Criança, consumo e tecnologias

Constantemente ouvimos comentários generalizantes que associam obesidade infantil com o uso das tecnologias digitais. Em discursos apocalípticos os celulares, o computadores e jogos eletrônicos são os grande vilões da saúde infanto juvenil. Certamente devemos sempre ter cuidado e serenidade para promover a saúde de crianças e adolescentes como compromisso ético.

O olhar cuidadoso consegue perceber que nem o problema e nem a solução da obesidade infantil são mágicos e associados apenas às tecnologias de informação e comunicação. Para ampliar a percepção do cidadão sobre a complexidade do universo de consumo infantil e suas relações com a saúde em sentido amplo, vale a pena conferir os materiais criados pelo Instituto Alana, organização da sociedade civil brasileira.

Para promover um olhar crítico sobre nossos hábitos de consumo, em especial os alimentares, o Instituto Alana vem alertando sobre a seriedade do debate relacionado à publicidade infantil. Atualmente está em cartaz no Cinema nas principais capitais brasileiras o filme longa metragem: “Muito além do peso

Outro documentário do Instituto Alana disponível na rede sobre publicidade infantil:

Os filmes acima são interessantes para provocar o debate, mesmo que destaquem uma visão bem específica deste tema complexo, ajudando a pensar com mais cuidado os discursos deterministas associando as TIC como grandes responsáveis pela obesidade. O material do Instituto Alana pode ajudar também a pensar qual é o tipo de educação crítica que nossas crianças recebem para consumir, não apenas alimentos mortíferos, mas também a publicidade em geral, as mídias, as informações massivas, as lições escolares, o vestibular…

Este tema remete às questões complexas de regulação de limites para a publicidade e para o uso das mídias, tema que suscita o fantasma da censura e ao mesmo tempo a mão ilimitada do mercado. Lidar com a complexidade destes fatores todos é um dever de todos que acreditam na democracia como alternativa para a construção de equilíbrios possíveis e razoáveis para contemplar os complexos e diversos interesses.

As TIC podem ajudar muito na promoção deste debate reflexivo, mas infelizmente não poderão ensinar, sozinhas, ética, cidadania e valores críticos para que nossas crianças possam, com liberdade, gerir suas vidas de forma responsável.

Rodrigo Nejm

É psicólogo pela Universidade Estadual Paulista UNESP/Assis-SP, doutorando em psicologia social no Programa de Pós Graduação da UFBA e mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pelo CIAGS/UFBA. Realizou intercâmbio acadêmico na graduação para estudar “Médiation Culturelle et Communication” na Université Charles de Gaulle Lille 3, França. Atualmente é psicólogo e diretor de educação na ONG Safernet Brasil, responsável pela criação de materiais pedagógicos, pesquisas e campanhas educativas sobre Direitos Humanos e governança da Internet no Brasil. Tem interesse de pesquisa nas interfaces da psicologia com a comunicação, privacidade e sociabilidade de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.

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