Digressão sobre a Análise da Conversação em Sites de Redes Sociais

O seguinte texto parte de uma reflexão inicial realizada no projeto de mestrado deste pesquisador, em busca de levantar algumas premissas básicas para o seu desenlaço. Através do mote inicial, que será aqui apresentado, é possível localizar com mais clareza o fenômeno que desejamos compreender e aprofundar durante a  dissertação – a conversação entre indivíduos, como forma de sociabilidade e de construção identitária, e a sua interface com as novas tecnologias de comunicação e informação (TIC’s), mas especificamente os Sites de Redes Sociais (SRS). No projeto, entretanto, o trabalho terá como ponto de partida a Análise da Conversação no Facebook (SRS mais utilizada na atualidade), contudo, o objetivo é expandir esta observação para outros sites e, posteriormente, comparar aspectos/padrões em comum e/ou particularidades de cada um deles no processo conversacional.

Por que Sites de Redes Sociais?

Com o passar da primeira década do século XXI, observa-se o surgimento de tecnologias capazes de expandir a conversação[1] entre os indivíduos. Com o surgimento de fatores-chave, tais como a liberação do pólo emissor, a conexão planetária de conteúdos/pessoas e a reconfiguração da paisagem comunicacional (LEMOS, 2003), ambientes online como blogs, chats, Sites de Redes Sociais (SRS)[2], fóruns, dentre outros, possibilitaram que os usuários não só consumissem, mas, também, produzissem, distribuíssem e compartilhassem informações em escala global como nunca antes tinha acontecido.

Ao destacar os Sites de Redes Sociais, particularmente, falase de relacionamento e de conversação. Também se fala sobre uma mudança de paradigma dos veículos tradicionais de comunicação, com funções massivas e centralizadoras, para veículos e ambientes com funções pós-massivas, coletivas e distribuídas. Segundo Lemos (2009), hoje observamos a formação de uma nova esfera conversacional que…

…se caracteriza por instrumentos de comunicação que desempenham funções pós-massivas (liberação do pólo emissor, conexão mundial, distribuição livre e produção de conteúdo sem ter que pedir concessão ao Estado), de ordem mais comunicacional que informacional (mais próxima do “mundo da vida” do que do “sistema”), alicerçada na troca livre de informação, produção e distribuição de conteúdos diversos, instituindo uma conversação que, mesmo sendo planetária, reforça dimensões locais. As tecnologias da comunicação e da interação digitais, e as redes que lhe dão vida e suporte, provocam e potencializam a conversação e reconduzem a comunicação para uma dinâmica na qual indivíduos e instituições podem agir de forma descentralizada, colaborativa e participativa. (LEMOS, 2009, p.03).

Sociabilidade x Tecnologias Digitais

A Análise da Conversação em Sites de Redes Sociais convoca, antes de tudo, a compreensão do conceito de Interação Social, aqui considerada como uma ação realizada de forma mútua e interdependente. Ou seja – “é a reciprocidade, é a conduta-resposta, que dá às condutas em relação ao outro o seu caráter de interação” (MONTMOLLIN, 1997 apud MARC; PICARD, s.d., p. 09). De acordo com autores da Escola de Palo Alto, as interações não se limitam a trocas verbais entre os atores; elas são formadas por “um complexo fluido e multifacetado de numerosos modos verbais, tonais, posturais, contextuais, etc. – que, em seu conjunto – condicionam o dignificado de todos os outros” (WATZLAWICK; BEAVIN; JACKSON, 1993, p. 46).

Quando o assunto é a conversação propriamente dita, logo pensamos em trocas e relações cotidianas – trata-se, portanto, da “prática social mais comum no dia-a-dia do ser humano, a primeira forma de linguagem a que somos expostos e aquela que jamais abandonamos no curso da vida” (MARCUSHI, 2006, p.5). Sua análise não é realizada por um campo homogêneo, sendo composta por diversas disciplinas que apontam convergências temáticas e metodológicas. Entre as abordagens disciplinares, dessa forma dialogal da comunicação, estão: (1) Etnografia da Comunicação – que se concentra em analisar práticas da linguagem em diferentes grupos socioculturais (principais pesquisadores: Gumperz e Hymes); (2) Pragmática Linguística – que procura estabelecer uma ‘gramática’ das trocas verbais – regras, estruturas e funcionamentos (principais pesquisadores: J.L. Austin, J.R. Searle, H.P. Grice); (3) Corrente Interacionista – aborda a conversação como um ‘encontro social’, determinado pelo contexto e pelos rituais sociolingüísticos (principais pesquisadores: Sacks, Schegloff, Garfinkel, Goffman, entre outros).

Para Simmel (1983), a conversação seria uma forma pura de sociabilidade, em que a fala é um fim em si mesmo ou, segundo Gabriel Tarde (1992), um diálogo sem uma utilidade direta ou imediata. Ou seja, o conteúdo seria um estimulador das interações na conversa, contudo, não se está buscando resultados objetivos. Goffman (1999), por sua vez, estuda a conversação de uma forma mais ampla, equivalente ao encontro falado, focando nas interações orais em encontros presenciais. Conforme aponta Marcuschi (2006), a conversação pode ser entendida como “uma interação verbal centrada, que se desenvolve durante o tempo em que dois ou mais interlocutores voltam sua atenção visual e cognitiva para uma tarefa comum” (p.15). Desse modo, a chamada Análise da Conversação tem como objetivo inicial verificar a organização estrutural convencionalizada ou institucionalizada da interação social. Posteriormente, passa a analisar os processos cooperativos na atividade conversacional, como: as trocas de turnos, os silêncios e lacunas, as falas simultâneas, as regras conversacionais, a coerência conversacional.

No entanto, na contemporaneidade, marcada pelas novas tecnologias da informação e pela comunicação mediada por computador, faz-se necessário ampliar as reflexões, observando outros ambientes e contextos interacionais. Desse modo, é plausível a necessidade de aprofundamento das discussões em torno de fenômenos sociais regidos pela TIC’s, como, por exemplo, os Sites de Redes Sociais, buscando a compreensão sobre como se apresentam as conversas nesses ambientes e quais são particularidades existentes nas interações que lá ocorrem.

Nos ambientes online, a conversa tem uma relação estreita com a fala e a escrita, através da oralização do texto (o “internetês”). Observamos, também, que o uso de estratégias conversacionais próprias da fala na interação online está em consonância com os recursos próprios do ambiente no qual essa interação ocorre (HILGERT, 2000). Recuero (2008) aponta alguns dos principais elementos característicos da conversação mediada pelo computador: (a) é um tipo de comunicação que privilegia o anonimato, em detrimento da identificação; logo, a linguagem e o contexto utilizados neste ambiente são apropriados pelos atores como elementos de construção identitária; (b) proporciona o distanciamento físico entre os atores, mas, em muitos casos, funciona como a comunicação semelhante à realizada face-a-face; (c) as interações persistem no tempo e podem ser acessadas em momentos temporais diferentes daqueles que foram originados; e (d) é um tipo de comunicação na qual o texto ainda é privilegiado.

Onde queremos chegar?

Deste modo, para compreender a conversação através de ambientes interacionais online, mais especificamente nos Sites de Redes Sociais, é necessário, então, mapear quais são os aspectos técnicos que as ferramentas disponibilizam e/ou possuem e quais são as apropriações feitas pelos usuários destas ferramentas, criando, assim, os elementos condicionantes para o aparecimento de novos padrões interacionais (OLIVEIRA, 2008). A Análise da Conversação se destaca como uma prática crucial na construção de sentido entre os indivíduos; prática esta que não se mostra alheia às constantes mudanças tecnológicas, sociais e culturais ao longo do tempo. Assim, com o crescimento do uso de Sites de Redes Sociais enquanto ambientes propícios para a interação social, faz-se necessário, mais do que nunca, aprofundar o olhar sobre este fenômeno, buscando o entendimento sobre como estes sites transformam os modos como interagimos uns com os outros e a detecção das possíveis consequências sociais que emergem deste cenário.

[1] Por conversação, entende-se neste texto, todo diálogo desprovido de uma utilidade direta e imediata, em que se fala simplesmente por falar, por prazer. Essa definição exclui as conversas diplomáticas, interrogatórios judiciários, e outro, apesar de não excluir o flerte e as conversas amorosas em geral (TARDE, 1992).

[2] Sites com foco na conexão e relacionamento entre atores sociais presentes no ciberespaço, possibilitando a criação de uma persona através de um perfil ou página, interação através de comentários e exposição pública da rede social de cada ator.   

Referências

GOFFMAN, E. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1999.

HILGERT, J. A construção do texto ‘falado’ por escrito: a conversação na Internet. In: PRETI, Dino (org.). Fala e escrita em questão. São Paulo: Humanitas. pp.17-55. 2000.

LEMOS, A. Cibercultura. Alguns pontos para entender nossa época. In: LEMOS, A.; Cunha, P. (orgs). Olhares sobre a Cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2003; p. 11-23.

LEMOS, A. Nova esfera Conversacional.  In: Dimas A. Künsch, D.A, da Silveira, S.A., et al. Esfera pública, redes e jornalismo. Ed. E-Papers: 2009.

MARC, E. e PICARD, D. A interacção social. Porto: RÉS – Editora. 1997.

MARCUSCHI, L. A. Análise da Conversação. São Paulo: Ática, 2006.

OLIVEIRA, R. S. 2008. Marcas Verbais dos Aspectos Não-Verbais da Conversação nas Salas de Bate-papo na Internet. Seminário. Disponível em: www.abed.org.br. Acesso em 17/04/2014.

RECUERO, R. Elementos para a análise da conversação na comunicação mediada pelo computador. In: Verso e Reverso. São Leopoldo: UNISINOS, vol. 3, p. 1-15, 2008.

WATZLAWICK, P.; BEAVIN, J. H.; JACKSON, D. D. Pragmática da comunicação humana: um estudo dos padrões, patologias e paradoxos da interação. São Paulo: Cultrix, 1993.

SIMMEL, G. George Simmel: Sociologia. Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Ed. Ática, 1983.

Marcel Ayres

Doutorando na linha de Cibercultura na Póscom - UFBA. Especialista em Marketing pela FGV. Pesquisador no Grupo de Pequisa em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade [Gits - UFBA]. Sócio da PaperCliQ - Comunicação e Estratégia Digital.

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2 Comments
  1. Muito boa a digressão. Estou fazendo o mesmo estudo, mas meu foco é na comunicação interna que extrapola as fronteiras da organização e é fortemente debatida nesses grupos de discussão do Facebook.

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