Cada vez menos registro, e não menos fotografia

O Instagram tem um novo aplicativo de compartilhamento de fotos e vídeos, o Bolt. A novidade, disponível para Android e iOS, chega inicialmente a três países: Nova Zelândia, Singapura e África do Sul. A opção inicial por estes foi para testar a performance do Bolt antes de chegar a mercados maiores e mais exigentes, como os Estados Unidos e a Europa.

bolt

A aposta é pela comunicação entre duas pessoas, já que o aplicativo não permite enviar fotos ou vídeos para vários contatos ao mesmo tempo. Além disso, os contatos do Bolt são alimentados pela agenda do aparelho. Para o envio de conteúdo, basta tocar uma vez para foto e manter pressionado para vídeo. Caso o usuário se arrependa do envio, é necessário sacudir o telefone para cancelar.

Embora o Instagram já possua a função de troca de fotos e vídeos privados, através do Instagram Direct, esse serviço, porém, se diferencia na sua funcionalidade por causa da velocidade de compartilhamento. Enquanto o Instagram Direct não requer resposta imediata, Bolt pretende engajar os usuários de forma muito mais ativa – se assemelhando ao Snapchat, possivelmente o seu principal concorrente.

O lançamento do Bolt, assim como a popularização do Snapchat nos últimos meses, traz elementos para discutirmos justamente algo que, no senso comum, sempre prevaleceu na compreensão que se faz da fotografia enquanto um objeto da ordem de um registro.

O registro fotográfico

Ao aparecer com o processo de industrialização e associado ao seu caráter mecânico, a fotografia se tornou a imagem da sociedade industrial, sendo percebida como a mais adequada para registrá-la , servir-lhe de ferramenta e atualizar seus valores. Essa capacidade de registrar algo seria importante nesse momento histórico, no qual a sociedade se interessaria pelas imagens como artefatos desse passado – do “isto foi”, como caracterizou Barthes em sua obra A Câmara Clara.

Nesse sentido, as imagens, ao ser facilmente reproduzidas e guardadas, adquiriram um valor documental, embora tal valor seja passível de muitas críticas. Sendo uma das funções do documento justamente arquivar, Rouillé – em sua obra A Fotografia: Entre Documento e Arte Contemporânea – acredita que o valor documental seja característico da modernidade, em decorrência do processo de industrialização que os grandes centros à época passaram.

A fotografia como compreendemos apareceu em substituição às máquinas manuais. Essas imagens seriam resultantes dessa passagem da ferramenta para a máquina e da oficina para o laboratório; o que, no campo das imagens, teríamos a substituição da pintura (figurativa) para a fotografia, em função da crença em sua exatidão e em sua verdade na forma de se retratar das pessoas, de se criar registros.

Levando em consideração esses aplicativos, temos um uso que se opõe a uma preocupação com os registros fotográficos, pois a própria lógica do uso opera em um apagamento das imagens: o aplicativo não salva as imagens no dispositivo móvel e os usuários se representam através dessa lógica do instantâneo cada vez mais instantâneo, de uma imagem que não será mais vista após um curto período de exibição.

Não ser possível salvar essas fotos é assim um dado importante, para além de uma deficiência técnica do Bolt ou do Snapchat. Esse tempo de vida menor não parece ser também um problema para quem faz uso. Os usuários poderiam se valer de alguns artifícios para conseguir “fixar” essas imagens, inclusive; como fazer uma reprodução da tela, uma função presente nos computadores e que os dispositivos móveis também se apropriaram. Mas a questão aqui colocada é: quem de fato vai se preocupar em fazer essa captura?

A fotografia não se diminui com sua incapacidade de registrar; do contrário, se liberta de um valor que foi historicamente construído de forma errônea. E são os próprios usuários dessas redes de compartilhamento digitais que estão colocando à prova essa percepção atribuída há mais de cem anos.

Vitor Braga

Jornalista, professor da Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia.

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