Coordenação espacial e privacidade: uma flânerie para o século XXI?

Em postagem anterior, falávamos preliminarmente sobre mudanças históricas nas nossas relações com espaços de privacidade e sobre como essa mesma noção, quando problematizada diante da interferência de fluxos infocomunicacionais em ambientes públicos, está passando por transformações na atualidade. O texto que se segue é complementar àquele outro e, portanto, para entender este, é necessário que a primeira parte seja lida como base.

Partamos de um ponto: redes e serviços baseados em localização colocam nosso corpo numa dinâmica inédita de movimentações e referencialidade espacial. Não se trata de que estejamos nos movendo diferente dentre os espaços urbanos (talvez sim, mas não a priori), mas sim que nossa localização momentânea – por vezes em tempo real – está sendo disponibilizada de maneiras antes inexistentes. Aplicativos georreferenciais fazem o papel de mediadores diante de práticas de sociabilidade diversas: Foursquare se coloca à disposição para a realização de marcações eletrônicas sobre uma representação do espaço; Tinder e Grindr se propõe como facilitadores de encontros entre pessoas de interesses similares; recentemente, até o Facebook voltou à essa atuação ao propor o Nearby, mostrando os amigos que se encontram pelas proximidades, mesmo depois de esquecer o não tão bem aceito Places.

Outra novidade nesse cenário atende pelo nome de Cloak – embora sua ideia nem seja tão original assim. Cloak é um aplicativo baseado em dados deixados no Foursquare e no Instagram – que utilizam, cada qual à sua maneira, informações georreferenciadas nas publicações dos seus usuários. De posse desses dados, o Cloak faz rastreamentos dos seus contatos e avisa quando eles estão por perto. Como já dito, a ideia não é tão original porque várias iniciativas similares já foram realizadas, como os já não mais existentes Loopt, Brightkite e Centrl. O diferencial deste, contudo, é que, ao invés de propor encontros presenciais, sua funcionalidade está baseada no desencontro. A ideia principal do aplicativo, assim, é proporcionar uma maneira de se evitar o encontro face a face com pessoas indesejáveis – ou seja, coloca-se como uma rede social para anti-sociais. Os criadores do app dizem que ele serve para evitar ex-namorados, colegas chatos ou aquelas pessoas que gostam muito de conversar. Ou seja, qualquer um que seja inconveniente o suficiente para tomarmos outro caminho.

A questão mais curiosa, contudo, não está nessa descrição (já que ela pode ser apenas uma justificativa para a empreitada do negócio), ou nem mesmo no modo como nossos rastros estão sendo manipulados. Uma visão particularmente original veio da revista Rhizome sob a forma de um breve artigo intitulado Incognito Mode for the 21st-Century Flâneur. O que o texto se propõe a refletir é quanto a uma inviabilidade de navegarmos os espaços urbanos sem estarmos plenamente abertos às manifestações da surpresa, do desconhecido, do imprevisível. Um dos exemplos dados é plausível o suficiente para que o uso do aplicativo venha ser, no mínimo, boring: deixar de ir para um lugar predileto quando se sabe que lá se encontram pessoas com as quais não desejamos encontrar.

Por mais que pareça interessante a capacidade de se esquivar e evitar o indesejável, é inquietante também a maneira anônima como podemos (ou não mais!) explorar as ruas das nossas cidades e mesmo nossas relações sociais. E esse é um ponto que diz respeito não só à privacidade (nossos dados – locativos, nesse caso – estão sendo dispostos em rede, mas nós sabemos ao certo como e quando?) como também ao modo como lidamos com o outro e mesmo com nossas responsabilidades. Vide as preocupações de Sherry Turkle sobre uma seleção e vontade de controle sobre nossas conexões, o que nos levaria a uma “desaprendizagem” quanto aos nossos modos de interação.

Ainda é possível ser anônimo nas ruas?

Mas por que o artigo citado da Rhizome fala em flâneur? Flâneur é uma figura urbana eternizada pelos versos de Baudelaire e também pelas análises de Walter Benjamin quando este escrevia sobre a cidade de Paris do século XIX. O praticante da flânerie é o indivíduo que se contrapõe à pressa da sociedade moderna, aquele que tem tempo a perder para perambular pelas ruas sem uma rota específica ou sem uma perspectiva de eficiência e rapidez. Em sua tranquilidade e displicência com o relógio, pode observar com calma e contemplação os passos da multidão, em contraposição aos indivíduos e veículos apressados. A título de exemplo, no século XIX conforme descreve Benjamin, havia certa moda de se levar tartarugas para passear, em vez de cachorros. Assim, o tempo da caminhada era o tempo do animal.

Um outro ponto característico da prática da flânerie é relativo anonimato. O flâneur não se isola ou se esconde para garantir sua privacidade ou continuar um anônimo; pelo contrário, vai às ruas em meio às multidões, mas se encontra abrigado justamente pelo anonimato da massa. Em meio a todos, tornava-se indefinido, sem rastros que o denunciassem. E, desse modo, perambulando sem rumo, à mercê da própria vontade e do tempo ocioso, estabelecia um ritmo contrário às lógicas temporais e espaciais que começavam a emergir do processo de industrialização.

Em seu não-planejamento, o flâneur podia, virtualmente, deparar-se com qualquer coisa ou pessoa. A lógica de encontros, demarcações espaciais ou rotas preestabelecidas não encontrava lugar na prática da flânerie. Dar de frente com conhecidos, amigos ou inimigos era uma possibilidade latente nesse tipo de errância pela cidade. Por mais que uma lógica objetiva e funcionalista estivesse impressa no ethos moderno como um todo, o flâneur se punha em contramão a todo esse processo com uma subjetividade incorporada à sua displicência com o progresso e com a programação.

A curiosidade que o artigo da Rhizome traz à tona se dá precisamente no quê de anonimato que seria plenamente possível hoje – que seria, mas não está sendo: as cidades atuais são, em geral, bem mais populosas que a Paris do século XIX. E, várias delas, maiores e mais complexas também – mais bairros, mais sistemas de transporte público, mais ruas… Perder-se no espaço público parece ser o que há de maior possibilidade, enquanto ir de um ponto a outro, em certas cidades, parece ser impossível sem um mapa ou um GPS. E ainda marcadas pelo tempo rápido, pela velocidade alta, pela pressa constante e pela facilidade do erro, ser flâneur, atualmente, poderia fazer ainda mais sentido. Mas não é o que ocorre.

Ao realizarem a correlação de dados entre alguém e seus amigos, aplicativos como o Cloak colocam os indivíduos em coordenação espacial, de modo que o aspecto de anonimato caia por terra, e de modo que a exploração do espaço de maneira errática não seja mais possível. Basta que o sistema avisa sobre a possível presença de uma pessoa que queiramos encontrar ou evitar para tomarmos outro rumo – justamente a rota do encontro ou do desvio. Estranhamente, a própria atuação do aplicativo se mostra contrária ao que disse um dos seus criadores, Brian Moore. Em suas palavras, nós estamos passando por uma espécie de fadiga social, referindo-se ao excesso de elos e de self disclosure existentes atualmente. Mas esse procedimento realizado não seria uma forma de explorar os elos sociais já previamente estabelecidos?

De qualquer forma, essas são apenas ideias iniciais. A flânerie do século XIX não cabe da mesma forma no século XXI, tanto quanto a ideia de panóptico já não faz mais sentido atualmente. São conceitos superados, digamos, mas ainda assim interessantes. No mínimo, podem nos servir para repensarmos nossas ações e nossos papeis em meio a certos públicos. O que fica de instigante, por fim, é a relação tensa entre anonimato, privacidade e uso do espaço público. Pode-se argumentar, por exemplo, que uma vez na rua, alguém não tem mais qualquer direito à privacidade. Não é bem assim, e a coisa só se complexifica diante da disponibilização das informações georreferenciais em redes de contatos – informações que ultrapassam não só constrições espaciais, mas também temporais. Esse é um dado que embaralha qualquer questão supostamente bem resolvida.

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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