêmica, o marco temporal da rede de Zuckerberg acabou de ganhar uma edição especial do periódico New Media & Society com artigos de vários pesquisadores que, ao longo dos últimos anos, debruçaram-se sobre questões relativas à privacidade, ao capital social, às formas de empoderamento, às articulações e às interações em ambientes online. Além dos artigos científicos, a edição conta com resenhas de livros importantes para o estudo das redes sociais digitais.

Será assim que iremos acessar o Facebook majoritariamente pelos próximos anos?

Será assim que iremos acessar o Facebook majoritariamente pelos próximos anos?

O texto que se segue dá conta de dois artigos específicos: Facebook’s mobile career, de Gerard Goggin, e Places Nearby – Facebook as a location-based social media platform, de Rowan Wilken. Ambos tratam de perspectivas de negócio, das aquisições milionárias e das funcionalidades trazidas à plataforma, buscando traçar os caminhos que a empresa tomou para conseguir ter tanta atenção ao longo da última década. Essas considerações parecem importantes ao lembarmos que, mesmo o Facebook tendo um modelo de negócios relativamente claro – vender publicidade contextualizada e personalizada – alguns dos serviços que a rede de Zuckerberg comprou não mostravam caminhos claros sobre como dariam lucro. O Instagram e o Whatsapp vão por esse caminho: vendidos, respectivamente, por 1 bilhão e 19 bilhões de dólares, ainda é possível que nos perguntemos a troco de que. As estratégias de negócio voltadas aos usos de dispositivos móveis talvez sejam respostas interessantes, e é isso que Wilken e Goggin buscam abordar em seus respectivos artigos.

Em busca da mobilidade: uma década de aquisições milionárias

Dentre os movimentos do Facebook descritos nos dois artigos, destacam-se compras diversas feitas pelo gigante das redes sociais. Wilken, por exemplo, realiza amplo amplo levantamento histórico sobre a incorporação e a utilização de recursos georreferenciais no Facebook, e parte significativa dessa estratégia encontra-se na aquisição de dois serviços com aparentes futuros promissores: Gowalla e Glancee. O primeiro chegou a ser, em certos momentos, um grande rival para o aplicativo Foursquare.

Embora as intenções de funcionamento do Facebook nunca tenham estado totalmente voltadas à informação geográfica nem ao uso da geolocalização como um elemento central nas interações de seus utilizadores (assim como era no Gowalla, por exemplo), Wilken dá apontamentos de que a companhia sempre se esforçou para ampliar sua base de dados, de modo que pudesse prover recursos apropriados para sua utilização mobile. Por “utilização mobile”, devemos compreender o uso do Facebook e das suas funcionalidades em geral (busca, bate-papo, postagens etc.) em dispositivos móveis como celulares e tablets, e não em computadores portáteis como netbooks ou laptops. Desse modo, é notório que a rede social, assim como outros exemplos, esforçou-se em ser mais que um site que se acessa por alguns instantes. O objetivo, pois, do Facebook foi tornar-se um complexo ecossistema midiático no qual devem encontrar-se parte considerável de nossos dados pessoais, fotos, vídeos, conversações, e o acesso móvel à rede incorpora dinâmicas rotineiras. As atribuições georreferenciais, por sua vez, seriam metadados atribuídos a cada um dos elementos que compõem as interações no site. Em outras palavras, uma camada de dados locativos. Mas pra que exatamente?

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A interface do Facebook Places trazendo à tona a ideia de realizar check-in, assim como Foursquare e Gowalla.

A iniciativa pioneira do Facebook na intenção de dar evidência ao lugar e às movimentações se deu com o Places, recurso dentro do site com o qual as pessoas podiam atribuir uma localização às suas postagens – deliberada, vale ressaltar, não automática – o que se parece em muito com a proposta do Gowalla ou do Foursquare (hoje Swarm). Essa parece ser uma fase com a qual a empresa deve ter realizado testes iniciais, buscando compreender como as pessoas ali utilizavam-se desse recurso. É notório, contudo, que a atribuição deliberada da localização é enquadrada e parcial e, portanto, a coleta de dados baseada em crownsourcing acaba por ser limitada. Wilken aponta que as aquisições do Gowalla e do Glancee, juntamente com a compra do Instagram e do Whastapp (que a princípio nunca tiveram um funcionamento locativo, vale lembrar), deram ao Facebook uma base de dados apropriada para que ele viesse a se espraiar como uma ferramenta largamente utilizada no cotidiano de seus usuários, especialmente no que diz respeito à utilização dos dispositivos móveis. Tendo os dados e a estrutura de Gowalla e Glancee como base tecnológica, o Facebook reconstruiu seus recursos de geolocalização, finalizou os recursos do Place em agosto de 2011 e o relançou com outro nome, chamando-o então de Nearby, em dezembro de 2012, dando-lhe dessa vez uma característica seamless: ou seja, enquanto que com o Places seus usuários deveriam falar de seus lugares, atribuindo localizações às suas postagens, o uso do Nearby seria orientado por uma atuação automática do dispositivo móvel em torno das movimentações individuais. As configurações de privacidade também foram reacomodadas diante das novas disponibilidades baseadas na localização, e ainda que permitissem uma seleção e um enquadramento das localizações de cada um, a companhia teria esses dados para análise própria. Fortalecido, assim, em termos de dados e funcionalidades, o Facebook pôde então, com o Nearby, posicionar-se numa perspectiva de recomendação de lugares (como fazem Foursquare e Yelp), além de passar a contar com possibilidade em prover propagandas contextualizadas segundo a localização das pessoas. Além do mais, com maiores massas de utilizadores, o espaço destinado à publicidade vendido pelo Facebook seria valorizado, afinal – o que pode nos mostrar que os altíssimos preços pagos pelo Instagram e pelo Whatsapp talvez não tenham sido tão altos assim.

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O Facebook Nearby, com a intenção de mostrar pessoas ou lugares de interesse pelas proximidades.

Focado no estudo da economia política dos novos meios tanto quanto no estudo das plataformas, Wilken busca apresentar com o presente artigo uma análise crítica das movimentações mercadológicas em torno dos serviços e das empresas adquiridas pelo Facebook, bem como em relação aos planos e interesses dessa companhia específica. Como resultado, obtém-se uma explicação sobre as estratégias voltadas ao uso móvel por parte do Facebook, sem foco específico nas interações efetuadas, nem nas estratégias ou motivações pessoais. Apesar disso, é bastante interessante perceber como e quais funcionalidades são ofertadas ao público na intenção de se coletar grandes quantidades de dados, bem como com o objetivo de prover recursos que possam permear o cotidiano das pessoas de maneira (quase) perene.

Já Goggin, com seu artigo Facebook’s mobile career, não está exatamente interessado nos movimentos mercadológicos que o Facebook fez acontecer, embora essas aquisições já relatadas tenham também sua importância nesses 10 anos de existência. Seu estudo está mais baseado nas reconfigurações que a empresa imprimiu a si mesma enquanto site e plataforma multifuncional que nos dados geográficos atribuídos a elementos dentro da rede.

Goggin nos mostra que, ao longo dos anos, o Facebook adotou primeiramente movimentos de adaptação visual e funcional, de modo tal que fotos, vídeos, conversações e lista de amigos pudessem estar disponíveis tão bem nos dispositivos móveis quanto na interface web. As estratégias adotadas em torno desse objetivo nos levam à compreensão, mais uma vez, da importância do dispositivo móvel para os diversos modelos de negócios – de redes sociais a jornais e revistas. Num segundo momento, contudo, para além do mero uso móvel, o Facebook veio a adotar uma perspectiva locativa (correspondente à contextualização histórica de Wilken), ou seja, responsiva à localização de seus usuários – o que também ressalta o aumento e a complexidade quali-quantitativos do uso de celulares. Dessa forma, o artigo mostra-nos uma confluência de aspectos sociotécnicos que não podem ser vistos separadamente: infraestruturas, tecnologias, possibilidades de uso, práticas culturais e significados construídos pelo público são algumas das dimensões que precisam ser postas em conjunto na observação de um objeto como esse.

Postos lado a lado, os dois estudos mostram o que se passou, em termos de estratégias de mobilidade, com o Facebook ao longo de sua existência, mas de maneira sensata não dizem o que teremos nos próximos 10 anos – se é que o Facebook ainda irá existir em 2024. Contudo, podemos conjecturar algumas possibilidades, especialmente quando observamos dados que indicam crescimento no uso de dispositivos móveis e que já não há muito sentido ao pensarmos em dicotomias como online-offline. É bastante plausível, assim, pensarmos que o plano geral do Facebook é poder “estar” em cada máquina desejada – computador de mesa, celular ou tablet – de maneira completa, mas aproveitando os recursos principais de cada dispositivo. Há, de certa forma, alguma inclinação, affordance ou intenção de uso para coisa, claro, mas há de se reconhecer, igualmente, que elas trazem consigo possibilidades de reapropriação por parte do público. Quanto aos dados locativos/georreferenciais, parece claro que a intenção do Facebook foi adotar uma utilização transversal, de modo que pudesse se estabelecer sem grandes ruídos num campo cujos dados são complexos de serem tratados (não só pela dificuldade técnica, mas também por serem extremamente significativos e relacionados a aspectos privativos de cada um de nós). Particularmente, acredito que as informações georreferenciais e as funções locativas do Facebook venham cada vez mais a assumirem um papel de contextualização, personalização e recomendação de lugares, serviços, caminhos etc., ou seja, uma “individualização” da prática espacial. Essas, contudo, são cenas para serem vistas pelos próximos anos. Aguardemos :)

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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