Comportamento em Lugares Públicos | Capítulo 4 | Engajamentos acessíveis

9Fronteiras de Comunicação

Goffman, nos capítulos anteriores, sugere que a iniciação de um engajamento entre conhecidos e não conhecidos é regulado voluntariamente tanto por aqueles que buscam o contato comunicativo, quanto por aqueles que o evitam. Na parte IV do livro,o autor propõe examinar as regulamentações que se aplicam a um engajamento de face depois que ele se formou,  mas apenas quando há espectadores na situação (pessoas presentes que não são membros ratificados no engajamento).

1-    Fechamento Situacional Convencional

Nesse tópico Goffman trata das barreiras comunicativas de uma situação. As barreiras comunicativas criam, entre membros da comunidade que se comportam apropriadamente, a possibilidade de um fechamento situacional convencional, na ausência de um fechamento físico real. O autor reconhece os arranjos sociais que restringem a comunicação a uma parte especial da fronteira física, tais como portas, e que levam as pessoas dentro e fora da região a agir como se a barreira cortasse mais da comunicação do que realmente corta.

2-    Engajamentos acessíveis

Quando um engajamento de face exaure uma situação – todas as pessoas presentes são participantes autorizados do encontro. A esses participantes o desafio será o de manter uma atividade organizada durante o engajamento: tempo de fala, tópico de conversa, inibição de hostilidade, e assim por diante.  Já quando há pessoas presentes que não são participantes no engajamento, sabemos que elas inevitavelmente estarão em uma posição de aprender algo sobre os participantes  do encontro e ser afetadas por como o encontro será conduzido.  Para Goffman o engajamento de face que ocorre em uma situação que contém espectadores é acessível.

Sempre que o engajamento de face for acessível a não participantes haverá uma participação completamente compartilhada e uma não compartilhada. Em um ajuntamento em geral, todas as pessoas estão imersas em um conjunto comum de interação desfocada, onde cada pessoa, por sua mera presença, modos e aparência transmite alguma informação sobre si mesma para todos da situação, ao mesmo tempo em que recebem informações dos outros presentes. Essa possibilidade de comunicação amplamente disponível, e as regulações, que transformam uma mera região física no local de uma entidade sociologicamente relevante, a situação.

3-    Fechamento de engajamento convencional

Por definição, um engajamento acessível não exaure a situação; não há fechamento físico, situacional ou convencional, para cortá-lo de não participantes.Porém, nos obrigamos enquanto participantes ou espectadores a agir como se o engajamento estivesse bloqueado do resto da situação, ou seja, encontramos um “fechamento de engajamento convencional”. Goffman destaca alguns dos elementos de organização social que esse fechamento causa:

a)    Desatenção civil – projeta a encontros e não para indivíduos. Os espectadores evitam explorar a posição comunicativa em que eles se encontram e dar uma expressão visível de que sua atenção está voltada para ou lugar ou tarefa para os participantes de engajamento.
b)    Cooperação tácita para manter o fechamento convencional – visando manter a integridade do encontro os participantes e espectadores precisam moldar suas palavras e ações (assuntos, tom da fala, conferir desatenção civil, etc.)
c)    Apresentação para uma participação oficial –  Goffman chama atenção para que o cuidado que um espectador é obrigado a exercer com encontro acessível vai além da desatenção civil, incluindo também a questão de como e quando ele pode se apresentar para uma participação oficial.
d)    Espaçamento – tendência de uma unidade de participação na situação – ou engajamentos de face ou indivíduos desengajados – de se distribuírem cooperativamente no espaço disponível para que fisicamente se facilite o fechamento convencional.
e)    Reestruturação da situação – Goffman investiga como  um situação pode se transformar de uma com muitos encontros – uma situação multifocada- em que uma que se limite a um único engajamento que tudo abrange.  O autor utiliza como exemplo, a hora de um almoço em uma enfermaria e a apresentação de um casal recém chegado para todos os convidados de uma festa.

10 – A regulação do envolvimento mútuo

1-    Restrições

No tópico, Goffman trata das restrições quanto ao modo em que indivíduos em um encontro acessível podem se entregar apropriadamente um ao outro – envolver-se em envolvimentos mútuos que estão expostos a espectadores, com o objetivo de examinar o que os participantes do encontro devem ao ajuntamento em geral. O autor chama atenção para as diferenças intrusivas em ocasições sociais em relação a envolvimentos mútuos permissíveis, ou não.

2-    Envolvimento mútuo ocasionado

O indivíduo pode ocasionalmente ser obrigado a se abrir para envolvimentos mútuos, mas ele não deve fazer isto meramente baseado em relacionamentos prévios, e sim na ocasião presente. Goffman destaca que haverá momentos em que o sucesso de uma ocasião social como uma festa é expresso através do sucesso dos participantes em seus encontros compatíveis para absorvê-los. Tal absorção prova que cada pessoa presente é um companheiro desejável, e que a ocasião é considerada significativa o bastante.

3-    Deriva

Assim como é provável que uma ocasião social como um todo manifeste um “contorno de envolvimento”, carregando todos os encontros que abrange em uma direção de desenvolvimento, também cada encontro particular pode manifestar propriedades dinâmicas específicas, gerando não apenas um mundo para seus participantes, mas também os carregando cada vez mais para dentro dele.  Visando compreender o fenômeno da deriva, Goffman apresenta um questionamento: até que ponto podem os participantes de qualquer um destes pequenos círculos permitir que seu envolvimento mútuos os carregue para longe das outras pessoas na situação?

4-    Proteção

A dificuldade em mantermos contato com a ocasião social enquanto ao mesmo tempo nos tornamos espontaneamente envolvidos em engajamentos situados é freqüentemente reduzida através da arte da ocultação. Para Goffman, parece haver poucos aglomerados de conversação em que o controle da expressão facial e corporal não seja empregado para esconder ou uma indiferença ao conteúdo do encontro ou uma deriva inapropriada ao espírito da ocasião. Somado a isso, temos ainda a possibilidade de proteger o conteúdo conversacional do ajuntamento como um todo, removendo a ameaça de círculos menores ao círculo inclusivo maior.

Lisi Barberino

É mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Produção em Comunicação e Cultura e atualmente pesquisa linchamento virtual em sites de redes sociais.

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