Dispositivos móveis e aplicativos: a perda ou a volta da aura?

Uma das principais contribuições de Walter Benjamin para o campo da comunicação se refere a sua discussão sobre a relação das imagens com os meios massivos. Na primeira metade do século XX, o referido autor discutia como a obra de arte, no momento de sua reprodutibilidade técnica, estaria deteriorando a aura inerente ao objeto único, sendo a sua fruição completa possível apenas na relação direta do espectador com a mesma.

Ainda, Benjamin discute a experiência que temos com as tecnologias de reprodutibilidade – que fundariam a cultura de massa – e aquela das belas artes, baseada no objeto único, traduzido pela noção de aura . O autor vai denunciar um deslocamento dessa aura a partir do que ele vai chamar de reprodutibilidade técnica, ao introduzir no universo da fruição estética o desfrute de objetos dispostos em série, produzidos em escala industrial, através de uma nova forma de apreensão cognitiva e sensorial no qual as noções de distração e de proximidade passariam a ser importantes.

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“Fabíola”, obra em andamento de Francis Alÿs, discute o valor inerente ao objeto único.

O conceito de aura foi utilizado a princípio para designar os elementos únicos de uma obra de arte original. Para o autor, em seu célebre texto A obra de arte da era de sua reprodutibilidade técnica, a aura se relaciona também à autenticidade. Ela não existe em uma reprodução, mas sim na existência única de uma obra.

Se levarmos em consideração os dispositivos móveis e os aplicativos, temos uma questão interessante para a discussão da aura associada às imagens fotográficas compartilhadas. No artigo Iphoneography as an emergent art world, Halpern e Humphreys falam dos modos como os smartphones estariam introduzindo o que pode ser chamado por alguns de “falsa aura” (ou aura menos autêntica); por outro lado, os adeptos desses dispositivos e aplicativos estariam, na imediaticidade que é inerente ao processo de produzir imagens na contemporaneidade, evocando o meio analógico da fotografia, com todas as suas imperfeições.

Tal evocação seria percebida na adoção de filtros e efeitos para a edição das imagens, que remetem a uma estética inerente aos processos analógicos, conferindo um status de “único” para a fotografia digital justamente pelas imperfeições “adicionadas” na imagem. Porém, não se trata de um resgate direto ao passado, mas de uma apropriação que carece ser tão rápida quanto o tempo necessário para que a rede social do indivíduo tenha essa interação através de imagens com poucas horas de intervalo entre a captura e o compartilhamento – podendo assim se assemelhar a uma conversação textual assíncrona, em sua dimensão temporal.

Nesse ponto de vista, ao invés de falarmos em uma falsa aura podemos refletir sobre como esses aplicativos permitiriam a re-introdução (ou simulação) da aura no processo da fotografia digital. Muitos usuários lamentam a natureza “perfeita demais” da fotografia digital, mesmo em câmeras tecnologicamente mais rudimentares. Os aplicativos com uma estética retrô, como o Instagram ou o Hipstamatic, muitas vezes introduzem grãos, vazamentos de luz, bordas e vinhetas, capazes de constituir uma gramática predominantemente nostálgica e ajudar a estabelecer a imagem como “única” justamente nessas camadas de efeitos.

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Possibilidades de efeitos e seus cruzamentos no aplicativo Hipstamatic.

Os usuários estariam, assim, reinterpretando a aura através de aplicativos que chamam a atenção para o próprio meio e para as formas mais antigas de fotografia. Assim como os fotógrafos após 1880 manipulavam as imagens em uma câmara escura para simular a aura de fotografias antigas, aqueles detentores de aplicativos diversos manipulariam as imagens em seus dispositivos móveis para simular a aura da fotografia analógica.

Pensar nessa re-introdução da aura desconstrói a própria noção levantada por Benjamin, ao pensar que só a sua existência única estaria conferindo um valor de culto para as imagens. Na verdade, caberia aqui pensarmos em como, através da adoção desses efeitos supracitados, os fotógrafos – amadores ou profissionais – estariam reafirmando o potencial das imagens obtidas em processos anteriores ao digital. Ora, se é através dos aplicativos que as imagens passam por apreciação e adquirem valor para as redes sociais conectadas pelos dispositivos móveis, como não seria importante o referente original, no qual nunca alcançaríamos mas sofreríamos influência dessa estética nas imagens compartilhadas? Talvez seja necessário o pedestal dos grandes artistas e suas criações para guiarmos o valor que damos para as imagens na contemporaneidade.

Vitor Braga

Jornalista, professor da Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia.

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