Espectros da privacidade

Seguindo as reflexões anteriores, continuamos inquietos com a discussão sobre a questão da privacidade nos ambientes digitais e suas possíveis reconfigurações na atualidade. Como parte da pesquisa de doutorado em curso, tento refletir sobre como a exposição de si e o intenso compartilhamento de informações pessoais nas redes digitais indicam uma nova configuração do que consideramos privado, o que parece indicar mudanças também nas formas de percepção de si. Neste post gostaria de compartilhar uma ideia embrionária, sugerindo que pode ser útil visualizar a privacidade como espectro, avançando nas críticas em relação às abordagens centradas nas camadas de penetração que consideram o indivíduo como unidade nuclear de referência. Acompanhando alguns autores contemporâneos e retomando pensadores do início do século XX como William James e G. H. Mead, acreditamos que ao invés de pensar a privacidade apenas como um direito (e uma propriedade) individual, poderíamos pensar na privacidade como aspecto fundamentalmente relacional e que exige sempre uma negociação coletiva sobre as diferentes formas de emissão, transmissão, captura, registro e usos do que consideramos as informações privadas. Ao invés de pensar em camadas de privacidade supondo uma linearidade entre o interior-exterior, parece útil agregar a metáfora do espectro às discussões atuais que já consideram a fluidez dos contextos digitais e o caráter coletivo das negociações sobre os limites entre público e privado. Tentarei aqui apontar alguns elementos que inspiraram esta discussão, mas de maneira livre, superficial e absolutamente insipiente.

Em diversas ocasiões retomamos as reflexões de Danah Boyd sobre a importância de observarmos a questão da privacidade a partir dos contextos, evitando o reducionismos da polaridade público x privado como dois estados “puros” a partir dos quais poderíamos posicionar nossas ações e informações. Quando consideramos o caráter fluído dos ambientes digitais e a dinâmica em rede, realmente faz sentido termos maior cautela antes de taxar um comportamento ou informação apenas a partir deste binômio.

Quando aproximamos este debate de algumas discussões teóricas na psicologia, especificamente no campo da psicologia social, ainda é muito forte a noção de privacidade associada à interioridade, às áreas mais íntimas do indivíduo. Um exemplo marcante desta abordagem centrada no indivíduo é a conhecida Teoria da Penetração Social desenvolvida por Altman & Taylor no contexto norte-americano dos anos 70. Baseados em grande parte na noção de campo e de estrutura da personalidade como proposto por Lewin, os autores focaram o debate sobre privacidade – exposição utilizando a conhecida metáfora da cebola. Considerando que nossa personalidade é composta por camadas, propõem que as exposições de informações e as etapas de desenvolvimento dos relacionamentos interpessoais seguem gradativamente de uma região periférica (pública) a uma região mais íntima e central (privada). Uma simplificação da proposta pode ser visualizada na metáfora da cebola:
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Na Teoria da Penetração Social (Altman & Taylor, 1973) a questão das revelações e exposições de si partem desta concepção de que há regiões mais centrais e sensíveis da personalidade, e que os relacionamentos interpessoais se desenvolvem gradativamente, ampliando a diversidade de temas, bem como a profundidade dos compartilhamentos.  Antes da proposta debatida por Altman e Taylor, já havia uma significativa reflexão sobre exposição de si na psicologia social, notadamente nos trabalhos seminais de Jourard e Derlega, tratando da noção de self-disclosure e da importância dos compartilhamentos de informações privadas para os relacionamentos, bem como para a saúde. O que nos interessa aqui é apenas destacar como ainda é forte esta percepção da privacidade associada a uma dimensão espacial e linear que pressupõem um dentro e um fora num contínuo (representado pela circunferência). Não apenas na literatura mais recente desta vertente da psicologia social, mas também no senso comum, falamos com frequência de um eu verdadeiro, um eu central, um eu profundo e etc.

Um conjunto de discursos sobre a interioridade é produzido a partir de uma delimitação espacial, linear, com camadas sucessivas a partir de um suposto “núcleo” do eu (localizado seja no cérebro, no coração ou outras partes, mas sempre “dentro do corpo” e certamente “embaixo da pele”) até o espaço público de relacionamento com estranhos, o que representaria a camada mais externa e superficial deste eu, na extremidade da pele. Em algumas reflexões teóricas sobre a comunicação não verbal e sobre o espaço, teóricos como E. T. Hall (1966) chegaram a propor certas medidas precisas (em centímetros) para delimitar  os espaços íntimos e as variações nos graus de proximidade entre os indivíduos. Esta abordagem é apenas um das dezenas de outras possibilidades de interpretação e com limites epistemológicos que não pretendemos debater aqui. Estas proposições são muito mais complexas do que acabamos de apontar, de forma bem simplista e parcial, mas queremos apenas destacar o quanto muitos debates sobre a privacidade ainda gravitam em torno desta perspectiva que o sociólogo francês Antonio Cassili (2014) chama de “privacidade como penetração”.

Cassili destaca o quanto as preocupações com a privacidade são proporcionais a intensidade da vida pública em cada contexto sócio-histórico. Conforme a ampliação das possibilidades de participação pública, a questão do manejo dos limites da privacidade são imediatamente transformados. Se historicamente a preocupação com a vida privada era privilégio dos poucos com direito a uma vida pública reconhecida, as tecnologias digitais permitem ampliar a participação de indivíduos até então excluídos da cena pública como mulheres, crianças, adolescentes e os menos favorecidos economicamente. Nos ambientes digitais, uma diversidade de grupos sociais têm a possibilidade de participar de uma dimensão da vida pública que há poucas décadas era privilégio de uma elite bastante restrita. Certamente este tipo de afirmação exige um olhar histórico e mais  complexo sobre as noções de espaço público e de participação, mas para esta nossa reflexão destacamos a importância de questionar a perspectiva da privacidade a partir da ideia de penetração, ilustrada pela metáfora da cebola.

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Uma das possibilidades de questionamento desta perspectiva já vem sendo feita no próprio contexto da psicologia social, especificamente nos debates sobre o self-disclosure (exposição de si), desindividualizando os debates sobre privacidade e considerando que é indispensável atentar para as diferentes formas de negociação da privacidade nas interações. Um exemplo interessante e didático desta abordagem é a reflexão de Sandra Petronio (2002) com sua Teoria do Gerenciamento Comunicacional da Privacidade. Petronio parte do princípio de que privacidade e exposição estabelecem um relação dialética a partir da qual podemos compreender a privacidade, supondo que a privacidade é sempre relacional e não centrada no indivíduo (questionando inclusive o termo self-disclosure para usar apenas “disclosure”). As informações privadas e os limites das exposições são negociados coletivamente, bem como as informações privadas não são exclusivamente sobre si, nem propriedade individual.

No quadro da sua teoria Petronio nos convida a focar nas regras a partir das quais negociamos e estabelecemos os limites dos compartilhamentos das informações privadas (sobre si mas também sobre os grupos aos quais pertencemos). Sempre que um indivíduo expõem uma informação privada, a propriedade desta informação passa a ser compartilhada com os destinatários, criando uma dinâmica de co-propriedade que não pode ser reduzida ao controle individual, assim como o conteúdo considerado privado também diz respeito aos outros e aos grupos. De certa forma, Cassili nos convida a uma reflexão semelhante quando aponta para a necessidade de ultrapassar o paradigma personalista da privacidade como penetração para pensarmos em uma barganha coletiva, uma negociação da privacidade envolvendo não apenas diferentes sujeitos mas também instituições. Para Cassili, a noção de privacidade e de exposição precisa ser definida coletivamente, não como uma negociação apenas comercial, mas como uma negociação social que deve integrar as diferentes motivações sociais e individuais, integrando os contextos de cada ator.

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Concordando com as reflexões de Petronio e Cassili sobre a importância das negociações coletivas daquilo que consideramos informações privadas, podemos pensar a questão da privacidade não mais exclusivamente centrada no indivíduo. Com as reflexões sobre a singularidade dos ambientes digitais ilustrada na proposta do networked publics (Boyd, 2011)), podemos perceber que os contextos de interação em rede não são mais tão lineares quanto aqueles possíveis em interações face-a-face. Dificilmente conseguiríamos delimitar, como o faz Hall para as relações face-a-face (com a interessante proposta da proxemia), distâncias precisas para definir os espaços íntimos nas relações sociais em redes digitais. Quando observamos adolescentes trocando conteúdos íntimos com diferentes pares em diferentes plataformas, há indícios de uma organização mais fluída dos contextos de relacionamento e uma nova relação com os espaços. O compartilhamento difuso de informações privadas em diferentes dispositivos, com diferentes destinatários e co-proprietários,  ilustra um tipo de interação que ocorre em contextos pontuais criados a partir das conexões.

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Além da crítica à individualização da questão da privacidade, parece relevante agregar as provocações sobre o antropocentrismo que ignora a agência dos objetos nas interações. Muito antes das redes digitais podemos considerar que aquilo que consideramos mais precisamente humano é um híbrido fruto das combinações e das relações que estabelecemos com os objetos e com outros humanos. A ampla discussão sobre agência na perspectiva da ontologia plana como proposta Latour (2005) oferece provocações bem interessantes. Neste caminho, o que chamamos de self não seria o “eu supremo” da agência, mas talvez apenas um dos seus condutores, um mediador dentre incontáveis outros elementos que compõem o simples ato de exposição, de compartilhamento, ou outro ato qualquer. Por mais individual que possam parecer o próprio self e suas ações, podemos dizer que são eles também divisíveis e descritíveis quando concordamos com a heterogeneidade de coisas, objetos e seres que agem e que nos fazem agir na mais comum das práticas ditas “individuais”. Sem poder explorar estas relações aqui, mas tomando a liberdade de mencioná-las, acreditamos que há uma razoável sintonia destas provocações com algumas das reflexões que estão nas bases da psicologia social moderna, especialmente no pensamento de George Hebert Mead sobre a relação indivíduo-sociedade e de William James sobre o fluxo da consciência e o caráter empírico do self. James, por exemplo, destaca que que um dos componentes do self seria o self material, empírico, sendo indevido tratar do self sem considerar as coisas que possuímos e que nos possuem de alguma maneira. O self apresenta-se neste caso muito mais como uma rede complexa e híbrida de apropriação das combinações de coisas, pessoas, memórias e pensamentos que possuímos, a partir do momento em que somos possuídos por elas. Para James, a linha que separa o que consideramos nós mesmos e aquilo que consideramos nosso é muito sútil.
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Neste sentido é que pensar a privacidade como espectro pode ser uma alternativa para agregar estas diferentes perspectivas de debate. O progressivo advento da chamada Internet das Coisas e o uso dos recursos digitais para o registro amplo e minucioso de informações sobre os exercícios, sobre a saúde, sobre a alimentação, sobre as práticas sexuais, sobre as interações com os amigos, sobre a produtividade no trabalho, sobre as compras, sobre a mobilidade, bem como sobre as opiniões e pensamentos, são evidências que nos fazem repensar a relação interioridade / exterioridade, eu-outro, e retomar o inesgotável debate público-privado. Considerando que nas nossas relações emitimos involuntariamente informações (com as linguagens não-verbais, posições usos do espaço) e transmitimos voluntariamente outro conjunto de informações, podemos considerar que nosso espectro de informações privadas atualmente é bastante amplo e este espectro é recebido, refletido e registrado por diferentes tipos de mediadores: outras pessoas, objetos e organizações. Muito antes da Internet podemos pensar nesta metáfora do espectro. Uma carta, uma conversa, um pensamento, uma obra de arte poderiam ser considerados exemplos de registro e de reflexo dos aspectos de si que emitimos e transmitimos. Um pensamento não expresso, por exemplo, seria um espectro limitado que não seria captado para além da memória do próprio indivíduo, mas só seria possível usando reflexivamente a linguagem que é fundamentalmente social  e mediada.  sendo possível. Uma carta seria um registro no qual alguns feixes do espectro de si são registrados e perenizados, materializados com a mediação de objetos e tecnologias como a caneta, o papel e a escrita. A metáfora do espectro aqui não para pensar o indivíduo como um ponto central, mas como combinação dos reflexos dos espectros dos outros indivíduos e dos objetos que nos constituem. Usando esta metáfora poderíamos representar os sujeitos como a combinação dos espectros de si como convergência e agregação do que é refletido pelos seus pares e pelos objetos que compõem seus contextos interacionais.

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Nos ambientes digitais temos um conjunto de informações pessoais que de certa forma emitimos simplesmente ao ligar os equipamentos ou ao portá-los em nossos deslocamentos. A metáfora do espectro não como algo unilateral, mas como dinâmica na qual emitimos e transmitimos, assim como refletimos e filtramos os feixes dos outros com os quais nos relacionamos. Assim como o que emitimos e transmitimos é filtrado e refletido pelos objetos que mediam nossas relações e que nos constituem, refletimos e filtramos o que captamos nas diferentes interações. A singularidade dos indivíduos estaria aqui muito mais relacionada à infinidade de combinações possíveis das cores do que em uma essência, um núcleo que agregaria sua privacidade e a partir do qual gerenciaria a dosagem de exposição aos outros.

Reconhecendo a abstração e precariedade desta já longa reflexão, pretendemos amadurecer a  discussão e levantar questões mais precisas sobre a pertinência desta metáfora. Como localizar a privacidade quando nossos comportamentos e as nossas informações pessoais estão registradas em diferentes objetos e em diferentes redes sócio-técnicas difusas? Como esta metáfora do espectro poderia  ajudar a pensar as polêmicas sobre a gestão dos dados pessoais no âmbito do Big Data? Como pensar na gestão dos dados pessoais quando são compartilhados com diferentes grupos e em diferentes contextos, sendo co-propriedade de empresas que registram inclusive os dados e meta-dados emitidos pelos usuários (que muitas vezes nem tem consciência da existência deste espectro)? Além do que transmitimos sobre nós mesmos, cada vez mais o que emitimos está sendo registrado e compartilhado com objetos? Como relacionar esta dinâmica de espetros com a ideia de fluxo da consciência comentado por William James?
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Altman, I, Taylor, D. A. (1973). Social Penetration:The Development of Interpersonal
Relationships.  New York: Holt, Rinehart, and Winston.

boyd, D, Marwick, A. (2011). Social Privacy in Networked Publics: Teens’ Attitudes,
Practices, and Strategies. Paper presented at the Oxford Internet Institute Decade in Internet
Time Symposium, September 22 .

Derlega V, Chaikin A. L. (1977) Privacy and self-disclosure in social relationships. Journal of
Social Issues, Vol. 33(3):102–115.

Hall, E. T. (1966). The hidden dimension. New York: Doubleday.

James, W. (1983). The Principles of Psychology. Cambridge: Harvard University.

Jourard, S. (1971). Self-disclosure: an experimental analysis of the transparent self. London:
Wiley Inter Science.

Latour, B. (2005). Reassembling the Social: An Introduction to Actor-Network-Theory.
New York: Oxford University.

Mead, G. H. (1972). Mind, Self, And Society: From The Standpoint Of a Social Behaviorist. Chicago: The University of Chicago Press.

Petronio, S. (2002). Boundaries of privacy: dialectics of disclosure. , Albany: State University of
New York Press.

Rodrigo Nejm

É psicólogo pela Universidade Estadual Paulista UNESP/Assis-SP, doutorando em psicologia social no Programa de Pós Graduação da UFBA e mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pelo CIAGS/UFBA. Realizou intercâmbio acadêmico na graduação para estudar “Médiation Culturelle et Communication” na Université Charles de Gaulle Lille 3, França. Atualmente é psicólogo e diretor de educação na ONG Safernet Brasil, responsável pela criação de materiais pedagógicos, pesquisas e campanhas educativas sobre Direitos Humanos e governança da Internet no Brasil. Tem interesse de pesquisa nas interfaces da psicologia com a comunicação, privacidade e sociabilidade de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.

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