Entre o Privado e o Apropriado

O compartilhamento de informações pessoais nos ambientes digitais tem gerado muitos debates sobre as mudanças na noção de privacidade e suas implicações para nossa compreensão dos contextos nos quais interagimos. Apesar de ser muito comum colocarmos privado e público como extremos opostos, sabemos que nas interações cotidianas não conseguiremos nunca encontrar estes polos de forma absoluta. Apesar de nas práticas interacionais lidarmos com um espectro bem vasto de posicionamentos e de graus de visibilidade, temos ainda muito apego aos limites físicos para delimitar nossa compreensão sobre as noções de público e privado. Reconhecendo que ambas são construções sócio-históricas e que se transformam assim como nos transformamos nos diferentes contextos, tendemos a considerar público aquilo que ocorre em ambientes abertos, acessíveis para muitas pessoas e sem instrumentos para limitar seu registro e disseminação.

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Geralmente a privacidade é associada justamente à capacidade de limitar este registro, disseminação e uso de informações ou de práticas. Associamos a noção de privacidade a esta capacidade de controlar o acesso e evitar a publicização, daí a corrente associação aos limites físicos que permitem um certo isolamento e separação dos diferentes contextos de interação. No âmbito das chamadas interações face-a-face, as paredes das casas, as portas, os biombos, os cômodos, as cortinas e mesmo as roupas são artifícios utilizados para manejar o grau de exposição das ações e informações cotidianas. Nas interações medias, mesmo antes das tecnologias digitais, diversos artifícios também foram utilizados para restringir o acesso aos conteúdos das interações, sejam os envelopes e lacres das cartas, os fones de ouvido. Porém, com a ubiquidade das novas tecnologias e com a interposição dos diferentes contextos interacionais, cada mais fica evidente que nem sempre os limites físicos são suficientes para delimitar o contexto das interações como públicos ou privados. Muito além, a complexidade dos contextos de interação nos ambientes digitais têm provocado uma diluição nas imaginadas fronteiras entre o que consideramos público e privado. Mais interessante do que buscar encontrar as novas regiões fronteiriças ou os novos artefatos que permitem a divisão destes dois extremos, talvez seja mais urgente questionar justamente esta polarização imaginada, duvidar da existência do binário público x privado.

No post “What Is Public?” Anil Dash nos convida a esta polêmica reflexão, chamando a atenção para o fato de que a noção de público não é apenas o que pode ser visto pelos outros, mas uma frágil convenção sobre os comportamentos aceitáveis e apropriados. Atualmente há fortes interessados em reduzir a complexidade do público, alimentando a compreensão binário público x privado, a exemplo da industria da mídia e de tecnologia. No âmbito das políticas públicas, os debates ocorrem na tentativa de equilibrar os interesses da indústria com outros interesses, bem como de atualizar as compreensões legais sobre as dimensões do público e do privado na atualidade. Questionando frases de impacto como “Não publique nas mídias sociais nada que não queira ver na primeira página dos jornais”, Anil nos desafia a pensar se o mesmo poderia ser dito de uma carta lacrada. Apenas porque há tecnologias para ler a carta sem abri-la poderíamos lê-la? A questão nos parece importante justamente por destacar a necessidade de avaliar as consequências éticas e morais dos novos comportamentos que adotamos com a apropriação das tecnologias. Neste exemplo, precisamos avaliar as consequências de usar uma informação “disponível” e torná-la amplamente acessível. Quais usos são aceitáveis para as informações disponibilizadas publicamente? Se concordamos que a noção de público existe em função de convenções sobre comportamentos apropriados, parece que estamos mudando as nossas percepções sobre o que é apropriado em termos de usos das informações e em termos de delimitação dos contextos de interação.

Acompanhando estas reflexões de Anil, Danah Boyd fez também um post, “What’s privacy”, para recuperar algumas de suas observações sobre a noção de privacidade. Boyd aponta que associar a noção de privacidade ao binário publico x privado é um desserviço para ambos os conceitos. Para ela a noção de privacidade é também uma convenção social, mas não um estado particular de um conjunto de dados. É uma prática e um processo de negociação no esforço para ter alguma agência nas situações sociais. Nesta abordagem, a sensação de privacidade está relacionada à compreensão do contexto e à nossa capacidade de controlar a situação social. Isso exige um esforço para lidar com o poder em cada uma das situações sociais, exige não apenas recursos técnicos, mas sobretudo sociais. Para Boyd, a privacidade não estaria em um contínuo com a noção de público, mas as duas noções estariam sempre entrelaçadas, uma mudando e influenciando a outra.

Concordando com o fato de que estas noções são convenções, estamos de acordo que ambas são fruto de processos de negociação de limites, de manejo de acordos mútuos sobre os comportamentos que são apropriados num dado contexto. Recuperando as noções de Goffman, podemos considerar que estes acordos são vitais para as interações, permitindo aos atores um posicionamento, uma linha de atuação que permita o início e o fim das interações. Com as reconfigurações dos contextos e com a diluição das fronteiras (antes fisicamente delimitadas) do que podemos chamar de situação social nos ambientes digitais, podemos pensar que estes acordos mútuos estão sendo reajustados. Como apontado por Boyd em um exemplo sobre as percepções de adolescentes norte-americanos, o fato de querer estar “em” público não significa o mesmo que querer “ser” público. Boyd aponta diferentes outros exemplos que indicam novas estratégias utilizadas por adolescentes para conquistar mais privacidade nos ambientes digitais não como forma de “fugir” do público, mas como estratégia para poder ter maior controle sobre as situações sociais nas quais interage, mesmo que em ambientes públicos como a Internet. Nestes exemplos de Boyd, podemos questionar: até que ponto estes adolescentes estão mudando as convenções sobre o que (e com quem) é apropriado compartilhar ou apenas criando novas estratégias para continuar seguindo as convenções, com suas desigualdades de poder em relação às idades, gêneros, classe social etc.
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Exemplos como os sites pornográficos Cam4 e a banalização do compartilhamento de fotos e vídeos sexuais entre adolescentes talvez permitam visualizar maior abalo nas convenções dos comportamento apropriados que amparam as noções de público e privado. Se historicamente a própria ideia de privacidade está relacionada ao controle dos corpos e dos prazeres, quando as práticas sexuais passam a se desenvolver a partir dos ambientes públicos poderíamos desconfiar de mudanças em algumas convenções. Ao mesmo tempo, podemos indagar o quanto estas práticas sexuais publicizadas são também são performances, interações ritualizadas e que seguem scripits convencionados no cinema, na literatura e na própria Internet. Talvez tenhamos mais segurança em dizer que ao menos a convenção sobre os contextos ditos apropriados para as práticas sexuais efetivamente está mudando, o que não significa obrigatoriamente que estejam deixando de seguir convenções e acordos. Outro exemplo que pode apontar para reconfigurações nas convenções é a explosão de serviços com oferta de diferentes ferramentas para o gerenciamento das impressões nos ambientes digitais. De orientações sobre tipos de fotos, tipos de frases, comentários e mesmo de opiniões ou objetos a serem comprados, estes serviços tem sido amplamente utilizados sem obrigatoriamente gerar desconfiança ou reprovação nas interações. Ao menos em alguns contextos interacionais, o uso destes serviços não se apresenta como inapropriado e ilegítimo para os atores em interação. A espontaneidade no uso destes recursos coloca em questão a própria convenção sobre a espontaneidade e a autenticidade, noções tão questionadas ao mesmo tempo que exigidas em muitas situações sociais.
Neste cenário de apologia às mudanças provocadas pelas tecnologias digitais, nos parece ao mesmo tempo muito difícil e importante pensar o quanto estamos apenas atualizando ou reconfigurando nossas convenções sobre as noções de público e privado, não apenas teoricamente, mas como referências para nossas interações cotidianas. Estas noções ainda estão relacionadas à escalas de visibilidade e de compartilhamentos “quantificáveis”? Ou estariam agora mais associadas ao processo de negociação sobre o controle das situações sociais, pontualizadas, ajustadas não em termos de escalas, mas atualizadas ponto a ponto, montadas e desmontadas de acordo com os atores e os contextos específicos nos quais se dão as interações?

Rodrigo Nejm

É psicólogo pela Universidade Estadual Paulista UNESP/Assis-SP, doutorando em psicologia social no Programa de Pós Graduação da UFBA e mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pelo CIAGS/UFBA. Realizou intercâmbio acadêmico na graduação para estudar “Médiation Culturelle et Communication” na Université Charles de Gaulle Lille 3, França. Atualmente é psicólogo e diretor de educação na ONG Safernet Brasil, responsável pela criação de materiais pedagógicos, pesquisas e campanhas educativas sobre Direitos Humanos e governança da Internet no Brasil. Tem interesse de pesquisa nas interfaces da psicologia com a comunicação, privacidade e sociabilidade de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.

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