Etiqueta para o uso de celular

Smartphone cine by getty

Texto por Admari Cajado

As normas de etiqueta sempre estiveram presentes na vida social das pessoas, pelos menos desde que se passou a entender que devíamos seguir normas de conduta quando fazendo parte dessas situações. Dentro desses contextos, a premissa maior é a de não causar constrangimento, desconforto entre os presentes. Ao longo dos anos, as pessoas sentem necessidade de repensar tais normas, incorporando novas questões. Com o advento do celular não foi diferente.

Mas como incorporar uma pessoa “virtual” entre os presentes de forma harmônica, sem criar incômodos ou desconfortos? A pesquisa intitulada Does Personality Affect Peoples’ Attitude Towards Mobile Phone Use in Public Places?[1], organizada por Steve Love e Joanne Kewley (2003) tratou do uso dos telefones móveis em espaços públicos e conflitos de normas sociais.

O estudo tomou como base as seguintes questões: comportamentos apropriados, linguagem não-verbal, “fachadas públicas” e desatenção civil. Como aporte teórico: efeitos das características individuais na percepção sobre uso dos telefones móveis em lugares públicos: estudo sobre relações personalidade-situação (Argyle), “Esquema social” (Fiske), Zonas espaço interpessoal (Hall) – íntima, pessoal, social, pública. O estudo analisou: a) efeitos dos traços da personalidade nas situações de interação mediadas pelo uso dos celulares; b) descrição do processo que explique comportamentos das pessoas em relação ao celular em espaços públicos.

A pesquisa foi realizada com 42 pessoas, através da técnica survey transversal: respostas aos cenários (espaço pessoal); Eysenck’s questionário sobre traços de personalidade (extroversão-introversão, neurótico-calmo, agradável-desagradável). Como resultado, chegou-se a seguinte conclusão: Extroversão tem efeitos limitados. Introvertidos sentem mais desconfortáveis estando perto de alguém fazendo chamadas em um trem, por exemplo; Neuroticismo tem leve relação com fazer chamadas no trem, desconforto e receio de expor assuntos privados; Psicotismo: agradável-desagradável e suas relações com o conforto – desconforto nas situações descritas de uso do celular.

Apesar do tempo de realização desta pesquisa, percebemos que há um consenso entre as pessoas ditas “expertises” em normas de etiqueta, o celular só deve ser utilizado em espaços públicos e quando acompanhado em casos de extrema urgência e com o consentimento dos presentes, evitando os desconfortos de ignorar os presentes ou ter que expor alguma situação particular. Ainda reforçam o bom senso de quem está do outro lado da linha, que deve sempre perguntar se a pessoa pode atendê-la.

Tais normas, atualmente, encontram-se distribuídas em três situações: espaços de convivência sociais informais (festas, reuniões familiares, namoro, conversas entre amigos e/ou familiares); espaços de convivência coletiva (pontos de ônibus, metrô, shoppings, cinema, teatro, etc) e ambientes de trabalho. Entretanto, cabe reflexão sobre como as pessoas analisam esses “desconfortos” ainda hoje, uma vez que os celulares deixam de ser meros acessórios nas mãos das pessoas.

[1] LING, Rich. PEDERSEN, Per E. (Eds). Mobile Communications Re-negotiation of the Social Sphere. Springer-Verlag; London, 2005.

Karla Cerqueira

é mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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One Comment
  1. Infelizmente o celular mudou o comportamento social. As pessoas estão cada vez mais conectadas e às vezes não percebem a inconveniência de se usar o celular em situações que muitas vezes causa constrangimento no grupo no qual está inserida. Conversar com uma pessoa que aos invés de está interagindo com você, fica grudado na telinha do celular é no mínimo um incômodo.

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