Capítulo 6: Alone Together

Capítulo 6 – Love´s Labor Lost

Sherry Turkle, neste capítulo, analisa o uso de robôs como forma de apoio para os idosos. Partindo da perspectiva das grandes empresas com interesse na venda de seus produtos e suas divulgações sobre a eficiência de suas máquinas, e passando para uma crítica do uso destas como meio terapêutico dos idosos.

Nesse processo de análise, a autora traz o posicionamento de uma enfermeira que critica o uso de tal ferramenta, afirmando que esta corrobora para a infantilização dos idosos, o que seria um grande retrocesso. Além disso, ainda relata o depoimento de familiares que asseveraram serem estes robôs responsáveis por um certo afastamento familiar, na medida em que se constatou que alguns idosos preferiram os robôs, com suas demandas simples, às pessoas e suas complexidades.

Apesar da ampla aceitação dos robôs pelos idosos e pela comunidade de enfermeiras, em geral, o que se constatou foi que a real atrativo nas sessões para aqueles era a chance de se encontrar com os assistentes de pesquisa inteligentes, gentis e atraentes que traziam os robôs.

A autora, em seguida, analisa o título de um simpósio realizado em 2005, “Caring Machines: Antificial Inteligence in Eldercare”. Assim, questiona os envolvidos qual seria o significado de tal título, se o que se queria demonstrar seria uma capacidade dos robôs em se importar com os idosos. Obteve a resposta de que a intenção foi afirmar que tais máquinas seriam responsáveis pelo cuidado com os idosos.[1]

Sherry logo afirma ser esse tipo de relacionamento entre humano e inteligência artificial, algo novo, aceito como uma nova forma de cuidado pela sociedade. Tal aceitação é criticada por esta que afirma que “nós pedimos para a tecnologia fazer o que costumava ser ‘trabalho de amor’.”

Passa, assim, a questionar o tipo de pessoas que estamos nos transformando ao delegar nossos entes queridos aos cuidados de robôs, para chegar a constatação de que , em verdade, tal ato de entrega dos idosos aos cuidados dessas máquinas é egoístico, na medida em que seria um meio de se aliviar da responsabilidade que elas seriam inerentes.

Sherry, por meio de seus estudos de caso, constata o potencial curativo dos robôs, como eles têm servido como meio terapêutico. Cita um dos envolvidos, inclusive, manifestando-se no sentido de que a comunicação com a máquina seria melhor do que a com os humanos quando se diz respeito a expressar os sentimentos e angústias mais profundas, uma vez que nela não encontraria julgamentos.

A autora, no entanto, salienta que apesar de um certo caráter terapêutico desses robôs, eles não seriam por si só suficientes. Essa conversa com estes, que em verdade serve como auto-reflexão e auto-expressão, seria apenas metade do processo terapêutico, faltando uma pessoa habilitada trabalhar nos sentimentos e angústias expostas.

Sherry irá contar casos envolvendo pesquisas feitas pelo roboticista Cory Kidd, demonstrando como os humanos podem responder de formas diferentes a robôs e agentes online. Em um dos casos, cita a relação de Rose – uma mulher de meia idade, que está lutando contra o peso durante anos de sua vida –, com o Robot Diet Coach. Em poucas semanas, Rose já havia nomeado seu robô de Maya e já a considerava com parte de sua família. No fim do experimento, quando Kidd teve levar o robô embora, Rose pediu para falar mais uma vez com ele e, na hora de partir, certificou-se se o robô estava bem acomodado no carro.

Outro experimento foi realizado com o professor Gordon. Diferentemente de Rose, Gordon tinha um perfil mais cético em relação à máquina e, após algum tempo, resolveu participar o experimento ao longo das seis semanas. No fim, ao responder o questionário de Kidd, Gordon questionou sentenças como “O sistema foi sincero…” ou “O sistema se interessou…”, pois, segundo o professor, isso tornava o robô algo além de uma simples máquina, ou seja, como se ela tivesse sentimentos (algo que para ele era inconcebível). Mesmo com todo o ceticismo e questionamentos, quando perguntado por Kidd se havia dado um nome para a máquina, Gordon sorriu e disse “Ingrid foi o nome que dei”. Neste momento, seu posicionamento em relação ao robô mudou e passou falar palavras como “ela” e “dela” durante a entrevista. Por fim, levou Kidd no novo local onde estava o robô (um quarto no qual ele poderia ter uma conversa privativa).

As histórias de Rose, Gordon, entre outros, demonstram diferentes estilos de se portar em relação aos robôs sociais e sugere, também, distintos estágios de relacionamentos com eles. Segundo Sherry, é comum as pessoas falarem com eletrodomésticos, som etc. Quando fazem isso com estes objetos, elas projetam seus sentimentos para eles, porém, com os robôs, por sua vez, há uma simulação de escuta que traz à tona a vulnerabilidade humana: a vontade de ser ouvido. Em casos de solidão, as pessoas experimentam essa nova forma de intimidade (com as máquinas sociáveis), porém, embora se sintam ouvidas, os robôs não as escutam realmente.

Sherry relata um experimento realizado com Edna, uma mulher de 82 anos que mora sozinha, com um My Real Baby. Quando a equipe de pesquisa chegou com o robô, Edna estava focada em sua bisneta Amy, conversando, brincando e dando presentes para ela. Após meia hora, a equipe deu o My Real Baby para Edna e sua atenção mudou. Após o bebê sorrir para Edna, sua forma de se relacionar com o robô se tornou mais direta e intima, realizando perguntas do tipo “Como você está?”, “Você é uma boa menina?” etc. Quando robô começou a chorar, Edna tomou o robô nos braços e tentou acalmá-lo, enquanto paralelamente sua bisneta tentava chamar a atenção e era ignorada. Neste caso de Edna com o My Real Baby, ela dá a impressão de querer estar sozinha (junto) apenas com o robô. O encanto com o robô terminou apenas quando Edna passou a ser entrevistada sobre o experimento, desse modo ela passou a dizer que o robô era feito para crianças e que não conseguira imaginar outras pessoas idosas gostando de uma “boneca” como essa. Aos poucos ela passou a sair da defensiva, respondendo que não se sentiu diferente da presença de um bebê de verdade, mas disse que achou assustador aquilo tudo, afinal, era um ser inanimado. Exemplos como estes demonstram como, embora algumas máquinas sejam utilizadas como forma de escape para a solidão de idosos, as vezes, eles mesmos (os idosos) relembram da importância de isso não se limitar apenas a robôs.

Sherry comenta que, quando começou a estudar a relação entre pessoas e computadores, ela viu programadores se relacionando com suas máquinas – como se estivessem intimamente conectados. A interatividade e a reatividade do computador os fazia ter a sensação de companhia, mesmo tendo escrito os códigos da máquina. Com o tempo, aquela sensação de conexão se tornou “democratizada”. Programas se tornaram opacos: quando estamos em nossos computadores, a maioria de nós só lida com a superfície (convocamos ícones da tela para atuar como agentes). Temos o prazer de perder o controle dos mecanismos atrás deles. Os programas se tornam quase companheiros das pessoas; agentes online e robôs sociáveis são projetados para nos convencer que são os companheiros adequados para o dia a dia. Porém, previsivelmente, nosso envolvimento emocional é confortado por objetos que simulam “emoções”, ou seja, segundo Sherry, colocamos os robôs em um terreno de significado, mas eles (os robôs) não sabem o que dizer realmente. Eles não querem dizer absolutamente nada, afinal, agem conforme suas programações. “E se a gente começar a vê-los como “reais” o suficiente para os nossos propósitos?”, questiona Sherry. Questões morais envolvendo os companheiros robóticos irão surgir a todos os instantes, não apenas como uma forma de “curar” a solidão dos idosos, mas amenizar os arrependimentos de suas famílias.

[1] O verbo “to care” possui dois significados em inglês, um seria “se importar” e o outro “tomar conta\cuidar”.

Texto: Marcel Ayres

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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