Da coletividade à individualidade na internet

Os movimentos iniciais da internet – ou pelo menos quanto à sua popularização na esfera civil – se davam sempre em torno de coletividades. As atividades pioneiras nesse campo referiam-se a fóruns, salas de bate-papo e outras metáforas que nos conduziam a compreensão para práticas e territórios reconhecíveis. Como era tudo muito novidade, e uma novidade não-material, urgia alguma correspondência com o “mundo real”. Igualmente urgia uma ocorrência de atividades coletivas, que imprimissem algum valor ou sentido de estar junto: situar-se na frente de um computador, pois, não poderia remeter à solidão, ao enclausuramento num espaço apartado da realidade.

Diante dessa situação, talvez a expressão maior da celebração de coletivos tenha se dado com as comunidades virtuais, tão notórias na década de 1990 e hoje já nem tão lembradas. Compreender o porquê de tal esquecimento é um movimento que não arriscamos num artigo tão breve, mas é igualmente perceptível que as práticas no ciberespaço (se ainda nele podemos falar) e as pesquisas em cibercultura tenham se focado arduamente, nos últimos anos, em sites de redes sociais – seja pelo viés da representação individual, do interacionismo simbólico, da coleta de dados, das questões relativas à privacidade etc.

Há uma consideração que, contudo, parece passar desapercebida: compreender a formação de redes sociais nos leva a uma percepção do indivíduo enquanto elemento dessa rede – por vezes, o elemento central, aliás. Mesmo que o foco do estudo esteja nos seus laços ou ainda nas ações que decorrem das conexões (como as interações, representações ou as colaborações em rede), a dimensão de coletividade e de rede como um todo parece deveras perdida hoje – o que não é um problema a priori, vale ressaltar.

É curioso, contudo, que tenhamos passado da inteligência coletiva ou da sociedade em rede para o show do eu. É nesse sentido que Barry Wellman considera que “a pessoa se tornou o portal”, referindo-se à magnitude das luzes jogadas sobre o sujeito. De certa forma, a existência dos e nos ambientes digitais vem sendo pautada severamente numa auto-exibição do indivíduo, que, longe de ser apenas mais uma peça, acaba ganhando o palco só para si em determinadas situações recortadas e mediadas. O Facebook pode ser o exemplo mais contundente desse monólogo de milhares de pessoas justamente por ser um todo em que o foco é individual, não coletivo: é como se todos falassem ao mesmo tempo, mas em canais diferentes. O mesmo vale, de certa forma, para Twitter, Linked In, Instagram e tantos outros sites/serviços cujo aspecto mais importante é a expressão do self. Ainda que se valham de objetivos e processos interacionais particulares, não é à toa que a foto do rosto – ou avatar, que seja – esteja justamente sempre em evidência ou no ponto nobre da leitura ocidental: no canto superior esquerdo. O que, curiosamente, nunca foi o forte do Flickr, vejam só.

Fim das comunidades?

Ao realizar discussão sobre comunidades virtuais, Lori Kendall coloca em cheque a representatividade da noção comunal, frisando abordagens como as de Fernback, que chega a propor o abandono do termo comunidade. Se já é difícil falar de comunidade em momentos pré-internet, imagina agora, quando teríamos uma espécie de “individualismo em rede”, nos dizeres de Wellman. Por tal expressão, o pesquisador se refere à noção de individualismo enquanto dupla disposição de isolamento e conexão: estamos realmente sós, mas nos conectamos esporadicamente com quem queremos. Wellman, assim, refere-se à condição de nos mantermos conectados, porém sem um fundamento unitário para o suposto coletivo. Ora, diante de tantas possibilidades de conexão (sem nos esquecermos de agendas telefônicas e redes mais particulares de troca de mensagem, a exemplo do Whatsapp), como visualizar um chão único para que todos os indivíduos de um coletivo o tenham enquanto commons?

As tais comunidades virtuais e fóruns dos primeiros momentos de internet, em sua vagas materialidades mas ainda assim únicas, talvez servissem como esse território comum a todos os participantes. Mas hoje, para Wellman, os indivíduos trocam rapidamente de conexão: “cada pessoa manipula suas redes para obter informação, colaboração, pedidos, suporte, sociabilidade e um senso de pertencimento”, diz. E assim, aponta Kendall, ao invés de identificação com uma unidade – a saber, a comunidade, o coletivo ou o que seja -, cada um de nós se estabelece no centro de redes pessoais. Ou personalizadas – vide preocupações recentes em termos de indicações espaciais. A noção subjacente de self é tão forte que é praticamente impossível falar que as principais redes hoje sejam comunidades: estão mais para o termo Gesellschaft (sociedade) que para Gemeinschaft (comunidade), segundo as diferenciações básicas de Ferdinand Tönnies.

A que isso nos leva

Em linhas gerais, há uma extensa série de problematizações possíveis. Serviços e sites egocentrados parecem alimentar uma perspectiva precisamente egocêntrica, na medida em que tomam o indivíduo e seus gostos como perspectiva a ser adotada em seu funcionamento. Isso nos leva a um patamar de inexistência da alteridade, pelo menos em potencial. Além do mais, por vezes exageram na forma como coletam informações sobre o sujeito, conferindo-lhe situações de pouca ou questionável privacidade – afinal, como se diz, onde há gratuidade, os dados privados são a moeda de troca. Em termos subjetivos, trazem também preocupações com a exacerbação do self, enquanto esse é tratado como o ponto central das atuações em rede e os modos como as pessoas se expõem.

Todas essas questões – sobre identidade/identificação, personalização, funcionalidades e dados privados – tocam numa ferida bastante delicada: o sujeito enquanto objeto. E um objeto cada vez mais único e individualizado, pelo visto. Das comunidades virtuais às individualidades em rede, o que teremos num próximo momento para a internet?

Algumas leituras que estiveram na base desse texto:

  • Rheingold, Howard. The Virtual Community.
  • Tönnies, Ferdinand. Gemeinschaft und Gesellschaft.
  • Wellman, Barry. Little boxes, glocalization, and networked individualismin.
  • Fernback, Jan. Beyond the diluted community concept.
  • Kendall, Lori. Community and the Internet.

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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3 comments to “Da coletividade à individualidade na internet”
  1. O texto problematizou e fundamentou muito bem as discussões ocorridas na última reunião do GITS/UFBA, PV. Acrescentando, a respeito do “estar junto”, citaria Maffesoli.

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