“Coisas de Brincar”: nota sobre os usos (pretensamente ‘inadequados’) das tecnologias digitais pelas crianças

Entre as preocupações mais comuns em relação à infância que vemos circular na cena social contemporânea, pairam as, cada vez mais frequentes, acusações sobre usos inadequados dos dispositivos tecnológicos, sobretudo os smartphones por parte das crianças. A inúmeras queixas variam sobre o enorme tempo gasto com estes aparelhos, a imersão exagerada, o sedentarismo, o isolamento social, a dificuldade de deixar o celular de lado para realizar outras tarefas, a produção de comportamentos violentos e, claro, o constante perigo de um suposto e provável ‘vício’ em tecnologias.

No entanto, a maioria esmagadora destes discursos amedrontados, construídos em torno de uma atmosfera de medo ambiente (BAUMAN, 1998) ricamente incentivada e divulgada pelos veículos de comunicação de massa e outras mídias, não leva em consideração os olhares e entendimentos dos sujeitos diretamente apontados: as próprias crianças desta era conectada. Não levam em consideração também, que os mesmos adultos que proferem estes discursos e levantam estes questionamentos, comumente o fazem a partir de dispositivos tecnológicos conectados à internet – muitas vezes dos seus próprios smartphones – dos quais, também realizam usos nem sempre adequados.

No entanto, se ouvirmos com atenção e um pouco mais de abertura o que crianças têm a dizer sobre si, suas culturas e sobre os usos e apropriações que fazem dos dispositivos tecnológicos, perceberemos que nossas acusações, em sua maioria, estão apontadas para o nosso próprio espelho. Explico: grande parte dos usos inadequados que percebemos e assinalamos nas crianças e adolescentes são, no fundo, os nossos usos, as nossas práticas inadequadas, os nossos próprios exageros diante de um artefato que ainda nos causa tanto admiração, quanto estranheza.

E sim, crianças aprendem. Crianças e adolescentes são excelentes aprendizes de comportamento. E são excelentes aprendizes de valores. Então, a primeira pergunta que se coloca diante de nós é: que valores e comportamentos estamos ensinando para as crianças com nossas práticas cotidianas? Desde aquela chamada básica do seu filho: “Mãe, olha o desenho que eu fiz!” ou “Pai, sabe aquele menino da escola? Pai? Você está me ouvindo?!”, tão banal e cotidiana, que ignoramos enquanto conferimos o último meme sobre a situação política do país ou enquanto trocamos ideias (ou farpas) pelo Whatsapp. O que é mais importante, onde deve estar o foco principal de nossa atenção, o tempo de começar e de interromper uma atividade, o nível de imersão considerado adequado, quem ignorar e a quem responder na cena social, os modos como responder; tudo isso, as crianças aprendem conosco. Assistindo-nos em nossas performances cotidianas aparentemente silenciosas. Aparentemente. Pois nosso silêncio soa em gritos aos ouvidos destes aprendizes.

Apesar disso, mesmo tendo uma geração de adultos-modelo tão controversa quanto como a nossa, as crianças não reproduzem fielmente tudo aquilo que veem (Ufa!). As apropriações infantis dos valores, signos, normas e práticas culturais que percebem ao nos observarem são ressignificadas, reelaboradas e recriadas (comumente dentro dos inúmeros episódios de brincadeira entre pares), num processo que Corsaro (2011) denominou ‘reprodução interpretativa’. Segundo este autor, através da brincadeira e dos grupos de brinquedo, as crianças apreendem criativamente informações do mundo adulto para produzir suas culturas próprias e singulares. A reprodução interpretativa nos fornece importantes pistas para compreendermos o papel da criança como agente ativo de mudança cultural através da construção e manutenção da sua cultura de pares.

E é este papel social que os grupos infantis possuem – de ressignificação, recriação e mudança cultural por meio de suas atividades lúdicas – amplamente negligenciado pela sociedade adulta, que talvez seja a peça-chave para nos apontar saídas mais saudáveis no tocante aos usos e apropriações das tecnologias digitais. Isto porque, diferentemente do lugar funcional e quase insubstituível que nós, adultos, colocamos os dispositivos tecnológicos em nossas rotinas, para as crianças, as tecnologias são apenas ‘coisas’. Apenas mais uma, entre as tantas coisas disponíveis em suas vidas cotidianas. “Mas são coisas perigosamente atrativas para as crianças”, alguns diriam. Será? Não é exatamente esta a percepção das crianças sobre este fenômeno. Será que as estamos ouvindo o suficiente?

Para as crianças, os dispositivos tecnológicos são apenas ‘coisas’ de brincar. Coisas, como papel, lápis, bola, boneca, gravetos, pedrinhas, panos… “Se vocês dessem lápis e papel pra gente desenhar, a gente desenhava. Mas vocês dão tablets e celulares. Aí a gente usa isso e se diverte também!” – disse uma menina de nove anos, participante da minha pesquisa de doutorado sobre apropriações criativas das tecnologias digitais pelos grupos infantis, em 2016. E contrariamente ao que se insiste em divulgar entre os adultos da nossa geração, as crianças não hierarquizam os artefatos apropriados nas suas brincadeiras, sejam eles tecnológicos ou não. Em outras palavras, a inserção das tecnologias nas rotinas lúdicas das crianças não provoca o abandono dos brinquedos e brincadeiras tradicionais. As apropriações criativas das ‘coisas de brincar’, ocorrem de forma híbrida e sobreposta, dotando a brincadeira de um caráter altamente inovador que une dispositivos tecnológicos e analógicos num mesmo episódio lúdico, transformando-o numa unidade emninentemente híbrida, marcada pelo continuum online-offline (BECKER, 2017).

O que parecia óbvio, estava ali, escancarado bem na minha frente nas conversas com as crianças durante este trabalho de investigação. O problema não está na coisa em si, mas no uso adequado ou inadequado da coisa. No exagero do uso da coisa. De qualquer coisa, afinal. Isto não se aplica somente ao universo dos dispositivos tecnológicos. Nenhum exagero é saudável para o desenvolvimento, sabemos. Nada de novo sobre isso. E as crianças têm demonstrados usos altamente saudáveis e criativos das ‘coisas tecnológicas’ dentro dos seus episódios de brincadeira.

Mas, apesar de evidente, há algo que ainda parece ser pouquíssimo compreendido por pais, educadores e profissionais da saúde, cada vez mais alarmados com os perigos dessa ‘coisa tecnológica’: o uso de qualquer coisa é primordialmente aprendido. E como dissemos anteriormente, adultos ensinam usos, posturas e práticas adequadas (ou inadequadas) para tudo na vida. Dos ensinamentos mais aos menos explícitos como beber e dirigir, subornar agente de trânsito, bater para demonstrar desapontamento… adultos ensinam, cotidianamente, suas práticas.

E ensinam ainda mais quando não fazem nada. Quando se abstém da mediação dos usos das tecnologias e largam crianças de dois, três, quatro, cinco anos sozinhas, diante da tal ‘coisa tecnológica’, para descobrirem por si só, como aquilo funciona. Ensinam, quando utilizam as tecnologias como último recurso possível para manter uma criança calada e sem movimento no fim de um dia cheio, pois barulho e movimento (importantes indicadores de saúde desenvolvimental de uma criança) parecem ser altamente incômodos aos nossos ouvidos cansados da rotina contemporânea.

O que aprendi, ouvindo atentamente crianças nos últimos seis anos de pesquisa (BECKER, 2013, 2017), é que crianças gostam e querem brincar. Todo o resto elas suportam: realizar tarefas escolares, ir ao dentista, tomar banho, comportar-se bem em jantares entediantes, decorar orações e palavrinhas mágicas, sentar-se à mesa e segurar corretamente os talheres; mas, no fundo, crianças querem brincar – e brincar com seus amigos. E para isso, irão utilizar o que encontrarem pela frente, seja areia, sapato da mãe, gravata do pai, tampas de panela, aquele seu perfume importado, farinha, rolo de papel higiênico ou mesmo, tecnologias digitais. E o que define o que será apropriado pela criança é o episódio lúdico em si, e não uma suposta característica de atratividade intrínseca do artefato escolhido.

Diante disso, algumas outras importantes perguntas nos convocam a refletir: Estariam as crianças, de fato, ‘viciadas’ nos tais dispositivos tecnológicos em detrimento dos demais artefatos culturais que lhe estão disponíveis ou será que não estamos tornando-os disponíveis o suficiente em suas rotinas? E nós, estamos disponíveis o suficiente? Pois as ‘coisas de brincar’ são apenas assessórios de brincadeiras, e não brincadeiras propriamente ditas. Além disso, primordial, para as crianças é ‘brincar juntos’. E mais, em meio a rotinas tão preenchidas por atividades escolares e extraescolares, com tempos cada vez mais fragmentados e normatizados, onde estão os tempos de brincadeira livre? Estamos conseguindo assegurar estes tempos para as crianças? E os seus amigos, os seus companheiros de brincadeira, onde estão? Não estariam lá do outro lado daquele telefone celular que seu filho está usando sem parar, rindo e brincando, já que é impossível você levá-lo para encontrar com eles diante da correria da vida? Quem são, exatamente, estas crianças que estamos acusando de mau uso das tecnologias digitais, senão, nós mesmos?

Enquanto escrevia esta pequena nota reflexiva, percebo no sofá, a poucos metros de mim, algumas ‘coisas’ esquecidas pela minha filha mais nova, de doze anos, amante e usuária constante das tecnologias digitais: um bloco de desenho com um lápis e uma borracha e o seu smartphone com a tela ainda acesa; com o Youtube ligado num musical adolescente.

– Gabrielaaaa, onde você está? Você deixou um monte de coisas jogadas aqui no sofá!

– No banheiroooo… Deixa aí, mãeee. Deixa tudo aí que eu ainda estou usando.

– Mas está usando o quê, exatamente? O bloco de desenho ou o celular? – pergunto, impaciente com a bagunça, já supondo, diante da tela acesa, qual seria a resposta.

– Os dooooois… Estou desenhando uma cena do meu musical preferido. Deixa tudo aí, tá?

Olhei melhor para a tal ‘bagunça’ do sofá. Não era bagunça, era brincadeira. E Gabriela tinha razão: era mesmo tudo parte de uma coisa só. Híbrida, online-offline, flexível em suas fronteiras, como um típico episódio lúdico desta era conectada.

[Então, tá.]

Adultos… tão dicotômicos…


Coisas de brincar: Bloco de desenho, lápis, borracha e o smartphone de Gabriela, minha filha mais nova.


REFERÊNCIAS

BAUMAN, Z. O Mal-estar da Pós Modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

BECKER, B. Brincando na Web: atividades lúdicas desenvolvidas por crianças de cinco a 12 anos na internet. Dissertação de Mestrado. PPGPSI. Universidade Federal da Bahia/UFBA, Salvador, BA, 2013. https://pospsi.ufba.br/sites/pospsi. ufba.br/files/bianca _lepikson.pdf

BECKER, B. Infância Tecnologia e Ludicidade: a visão das crianças sobre as apropriações criativas das tecnologias digitais e o estabelecimento de uma cultura lúdica contemporânea. 289f. Tese de Doutorado. PPGPSI. Universidade Federal da Bahia/UFBA, Salvador, BA, 2017. https://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/23851

CORSARO, W.A. Sociologia da Infância. Porto Alegre: Artmed, 2011.

Bianca Becker

Bianca Becker é psicóloga. Doutora e Mestre em Psicologia do Desenvolvimento, linha de pesquisa Infância e Contextos Culturais, pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia – PPGPSI, da Universidade Federal da Bahia/UFBA. Membro do Grupo de Pesquisa em Interações Sociais, Tecnologias Digitais e Sociedade (GITS) e do Grupo de Pesquisa em Brincadeiras e Contextos Culturais (PPGPSI/UFBA). Desenvolve pesquisa sobre a brincadeira como fenômeno do desenvolvimento e prática/produto cultural em seus diversos contextos; com foco especial às relações lúdicas de crianças e adolescentes com as tecnologias digitais.

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