Convergência do Consumo Midiático e Mídias Sociais

Em Cultura da Convergência, Henry Jenkins fundamenta o cenário contemporâneo da comunicação à partir de três pilares:  a inteligência coletiva, a cultura participativa e a convergência midiática.

a) Inteligência coletiva – aqui o autor se refere a uma nova forma de consumo, no qual discursos são construídos e reconstruídos colaborativamente. Segundo Pierre Lèvy, essa inteligência coletiva pode ser considerada como “globalmente distribuída, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real” e “conduz a uma mobilização efetiva das competências”. Basta observarmos como, cada vez mais, os usuários conectados, e sem ‘amarras’ para a produção e compartilhamento de conteúdos, remixam o que vêem pela frente.

b) Cultura Participativa – Jenkins caracteriza a postura do novo consumidor midiático que, segundo ele, teria a “habilidade de transformar uma reação pessoal em uma interação social, cultura de espectador em cultura participativa”. Ou seja, o consumidor cada vez está mais distante da condição passiva (tábula rasa).

c) Convergência Midiática – por fim, Jenkins parte de uma perspectiva culturalista (e não apenas de um determinismo tecnológico) para mostrar como, principalmente com uso crescente da Internet, a informação hoje passa por diferentes canais midiáticos, complexificando a experiência do consumo e integrando diferentes meios nesse processo (TV, Rádio, Cinema, Games, Mídias Sociais etc.).

Neste cenário, as Mídias Sociais surgem como ambientes profícuos para a observação da convergência do consumo midiático, uma vez que a internet hibridiza as fronteiras entre os meios, permitindo que usuários compartilhem experiências, desejos, percepções sobre atividades diversas do seu cotidiano. Quantas vezes você já observou no Twitter, Facebook, Google+ etc. pessoas tecendo comentários sobre novelas da Globo, jogos de futebol, resenhas de livros, filmes do cinema, games e uma infinidade de manifestações acerca das suas experiências de consumo? Seja através de computadores, tablets, smartphones, Smart TV’s e outros dispositivos com acesso à internet, o consumo midiático deixa de ser algo hermético e limitado geograficamente, passando a ser potencializado por conversações e trocas de experiências em escala global.

Exemplo: a experiência de consumo ganha “vida” em outros espaços interacionais.

Hoje, a possibilidade de registro e  resgate de informações compartilhadas publicamente nas mídias sociais abre precedentes para a observação e análise do fenômeno da convergência do consumo midiático. Logo, por meio da coleta e análise de diversos dados (ex.: menções, check-ins, compartilhamentos e outros tipos de atividades realizadas nessas mídias), é possível mergulhar na complexidade deste consumo integrado de mídias e destacar particularidades que emergem de variáveis sociais e técnicas presentes na relação entre: indivíduos + dispositivos tecnológicos + aplicações web.

Vale lembrar que a convergência midiática não traz apenas modificações na relação entre indivíduos e mídias, complexificando a experiência do consumo, mas, também, na própria produção midiática, uma vez que o acesso aos feedbacks do público permite que produtores/desenvolvedores agora levem ainda mais em consideração a opinião e as conversações em rede. Como exemplo, podemos citar casos como a  Viacon Media Networks, organização de entretenimento televisivo que inclui canais como Comedy Central, TV Land, Spike e Gametrailers. A Viacon possui hoje uma equipe focada em monitoramento de conversações que versam sobre seus canais, permitindo, através das mídias sociais, descobrir como seus espectadores estão se sentindo e/ou se engajando em torno das programações. Com essa prática, a Viacon consegue reunir informações estratégicas para o seu posicionamento, uma vez que tem acesso ao que realmente importa para seu público (através dos feedbacks, em alguns casos simultâneos às programações).

Para refletir mais sobre o o tema, segue uma apresentação feita por Gabriel Ishida (Analista de Mídias Sociais da DP6 e pesquisador na Unicamp) sobre a chamada ‘Social TV’ – “experiência de assistir televisão juntamente com o compartilhamento nas mídias sociais”. Neste material, Ishida aponta como, à partir das conversações nas mídias sociais, o ritual de consumo televisivo e as interações sociais acerca destes conteúdos ganham novas configurações, permitindo, em alguns casos, o monitoramento da experiência do consumidor de forma simultânea às programações. Para isso, o autor cita exemplos e dados que demonstram como o hábito de consumir televisão conectado é cada vez mais frequente em diversos países.

 

 

 

Marcel Ayres

Doutorando na linha de Cultura Digital da Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (PGCCC/UFBA). Graduado em Comunicação Social pela Faculdade de Comunicação da UFBA. Especialista em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Pesquisador no Grupo de Pequisa em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade (GITS/UFBA). Também atua como professor e consultor em Comunicação e Marketing Digital.

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