Comportamento em Lugares Públicos | Capítulo 3 | III – Interação Focada

6 – Engajamentos de face

 No terceiro capítulo, Goffman analisa a interação focada, tratada como aglomerado de indivíduos que estendem uma licença comunicativa especial mutuamente e sustentam um tipo especial de atividade mútua que pode excluir outros presentes da situação. O capítulo é dividido em quatro seções: Desatenção civil, A estrutura dos engajamentos de face, Acessibilidade e Direitos de Partida.

1) Desatenção civil

A desatenção civil é proposta aqui como um aviso que uma pessoa dá a outra para demonstrar que ela compreende que a outra pessoa está presente e que a viu, e no momento seguinte retira sua atenção para expressar que a segunda não constitui um alvo de curiosidade ou atenção especial. Ao conferir a desatenção civil, o indivíduo implica que ele não tem razão para suspeitar das intenções dos outros presentes e nem razões para temer, ser hostil a eles ou tentar evitá-los. A desatenção civil é um ajuste tão delicado que pode facilmente sofrer evasões, como a utilização de óculos escuros, ou infrações, como encarar.

2) A estrutura dos engajamentos de face

Goffman aponta nesta seção que os engajamentos de face compreendem todas as instâncias de dois ou mais participantes numa situação juntando-se abertamente para manter um único foco de atenção visual e cognitiva: o que é sentido como uma atividade mútua, implicando direitos de comunicação preferenciais. Essas atividades podem ser papo furado, comensalismo, sexo, jogos, discussões formais ou serviços pessoais.

O autor traz ainda algumas definições relevantes:

• Ajuntamento completamente focado: apenas dois participantes na situação.

• Ajuntamento parcialmente focado: com mais de dois participantes, pode haver pessoas presentes excluídas do encontro e não engajadas.

• Ajuntamento multifocado: com mais de três pessoas presentes pode haver mais de um encontro na mesma situação.

• Unidade de participação: encontros ou participantes não engajados.

• Espectador: indivíduo que não é um membro ratificado do encontro.

Nesta seção, Goffman dedica-se muito à questão do olhar como importante ferramenta na interação focada em situações como expressão de alienação, contenção do olhar quando deseja-se evitar um encontro ou olho a olho para iniciação de um encontro.

Outros temas abordados foram: o Ethos (atmosfera do grupo), convenções espaciais (relevância da posição espacial dos indivíduos no encontro), interação (atividade que se dá do momento em que o aglomerado se forma até o momento em que ele se desfaz), diferenciação de direitos (há direitos que podem ser distribuídos diferentemente dentro de um encontro) e duração dos engajamentos.

O engajamento de face é uma unidade suficientemente bem definida de forma que normalmente o indivíduo precisa estar totalmente dentro ou fora dele. Porém, há arranjos comunicativos que parecem estar no meio do caminho entre a mera co-presença e a participação total. O envolvimento em interação focada contribui para que a interação desfocada transmita algo para todos os que estão presentes na situação.

Goffman finaliza a seção afirmando que ser trazido para o engajamento por outra pessoa é ser colocado na posição de ser socialmente identificado da forma que o outro é identificado, visto que outros julgam os indivíduos socialmente pela companhia com a qual ele é visto.

3) Acessibilidade

Nesta seção, Goffman explora o fato de que em toda situação os presentes deverão manter alguma prontidão para eventuais engajamentos de face, havendo muitas razões importantes para que o indivíduo responda a esses pedidos. Há obrigações e perigos em se manter disponível para engajamentos; assim como há boas razões para que um indivíduo permaneça disponível, também há boas razões para que ele tome cuidado com isto. Quando uma pessoa se abre para conversar com outra, ela se abre também a pedidos, ordens, ameaças, insultos e informações falsas.

Há um contrato de comunicação implícito em que uma pessoa pode deixar-se disponível para outras na expectativa de que elas conterão suas chamadas sobre sua disponibilidade e não a farão pagar um preço alto demais por estar acessível.

4) Direitos de partida

Aqui Goffman aponta que assim como o indivíduo é obrigado a não explorar a acessibilidade de outros, ele também é obrigado a liberar aqueles com os quais está engajado, se parecer que eles desejam ser liberados. Porém, os direitos de partida que o indivíduo merece e a regra de partida diplomática que os participantes remanescentes merecem podem estar em conflito mútuo.

7 – Conhecimento

Goffman inicia o capítulo conceituando reconhecimento como quando dois indivíduos podem identificar pessoalmente o outro através de conhecimento que distingue este outro de todas as outras pessoas, e quando um indica para o outro que este estado de informação mútua existe. Posteriormente, Goffman conceitualiza o conhecimento como um aspecto de todas as relações sociais construídas sobre identificação pessoal mútua.

O autor começa a tratar da instituição do conhecimento especificando dois usos do senso comum do termo “reconhecimento”. (1) Reconhecimento cognitivo: processo através do qual o indivíduo localiza ou identifica o outro, ligando sua visão a um esquema de informação a seu respeito. Assim, o reconhecimento cognitivo é o processo pelo qual identificamos social ou pessoalmente o outro. (2) Reconhecimento social: processo de acolher abertamente o início de um engajamento, como quando se devolve uma saudação ou sorriso. O reconhecimento social é um olhar que funciona especificamente como um gesto cerimonial de contato com alguém. Para realizar certas formas de reconhecimento social é necessário que os participantes se reconheçam cognitivamente.

Para tratar das formas de revelar a força da obrigação de dar reconhecimento social às pessoal que se conhece, Goffman discutiu sobre o “corte” – tabu que nega bruscamente uma abertura de encontro. Cortar alguém é expressar a falta de respeito pelo ajuntamento em geral, é exibir uma insensibilidade flagrante à solidariedade mínima que o ajuntamento exige de todos os seus participantes. É relevante destacar o apontamento do autor para o fato de que o caráter físico de muitas interações sociais tem uma influência na discrepância entre o que se pretende fazer e o que inconscientemente se começa a fazer.

Goffman trata também das duas formas como o conhecimento pode se desenvolver: (1) Conhecimento informal: como quando pessoas que trabalham no mesmo lugar acabam se conhecendo e gradualmente admitem isso umas às outras, de forma que se conhecer se torna conhecer, ou ainda através da participação conjunta no mesmo encontro. (2) Conhecimento formal: como quando dois indivíduos são apresentados por um terceiro ou por eles mesmos. O conhecimento formal deve ter um efeito permanente.

Goffman complementa que se o conhecimento coloca os indivíduos num relacionamento comunicativo preferencial, podemos entender que as pessoas evitam lugares e ocasiões onde apresentações problemáticas tem mais chance de acontecer. E enfatiza aqui a relevância da apresentação, em que o apresentador pode sentir uma obrigação de ter certeza de que nenhum mal resultará do novo relacionamento.

8 – Engajamentos entre os que não se conhecem

Para iniciar o capítulo sobre engajamentos entre os que não se conhecem, Goffman coloca que, em regra geral, pessoas conhecidas em uma situação social precisam de uma razão para não entrar em um engajamento de face uma com a outra, enquanto pessoas que não se conhecem precisam de uma razão para o fazer. E coloca ainda que em ambas as situações o bem estar do indivíduo não deve ser colocado em perigo devido à sua capacidade de se abrir para encontros.

Neste capítulo, Goffman trata de circunstâncias sob as quais algum tipo de engajamento entre os que não se conhecem é permissível, e às vezes até obrigatório, conforme veremos a seguir:

1) Posições expostas

Em algumas posições, o indivíduo é obrigado a estar pronto para ser abordado por outros que não conhece. Tal fato pode ocorrer devido a diversos fatores: (1) Função: indivíduo é obrigado a estar disponível para engajamentos devido a seu emprego diário, como por exemplo, vendedor, policial, sacerdote. (2) Estatutos: há estatutos amplos em nossa sociedade, como idosos ou crianças, que são julgados como pessoas que não tem nada a perder com engajamentos de face e por isso podem ser abordadas a vontade. (3) Fora de papel: quando o indivíduo não está engajado em seus próprios papéis haverá menos razão para se tomar cuidado com ele em termos comunicativos. Temos como exemplo pessoas embriagadas ou fantasiadas. (4) Necessidade de ajuda: se um indivíduo tem necessidade evidente de ajuda e esta ajuda é de pouca conseqüência para um possível doador, então satisfazer tal necessidade fornece uma base insuspeita para iniciar o contato. Por exemplo, quando um indivíduo derruba algo na rua sem perceber, ele se expõe à abertura. (5) Ações que criam necessidades: as ações de um indivíduo podem criar necessidades em outros que o expõem a engajamentos. Por exemplo, se uma pessoa tropeça em outra, ela pode engajá-la para oferecer ajuda.

2) Posições de abertura

São indivíduos que tem uma permissão embutida para abordar outros. Temos como exemplo pessoas que são responsáveis por gerenciar ou proteger a entrada para ocasiões sociais.

Engajamentos com estranhos não acontecem somente quando o engajamento é vantajoso para a pessoa abordada, eles podem acontecer para justificar a satisfação de necessidades gratuitas. Assim, as pessoas podem abordar outras para pedir a hora, um fósforo ou uma orientação. Da mesma forma, se um indivíduo se encontra em uma posição onde ele realmente precisa que suas desculpas ou explicações sejam aceitas, ele tem um certo direito de engajar outros.

3) Abertura mútua

Nesta seção, Goffman trata de circunstâncias sob as quais indivíduos que não se conhecem podem se abrir mutuamente, tendo ambos o direito de iniciar e o dever de aceitar um encontro com o outro. São elas: (1) Pertencimento ao mesmo grupo: há acessibilidade mútua no elemento de informalidade e solidariedade que parece valer entre indivíduos que podem se reconhecer como pertencendo ao mesmo grupo, principalmente, se este grupo sofre desvantagens ou é ritualmente profano. (2) Ambas as pessoas se encontram em uma posição ao mesmo tempo exposta e de abertura. (3) Regiões abertas: lugares demarcados fisicamente onde quaisquer duas pessoas, que se conheçam ou não, tem o direito de iniciar engajamento de face.

4) Evasões e infrações

Nesta seção Goffman trata das artimanhas para evitar as regras e realizar objetivos proibidos em segurança, tendo em vista os ganhos que podem ser obtidos com o início inapropriado de encontros e a penalidade ligada a participar dessas impropriedades.

Uma das impropriedades mais significativas trata da abordagem nas ruas, como por exemplo, os vendedores ambulantes e mendigos, denominados pelo autor como “pessoas ilegitimamente de abertura”.

5) Contracontrole

Nesta seção Goffman analisa os meios de controle social criados não para alterar o padrão de mau comportamento do infrator, e sim para permitir que uma vítima em particular escape da privação causada pela ofensa.

Uma delas é a “contorção final”, em que o receptor que não deseja a abertura relutantemente volta sua atenção ao orador, dá uma resposta evasiva e se volta para o outro lado o mais rápido possível. Dado o fato de que as pessoas importunadas tentem evitar os importunadores, podemos esperar que os importunadores tentem contra-atacar este contragolpe.

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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