Comportamento em Lugares Públicos | Capítulo 2 | II – Interação Desfocada

3 – Envolvimento

1)      Idioma do corpo

No segundo capítulo, Goffman aprofunda o entendimento de um dos componentes do comportamento comunicativo: a interação desfocada. Inicia a abordagem falando sobre como o corpo comunica, ou seja, a comunicação não verbal. Todos os sinais expressivos do corpo funcionam como base da interação desfocada por transmitirem informações sobre o ator para os presentes no ambiente.
A linguagem do corpo fica entendida como atos expressivos com mesmo significado para o ator e para a testemunha, em geral gerenciado pelo ator, mas que mantém certa impressão de espontaneidade e permite ao ator negar seu significado caso seja questionado.
Por fim, aponta que numa sociedade dificilmente alguém será capaz de empregar toda a linguagem corporal expressiva, contudo todos possuirão algum conhecimento/ entendimento sobre o vocabulário de símbolos do corpo e esta seria uma das razões para serem vistos enquanto sociedade.

 

2)      Envolvimento

Goffman questiona: Qual a informação contida na linguagem corporal? Na tentativa de responder a esta questão, o autor parte do conceito de atividade ocasionada definida como atividades apropriadas para as situações sociais regidas por uma ocasião social. Perpassa pelo conceito de envolvimento do indivíduo com a atividade e a forma com que lida com ela até alcançar o termo envolvimento dentro da situação (forma pela qual o indivíduo lida com suas atividades situadas). A partir desta definição não mais trata de linguagem do corpo, por que esta não está apenas no físico e utilizará agora linguagem de envolvimento, já que esta transmite informação sobre a alocação de seu envolvimento e carrega referências culturais internas da sociedade (p.47).

 

3)      Escudos de envolvimento

Neste subtópico, o autor visa examinar o que é envolvimento efetivo “o envolvimento que o ator e os outros sentem que aquele está mantendo, ou sentem que aquele está (ou pode estar) sentindo que mantém” (p.48). Entendendo que os sinais deste envolvimento precisam ser percebidos para que sejam significantes, os indivíduos se utilizarão de bloqueios a essa percepção visando proteger-se de correções ao seu comportamento. Estas barreiras são tituladas de escudos de envolvimento.
O comportamento situacional pode ser mantido pelo indivíduo, mesmo quando sozinho ou ausente da situação, justamente pela sensação de que esta proteção pode ser quebrada em algum momento (p.51). A utilização ou não destes abrigos, quando podem fazê-lo, expressa o grau de envolvimento do indivíduo com a situação ou seu desprezo por ela e suas normas.

 

4 – Algumas regras sobre alocação do envolvimento

Goffman retoma a reflexão sobre o conceito de envolvimento, de forma geral, e o divide em principais e laterais, sendo estes relacionados à atenção, interesse e automatismo do envolvimento. Acrescenta a diferenciação dos envolvimentos dominantes e subordinados que se relacionam a prioridade. Estas categorias de envolvimento podem ser combinadas de algumas maneiras (e.g. alguns envolvimentos dominantes podem ser mantidos de forma automática/lateral). É importante também compreender que um envolvimento dominante num momento pode ser definido como subordinado em outro.

 

1)      O gerenciamento de envolvimentos subordinados

O autor aborda como o indivíduo lida com os envolvimentos subordinados e sua importância na situação. Destaca que a linguagem de envolvimento subordinado varia de um grupo cultural a outro; questões como idade, grau de instrução ou gênero terão diferentes tipos de envolvimentos subordinados disponíveis e dentre estes observarão os toleráveis por cada ajuntamento social. Goffman acrescenta que geralmente as regras para envolvimentos subordinados são muito explícitas (e.g. a manutenção do silêncio em bibliotecas).
Tendo em vista que um envolvimento subordinado fornece uma distração do eu em relação a um envolvimento dominante, o indivíduo pode utilizar-se desta característica para demonstrar um grau de envolvimento menor com a situação.

 

2)      Obrigações relacionadas a envolvimentos principais

Um envolvimento principal pode ser visto como preferencial ou obrigatório a depender de sua relação com a natureza da ocasião social, nestes casos será visto como envolvimento principal ocasionado. Em algumas situações, os indivíduos podem manter um envolvimento principal subordinado objetivando um futuro envolvimento dominante (e.g. ler revistas em consultórios médicos).
Goffman exemplifica com atitudes triviais do comportamento o equilíbrio necessário entre envolvimentos principais e laterais.  Em algumas situações sociais encontraremos pessoas que fingem/dissimulam estar envolvidas, mas que tem objetivos particulares (e.g. um cochilo numa biblioteca é permitido, contanto que o indivíduo finja ler).
O autor descreve o problema de manter um comportamento com envolvimento principal mínimo apropriado nas ruas, afim de não ser considerado um delinquente ou vagabundo.

 

3)      Margens de não envolvimento

Os desvios considerados anteriormente negam a dominação do indivíduo pela ocasião social e mesmo quando essa dominação acontece o ator tenta mostrar que ainda está no controle da situação, a fim de manter a impressão de não envolvimento. Mas algumas evidências podem entregar que o indivíduo desviou-se do foco principal e perdeu o controle.

 

5 – Algumas regras sobre os objetos de envolvimento

Goffman inicia este tópico pontuando os desvios tratados anteriormente e contextualizando que falará dos mesmos comportamentos só que a partir da perspectiva do objeto do envolvimento.

 

1)      Autoenvolvimentos

Definido como atividades de envolvimento do indivíduo com o próprio corpo ou com um objeto associado com seu corpo, em geral, são percebidos como envolvimentos laterais subordinados (e.g. pintar as unhas enquanto assiste Tv). O autor destaca que o autoenvolvimento na presença de outros pode ser considerado inapropriado, já que envolve ajustes à aparência (comportamento de arrumação), autoestímulos prazerosos (masturbação) e liberações de natureza animal (arrotar, coçar), que em geral devem ser feitos sob escudos de envolvimento.

 

2)      Distante

Comportamento de emigração interna do ajuntamento ou devaneio, também chamado, por Goffman, de Away. O indivíduo se distancia da situação por algum artifício, mas retorna sem problema. O autor pontua tipos de distanciamento (1) distância meditativa (2)solilóquios ou falar consigo mesmo (3)distanciamento por atividade fantástica/rabiscar. Por fim associa estado de distância com algumas liberações animais impróprias.

 

3)      Envolvimentos ocultos

Comportamento com características de não estar presente e de não poder se readaptar prontamente ao ajuntamento. Característico de indivíduos com alucinações e estados delirantes, porém se o indivíduo comum for flagrado neste estado, mesmo que momentaneamente, ele mudará sua performance a fim de proteger sua reputação. Por fim, aborda as diferenças culturais para afastar o conceito de envolvimento oculto do que não é aceitável apenas em determinado grupo.

 

Karla Cerqueira Freitas

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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