Considerações sobre ética em pesquisas na internet: uso de informações de grupos fechados

O guia de ética da Association of Internet Researchers (MARKHAM, BUCHANAN, 2012) aponta que as diretrizes éticas em pesquisas na internet costumam se basear na maximização dos benefício da pesquisa e minimização dos prejuízos; nos direitos humano à dignidade; na segurança e proteção aos participantes; na expressão de autonomia; além do senso de respeito à pessoa, de justiça e de beneficência.

Dentre os tópicos comumente debatidos diante dessas diretrizes, há a questão da percepção diferenciada por quem é participante e observador externo ou interno sobre o que são informações ou espaços públicos ou privados (ESTALELLA, ARDÈVOL, 2007). Nesse contexto, podemos pensar em grupos fechados do Facebook que possuem moderação para a entrada e permanência de seus membros, que são os únicos que podem visualizar seus conteúdos. Mesmo fazendo parte do grupo, como a pesquisadora pode utilizar as informações? Uma das preocupações é saber que o termo de uso da plataforma indica, pois “no Facebook, as pessoas se conectam e compartilham usando seus nomes reais” [1]. Assim, pede-se que seja evitado a publicação de informações pessoais de outras pessoas sem o consentimento delas.

Ou seja, a pesquisadora precisa se questionar como fazer uso dessas informações. Por mais que seja um consenso de que as pessoas não devem expor dados e informações sensíveis na internet, o fato delas estar em contato com pessoas com as quais mantém laços sociais pode favorecer a maior divulgação de conteúdos e ideias que não estariam expostas em outra situação. Obviamente, este cenário pode enriquecer a pesquisa. Por outro lado, traz questões éticas à pesquisa que envolve a observação desse ambiente digital.

Nessa situação, a apresentação da pesquisadora e de seus interesses, a solicitação de uso das informações e o uso do anonimato podem ser algumas das soluções a depender do projeto da pesquisa, pois cada um desses itens pode acarretar considerações a serem trabalhadas.

Por fim, podemos ter em mente o que nos indica o guia citado em relação às decisões éticas que devem ser pensadas ao longo de todas as etapas da pesquisa e que podem ser feitas mediante a opinião dos pares dos pesquisadores, das pessoas envolvidas no ambiente pesquisa, nos guias de ética e de outras fontes pertinentes.

Sobre uma versão anterior do guia de ética da AIR, veja esta nossa postagem anterior <http://gitsufba.net/the-handbook-of-internet-studies-cap-05/>.

Referências:

[1] – <http://www.facebook.com/communitystandards>

MARKHAM, Annette; BUCHANAN, Elizabeth. Ethical Decision-Making and Internet Research: Recommendations from the AoIR Ethics Working Committee (Version 2.0). 2012. Disponível em: <http://aoir.org/reports/ethics2.pdf>. Acesso em: 09 Mai. 2014.

ESTALELLA, Adolfo; ARDÈVOL, Elisenda. Ética de campo: hacia una ética situada para la investigación etnográfica de internet. In: Forum: Qualitative Social Research, Volumen 8, No. 3, Art. 2, Septiembre 2007.

Mônica Paz

Mônica Paz é doutora (2015) e mestre (2010) pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, na linha de pesquisa sobre Cibercultura, da FACOM/UFBA. Bacharel em Ciência da Computação pelo DCC/UFBA (2007). Entusiasta do movimento Software Livre, já colaborou em diversos eventos dessa comunidade e também com a Revista Espírito Livre.

More Posts - Website