Construir uma Internet melhor, é possível?

“Construindo juntos uma Internet melhor” é o tema do Dia Mundial da Internet Segura 2014 que será celebrado em 11 de Fevereiro. O Dia é uma iniciativa anual idealizada pela rede Insafe da Comissão Europeia em 2004 e que atualmente envolve mais de 100 países do mundo. No Brasil as ações acontecem desde 2009 sob a coordenação da SaferNet, buscando estimular diferentes atores da sociedade civil, empresas de Internet e gestores de políticas públicas na promoção do uso responsável e seguro da Internet.

As organizações que compõem a rede Insafe, bem como a próprio Insafe, são fruto de políticas e investimentos públicos para implementar respostas concretas ao desafio de promover a conscientização dos usuários de diferentes faixas etárias, bem como oferecer serviços diretos de orientação (pela Internet ou por telefone) e de acolhimento de denúncias para situações de violência que ocorrem nas interações mediadas pela Internet. Apesar de o pânico moral ainda ser muito evidente em alguns países também em território Europeu, gradativamente há uma maior atenção à necessidade de ouvir as próprias crianças e adolescentes de forma mais participativa, minimizando o destaque nos crimes e perigos para concentrar na responsabilidade coletiva de fazer valer a cidadania também nestes novos ambientes. Definir o que seria uma Internet “melhor” já é uma questão bem delicada, mas provocar a reflexão é interessante até para compor o mosaico entre as perspectivas que o tema exige.

Videos SID 2014

Como em tantos outros debates relacionados à governança da Internet, são muitos os interesses e perspectivas em jogo. Ao mesmo tempo em que há legítimas preocupações com os perigos e crimes que são cometidos contra crianças e adolescentes na rede, há também consequências perversas do pânico moral. Em nome da segurança das crianças, muitas liberdades podem ser condenadas e sistemas de vigilância legitimados como “mal necessário”, sem falar na segurança nacional relacionada às guerras e ao terrorismo. Neste território bastante espinhoso, a proposta do Dia é estimular a reflexão dos diferentes atores para que as soluções potenciais possam cada vez mais coletivas e negociadas.

Neste ano especificamente, o tema global convida os jovens para colocar suas opiniões em diálogo com as políticas públicas e com os termos de uso dos sites para que o uso seguro seja cada vez mais relacionado à consciência crítica, ao auto-cuidado, ao exercício da cidadania e à liberdade com responsabilidade nos ambientes digitais. Outro tema bastante complexo é pensar na efetiva participação dos jovens, para além da mera presença para dinâmicas e fotos de relatório. Temos visto crescer as pesquisas acadêmicas relacionadas aos comportamentos online incluindo cyberbullying, sexting, aliciamento, uso excessivo, dentre outros, como em: EU Kids Online, UNICEF Report, Berkman Center, CETIC.br, dentre outros). Não bastassem tantos pontos críticos, resta ainda um outro grande desafio: conseguir conectar as “evidências” científicas na elaboração e implementação de políticas públicas que não sejam apenas reativas aos escândalos, nem estratégias para defender outros interesses que ameaçam as liberdades necessárias para manter a singularidade da dinâmica criativa permitida na/pela Internet.

Ações do Dia da Internet Segura no Brasil, confira:


Rede Insafe e mais sobre as políticas públicas na Europa
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Rodrigo Nejm

É psicólogo pela Universidade Estadual Paulista UNESP/Assis-SP, doutorando em psicologia social no Programa de Pós Graduação da UFBA e mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pelo CIAGS/UFBA. Realizou intercâmbio acadêmico na graduação para estudar “Médiation Culturelle et Communication” na Université Charles de Gaulle Lille 3, França. Atualmente é psicólogo e diretor de educação na ONG Safernet Brasil, responsável pela criação de materiais pedagógicos, pesquisas e campanhas educativas sobre Direitos Humanos e governança da Internet no Brasil. Tem interesse de pesquisa nas interfaces da psicologia com a comunicação, privacidade e sociabilidade de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.

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