Comportamento em Lugares Públicos| Capítulo 1 |I – Introdução

I – Introdução

1 – Problema

Erving Goffman, no capítulo 1 de Comportamento em Lugares Públicos, inicia o tópico apresentando o objetivo do trabalho: desenvolver um estudo sobre o comportamento social em lugares públicos e semi-públicos a partir da análise de dados obtidos em dois estudos (1) Hospital Central (2) Ilhas Shetland e outra parte retirada de manuais de etiqueta. O autor destaca que suas interpretações tem como referência a classe média de algumas regiões dos Estados Unidos e esta delimitação torna conciso o uso de tais manuais, já que influenciam a conduta desta classe. Contudo, destaca que os manuais são um mero catálogo de propriedades em vez de uma análise do sistema de normas que sustenta essas propriedades.

O autor distingue atos aprovados e atos considerados inapropriados, mas destaca problemas nesta distinção; a saber, que o próprio conceito de aprovação atinge uma série de variáveis, que quando comparadas duas situações podem ter significados diferentes. Goffman apresenta, sucintamente, dois modelos conceituais de sistema de comportamento (natural fechado e jogo) a fim de diferencia-los do esquema que se propõe empregar o modelo de ordem social, o qual define como “a consequência de qualquer conjunto de normas morais que regulam a forma com a qual pessoas buscam atingir objetivos”. Acrescenta que existem vários tipos de ordens (e.g. legal, econômica) e que os atos concretos poderão ser realizados de acordo com combinações destas regulamentações. Atendo-se, neste estudo, apenas as regulamentações que regem como uma pessoa lida com si mesma e com os outros durante sua copresença física imediata (interações face-a-face).

Ao tratar de interações, Goffman destaca as diferenças entre lugares públicos (livre acesso) e privados (restritos) e acrescenta que utilizará estes conceitos para o estudo de ajuntamentos “todas as ocasiões em que duas ou mais pessoas estão conscientes da presença da(s) outra(s) podem ser tratadas adequadamente, de início, como uma única classe”(p.19). Diferentes agrupamentos sociais terão variações sobre o que se considera apropriado a cada situação e os indivíduos podem se conduzir de uma forma particular somente por causa da pressão sentida quanto à adequação. O autor conclui o tópico levantando duas questões (1) Por que esta forma particular de conduta é aprovada? (2) Qual é sua função social atual?

    2- Definições Introdutórias

Neste tópico, Goffman apresenta conceitos úteis para prosseguir suas reflexões. Inicialmente, diferencia as mensagens enviadas e emitidas, mas se atem a utilizar os termos mensagens linguísticas (voluntárias e intencionais) e expressivas (espontâneas e involuntárias). Desta forma, no que toca as interações, as informações que estiverem relacionadas diretamente com a atividade corporal serão entendidas como incorporadas e aquelas que forem recebidas na ausência do corpo como desincorporadas. O autor relembra que este estudo preocupa-se apenas com as informações incorporadas, já que são as apresentadas nas interações face a face.

Goffman cita duas características da interação face a face (1) riqueza no fluxo de informações – as mensagens carregam muita informação adicional, que podem ser coletadas sem o conhecimento do emissor e (2) facilidade de retroalimentação – cada emissor é também um receptor e cada receptor é um emissor.  Retoma o conceito de ajuntamento para compor o entendimento de situação  “ambiente espacial completo em que ao adentrar uma pessoa se torna um membro do ajuntamento que está presente” ou constitui um novo. (p.28)

As situações e seus ajuntamentos podem se formar, acabar ou reformar, mas geralmente regidos por um padrão de comportamento estabelecido dentro de um acontecimento social amplo, a ocasião social. As ocasiões sociais se dividem em recreativas, sérias ou regulares e a relação estabelecida entre a situação social e a ocasião social estabelece o tom do ajuntamento que ocorre nela. Quando duas ocasiões sociais acontecem no mesmo espaço físico, as situações sociais que ocorrem nestes ambientes sustentam ajuntamentos que possuem um tipo especial de “desorganização normativa”. O autor deixa claro seu interesse apenas pelo aspecto situacional que trata da atividade situada, ou seja, as atividades que ocorrem dentro dos limites físicos de uma situação.

Mais a frente no texto, Goffman pontua que quando as pessoas estão conscientes da presença de outras, elas podem passar de meros instrumentos físicos para também instrumentos comunicativos. O comportamento comunicativo destes indivíduos é composto de duas etapas (1) interação desfocada – obtenção de informações a partir do gerenciamento da copresença e (2) interação focada – quando pessoas se juntam e cooperam abertamente num foco de atenção. Para os casos em que indivíduos inclusos numa mesma situação não interagem utiliza-se o termo ajuntamento desfocado.

Nas páginas 35 e 36, Goffman trata das implicações expressivas da aparência pessoal (e.g. roupas, postura) e da forma como o gerenciamento desta aparência demonstra engajamento com o ajuntamento em que o individuo se encontra. Além destes elementos componentes do porte pessoal, o autor acrescenta a composição apropriada do rosto como implicação expressiva. Por conseguinte aborda as implicações do declínio do físico e a sensação da falta de presença na interação, mesmo que o indivíduo esteja fisicamente na situação. Conclui o capítulo sintetizando a análise “se o indivíduo quiser estar na situação totalmente capacitado socialmente, será preciso que ele mantenha certo nível de prontidão como evidência de sua disponibilidade para possíveis estímulos, e alguma disciplina e organização de sua aparência pessoal como evidência de que ele está alerta ao ajuntamento” (p.40).

Karla Cerqueira

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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