Dos nicknames às identidades reais: algumas controvérsias em torno da identidade em ambientes digitais

Essa semana, durante o último encontro do grupo e motivados pela leitura do livro It’s Complicated, da pesquisadora norte americana Danah Boyd, voltamos a algumas questões relacionadas à construção e manutenção de identidades nos ambientes digitais. Um dos pontos mencionados foi como a emergência de sites de redes sociais, tais como Facebook, coincidem ou representam de forma contundente uma mudança de expectativas em torno da performance de identidades online.

Se em um primeiro momento dos usos e pesquisas em internet, os ambientes digitais eram compreendidos pela possibilidade de experimentação, auto-reflexão e expansão de si (O’Brien, 1999, Stone, 1995; Turkle, 1995); atualmente tal discurso parece ter cedido espaço há outro menos otimista, embasado em narrativas de perigo e falseamento. Não por acaso (ainda que não exclusivamente) passamos dos sistemas de relacionamento online baseados em interações textuais, para a hegemonia dos sites de redes sociais. Enquanto os primeiros sistemas previam práticas sociais pautadas pelo anonimato, usos de nicknames e contatos com desconhecidos, os segundos apresentam como padrão a interação com conhecidos ou pessoas que tenhamos o máximo de informação possível.

Tais sites, ao fornecerem um conjunto predeterminado de categorias para a construção de identidades – incluindo como condições mais importantes o nome, idade e fotografia – exigem a coerência do alinhamento entre a “identidade real” e a “identidade online” de seus usuários. Ou seja, prevêem uma identidade fixa e homogênea que deve ser exercida nos espaços de sociabilidade da rede, inclusive tornando-se condição para a permanência do usuário nessa. Esse ideal de identidade e almejado pelos sites de redes sociais se torna um problema quando compreendemos a identidade contemporânea a partir de sua multiplicidade, contradição e processo.

Um caso noticiado nos últimos dias ilustra como essa questão é mais complexa do que pode parecer. O Facebook, ao excluir uma série de perfis de drag queens e transexuais sob o argumento de que os nomes cadastrados na rede não correspondiam aos nomes de batismo, reacendeu mais uma vez o debate sobre sua “política de nomes reais”.  De acordo com a política de uso do site, todos os usuários devem utilizar o nome verdadeiro conforme registrado em um documento válido,  sob a pena de o usuário desobediente ter seu perfil excluído da rede. Ameaça que acabou se concretizando no caso das drags e trans e que gerou um sentimento de revolta.

No depoimento cedido para o portal ig, Rita Von Hunty (uma da vítimas) afirma que chegou a trocar o sobrenome “artístico” pelo “real” quando recebeu uma notificação do Facebook, mas que mesmo assim seu perfil acabou sendo excluído. Ela argumenta:

o Facebook é fundamental para as drags. Nosso trabalho depende do contato com nossos amigos e admiradores. Somos uma geração de artistas que se vale da plataforma digital para encontrar pessoas que bebem das mesmas referências.

No caso de Rita, o Facebook sugeriu que por se tratar de um perfil artístico ela deveria migrar sua conta pessoal para uma fanpage (página de fãs destinadas a empresas, artistas ou marcas). No entanto essa proposta, ao prever uma clara separaração entre a identidade real e a identidade profissional de Rita não resolve a questão. Como demonstra o depoimento da estudante de psicologia  Ledah Martins El Hireche:

acordei um dia com um amigo me ligando, querendo saber o que havia acontecido com meu perfil que tinha desaparecido. Quando tentei fazer login, recebi a mensagem que meu nome era falso e que eu teria que alterar para o verdadeiro. Se eu for forçada a utilizar o nome do RG, como vi acontecer com algumas amigas,  eu abandono o Facebook. Isso fere a luta de uma vida inteira para ser respeitada como sou”.

No Brasil, há morosidade nos processos de alteração dos nomes de registro por transexuais, com longas batalhas judiciais e muita burocracia. Por isso, impedir quem as pessoas utilizem nicknames, nomes sociais ou nomes artísticos em seus perfis pessoais podem ter efeitos bastante perversos, como por exemplo,  a discriminação e a exclusão de grupos minoritários. O pânico moral construído em torno do mito de segurança baseado nas “identidades reais” tem tornado alguns ambientes digitais bastante conservadores no que diz respeito a expansão e experimentações de si. Exatamente o oposto do que previam os primeiros estudiosos da área.

Obviamente a internet e seus múltiplos espaços não são homogêneos e ainda há espaço para outras possibilidades de ser. No entanto, não deixa de ser inquietante quando o site de rede social mais utilizado no mundo defende posturas tão conservadoras sobre o tema. Se enquadrar no modelo identitário esperado pelo Facebook pode não ser uma tarefa tão simples e tal questão é permeada por contradições e disputas de poder, visibilidade e liberdades individuais.

Confira matéria do ig: http://bit.ly/1jTyHop

 

Lisi Barberino

É mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Produção em Comunicação e Cultura e atualmente pesquisa linchamento virtual em sites de redes sociais.

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