Conexão em rede e vontade de estar junto

Em leituras do livro mais recente de Danah Boyd, It’s Complicated, debatemos em reunião alguns relatos trazidos pela autora, os quais davam conta das maneiras como jovens americanos usam redes sociais e serviços de instant messaging. Na ocasião, a discussão girava em torno de certa “obsessão” que adolescentes parecem apresentar quanto à internet e a potencialidade de conexão generalizada.

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Até onde nossas relações tem sido realmente desse modo? Foto Creative Commons por Romain Guy [https://www.flickr.com/photos/romainguy/10982291363/]

Diante de uma intensa utilização de recursos tecnológicos em rede, infelizmente o tratamento dos pais, da imprensa e mesmo de alguns especialistas acaba sendo, grosso modo, baseado numa percepção de que aqueles jovens se encontram em meio a um vício e, como tal, não possuem controle adequado sobre si quanto ao uso dos dispositivos eletrônicos. De fato, a coisa parece ter ares patológicos quando vemos pessoas demasiadamente focadas em seus celulares ou computadores, mas é necessário perceber, ainda que difícil, que encontra-se em jogo um abismo de diferenças geracionais, para falar no mínimo. Boyd, contudo, consegue estabelecer uma outra perspectiva tendo por base a fala de seus entrevistados, dando vazão a, pelo menos, duas questões fundamentais para a compreensão dos adolescentes e suas práticas de interação e convívio em rede: a ânsia de terem uma vida pública própria e a vontade de estar em contato com aqueles que, para além da família, fazem sentido às suas vidas – ou seja, amigos e colegas de escola.

Capa do novo livro de danah boyd

Livro de Danah Boyd aborda os conflitos e dificuldades de jovens nas redes sociais da internet

Com efeito, a argumentação da pesquisadora vai no sentido da sociabilidade, do estar junto, da congregação, e não de sua negação – como muitas vezes procede o olhar de Sherry Turkle em Alone Together, nossa leitura anterior. Dessa forma, onde os pais enxergam apenas uma relação fria com telas e interfaces ou um isolamento causado pela sedução dos aparelhos eletrônicos, seus filhos enxergam o contrário, mostrando que estão, de fato, em constante conexão com seus pares. Em sites de rede social, jogos de MMO ou aplicativos de bate-papo no celular, os mais jovens se encontram conversando, jogando ou simplesmente celebrando a amizade por procedimentos interacionais particulares – os quais as pessoas de outras gerações simplesmente não conseguem compreender adequadamente. Diante da incompreensão, vem a tônica de vício, descontrole ou patologia.

Unlike most compulsions, teens are not less social when they engage deeply with social media. On the contrary, their participation in social media is typically higly social (…) Teen ‘addiction’ to social media is a new extension of typical human engagement (p. 80).

Mas quando estar junto não é exatamente possível…

Um outro ponto curioso, contudo, chama a atenção: alguns dos relatos trazidos por Boyd ressaltam a dificuldade ou impossibilidade da interação tête-à-tête, os quais acabam por revelar, por parte dos adolescentes pesquisados, um desejo de encontro presencial com seus pares. Ou seja, querem estar juntos, mas nem sempre isso é possível, e essa impossibilidade por vezes é ocasionada pelas próprios pais. E essa relação conflituosa ironicamente acaba gerando o aspecto de vício do qual esses últimos reclamam.

Se esse desejo é mais forte ou recorrente em dada época da vida, isso não fica claro (nem é o objetivo da autora fazer tal discussão). O que se percebe é que ele está ali, pelo menos discursivamente, mas é abafado por diversas razões. A principal delas está na inviabilidade de locomoção. Ou seja, ir e voltar para casa acabam sendo etapas de alto custo, ou mesmo perigosas. O discurso do medo – tomando corpo sob a forma do perigo das ruas, da obsessão pela segurança, o temor por desconhecidos – acaba surgindo como plano de fundo diante do que é falado pelos jovens. De fato, faz sentido: citando o trabalho de Gill Valentine (Public Space and the Culture of Childhood), Boyd nos mostra como a preocupação dos pais quanto ao “estranho” acabou privando a infância norte-americana dos espaços públicos, em geral associados ao medo e ao perigo.

Parks and other public spaces are consistently demonized as spaces where unseemly sexual conduct takes place after dark (p. 103)

Muito dessa dificuldade de locomoção parece ser típico do contexto norte-americano: as cidades dos EUA, em geral, cresceram priorizando o carro como principal meio de transporte, e mesmo o modo como os arranjos urbanos se deram carrega consigo um espraiamento de relações e círculos sociais. Ou seja, mora-se num bairro, estuda-se noutro, trabalha-se num terceiro. O resultado, ainda que não estabeleça uma relação de causa para o uso intenso de conexões com a internet, pode prover um embaraço ou certa dificuldade na mobilidade daqueles que ainda não chegaram à fase adulta ou que ao menos não conquistaram certa independência para ir e vir sozinhos.

A tônica geral dos jovens entrevistados por Boyd vai na linha da decepção: uma das garotas fala como gostaria de poder se encontrar com seus amigos presencialmente. Mas como nem sempre isso lhe é possível (seja pelo temor de seus pais, seja pela inviabilidade de transporte público em certos horários), acaba tendo o Facebook como uma solução paliativa: para ela e seus amigos, a rede é apenas uma forma de estarem conectados, conversando e congregando símbolos e assuntos em comum. Enquanto isso, contudo, os pais acreditam que seus filhos estão diante de certa obsessão por computadores ou internet.

Vale ressaltar, contudo, que em nenhum momento Boyd apresenta uma leitura de causa e consequência: ou seja, nem a internet aumenta a violência das ruas ou o medo dos pais, nem o perigo do espaço público aumenta o uso da internet. Nenhuma dessas assertivas poderia ser afirmada com total certeza. Por outro lado, o que se percebe é a alternativa buscada pelos jovens atenua a distância entre seus pares, o que não sana todos os problemas – os quais, para os adolescentes, nesse caso, estão concentrados na inviabilidade de encontro presencial quando assim desejarem. Além disso, a pesquisadora não chega a se ater nos usos e apropriações de dispositivos móveis, os quais, a distância ou face a face, trariam, potencialmente, outras dinâmicas e formas de percepção do estar junto, dos espaços públicos praticados pelos jovens e ainda na forma como se conectam e agem pela rede.

Diante do que vemos factual, várias perguntas surgem como desafios: como o encontro presencial e a prática de espaços públicos é reconfigurada pelo uso de dispositivos móveis conectados, a exemplo do celular? A violência das cidades brasileiras seria um impedimento para o encontro presencial? Que estratégias jovens dos contextos urbanos criam para se encontrar e congregar face a face? Como suas redes e dispositivos são usados nessas relações?

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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