Entre guardar e compartilhar: a fotografias e seus apelos

Ao estudar sobre o papel da fotografia digital na contemporaneidade, no que tange aos processos de subjetivação do sujeito, venho tentando trazer argumentos que possam compreender melhor as imagens que assumiram a função principal a exposição do eu, relegando assim a função de guardar, arquivar e se transmutar em uma lembrança duradoura do indivíduo para um segundo plano.

Estamos falando aqui dos retratos que tanto fazem sentido nas interações em sites de redes sociais e nos aplicativos, ambos ego-centrados. Não por acaso, selfie virou quase uma orientação primeira nas poses o no modo de se ver e ser visto pelos usuários dessas redes. Nesse post, apresento como essa função foi também sendo absorvida no próprio apelo comercial das campanhas. Tomo o exemplo da Kodak pois se trata de uma empresa existente desde o final do século XIX e foi uma das responsáveis pelo retrato ser esse artefato cultural.

No momento em que as pessoas passaram a dominar o equipamento e ter acesso em larga escala, as campanhas publicitárias deixaram de explicar os produtos oferecidos – em anúncios quase didáticos – e enfatizariam a possibilidade de guardar as boas lembranças das famílias, um valor importante na produção da memória coletiva dos indivíduos. Como pode ser percebido no anúncio abaixo.

Propaganda da Kodak nos Estados Unidos, de 1952. Fonte: George Eastman Legacy Collection, George Eastman House.

Propaganda da Kodak nos Estados Unidos, de 1952. Fonte: George Eastman Legacy Collection, George Eastman House.

Mais do que facilitar e garantir o acesso, a questão que se colocava para a Kodak era como a fotografia poderia passar a ser um produto que despertasse o interesse das pessoas em captar os momentos cotidianos e posteriormente compartilhar, através de diversos meios – álbuns, correspondências, reuniões –, para uma rede social que, por conseguinte, teria o interesse por essas imagens.

É importante perceber o modo como a Kodak ajudaria a inventar lugares e tempos (praia, campo, passeio, fim de semana, férias) propícios a serem fotografados, primeiramente na criação do personagem “fotógrafo” e depois com o forte apelo da memória. A ligação da fotografia com a memória se dá num primeiro momento condicionada aquilo que você pode perder se não “registrar”, e depois, gerando a possibilidade de criar roteiros para a vida, principalmente com o aumento no número de suportes como álbuns e carroséis de slides nos anos 1960. Férias sem uma Kodak seriam praticamente perdidas, como se poderia inferir nos anúncios, a exemplo do apresentado abaixo.

Propaganda da Kodak nos Estados Unidos, de 1958. Fonte: George Eastman Legacy Collection. George Eastman House.

Propaganda da Kodak nos Estados Unidos, de 1958. Fonte: George Eastman Legacy Collection. George Eastman House.

Como pode ser lido no anúncio, as frases de mais destaque são: “Hey! Nós quase esquecemos a coisa mais importante!” e “Lembre-se de lembrar da sua câmera neste fim de semana.” (traduções livres). Os dizeres, junto com as duas imagens, demonstrariam uma relação do ato de viajar e conhecer os lugares em família com a “necessidade” de se levar um objeto considerado fundamental – o “mais importante”, sendo nesse caso a câmera fotográfica.

As próprias relações de mobilidade e ubiquidade e a possibilidade de “nunca se perder um momento”, como propagado pela Kodak em suas câmeras analógicas, permaneceriam como formas de anunciar os produtos nos dias atuais, porém com uma abordagem diferenciada – face a uma memória que poderia estar se modificando pelos processos de compartilhamento amplificados.

Se tomarmos como exemplo a própria lógica de promoção da indústria fotográfica contemporânea, veremos como a própria Kodak alterou sua linha argumentativa de modo a enfatizar a capacidade de suas câmeras em facilmente compartilhar – como na divulgação da funcionalidade chamada easy sharing, na qual seria possível enviar as imagens por e-mail ou postar em alguma rede social na internet.

Anúncio da Kodak de 2012, dando destaque a função de compartilhar de suas câmeras.

Anúncio recente da Kodak, dando destaque a função de compartilhar de suas câmeras.

Além de enfatizar a capacidade de compartilhar, e não de registrar momentos importantes para os sujeitos, a própria imagem do anúncio passa a enfatizar um indivíduo portando a sua câmera e produzindo o seu autorretrato (selfie) – como se vê na tela da câmera digital de Rihanna. O público-alvo não estaria mais direcionado ao indivíduo em família, carregando o objeto nos momentos importantes para se fotografar – como pode ser visto nos dois primeiros anúncios.

Considerando esses anúncios, procuramos trazer nesse post elementos para se refletir como a ampliação do acesso às tecnologias digitais – que agora passariam a ter um uso individual e estariam continuamente disponíveis aos usuários dessas redes sociais na internet – seria possível perceber um senso de comunidade e compartilhamento a partir da imagem, proporcionando uma grande demanda pela exposição de si, que pede por mais selfies e menos registros para a posteridade.

Vitor Braga

Jornalista, professor da Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia.

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