Bolhas de privacidade?

Voltando ao tema da privacidade nos ambientes digitais e às valiosas contribuições da pesquisadora Danah Boyd que recuperamos no post anterior, podemos agora indagar: o que realmente muda na exposição de si em rede? Para além do discurso de pânico moral que antecipa (e promove) uma suposta morte da privacidade, esta discussão merece ser delicadamente revirada para que possamos melhor visualizar as transformações de nossa época.

Podemos dizer que quase toda relação social exige um certo grau de exposição de si. Uma conversa na fila do ônibus, um papo entre amigos, um início de namoro, um cantada, uma nova turma de amigos no trabalho, uma ida ao médico, um solicitação de empréstimo no banco, uma entrevista de emprego etc. A lista de situações é quase infinita e o inverso é mais difícil de encontrar: em quais situações sociais não precisamos revelar algo sobre nós mesmos para manter a interação?

Mais difícil do que apenas pleitear o fim dos limites privados, nos parece vital prestar mais atenção para estes limites imaginários que criamos justamente para dar vida à também imaginada diferenciação dos espaços públicos e privados. Podemos dizer que historicamente a arquitetura e a geografia ancoravam os limites de exposição de uma conversa, de um ato ou performance. As paredes e as distâncias faziam mais nítidas as segregações de públicos e de contextos. A altura da voz, a escolha dos  interlocutores, a escolha do “lugar certo” para “certos assuntos”, a codificação da escrita e das mensagens eram algumas das maneiras possíveis de gerenciar os limites e os graus de exposição de si (e da relação). Já nas interações que ocorrem nas redes digitais, vale destacar a singularidade apontada por Boyd ao afirmar que se antes os conteúdos compartilhados nas interações eram  privados por padrão, agora são públicos por padrão e privados através de esforço. Esta afirmação nos parece muito justa quando comparamos os limites arquitetônicos e geográficos com os limites fluidos das redes digitais.

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O maior desafio parece ser justamente a elasticidade dos limites e sua fragilidade quando pensamos que os contextos e grupos de relacionamento podem ser todos sobrepostos em sites de redes sociais. O chamado “contexto colapsado” nos ambientes digitais faz com que os limites entre grupos diferentes como a família, colegas da escola, amigos distantes, namorados e colegas de trabalho se encontrem num mesmo ambiente de interação. É fato que uma interação registrada em um perfil em site de rede social pode ser muito mais acessível e pública do que a mesma interação na mesa de um bar. Porém, não podemos reduzir as questões de privacidade à amplitude das audiências ou dos espaços nos quais ocorrem as exposições de si. Lembrando que a exposição de si é elemento indispensável no desenvolvimento de diferentes tipos de relações, ela também o é na formação da própria identidade. Para que possamos nos reconhecer como nós mesmos, precisamos nos projetar para os outros e então lidar com as aprovações e reprovações sociais que recebemos em cada contexto. Que a exposição de si em sites de redes sociais nos expõem de forma muito mais ampla do que a mesma conversação numa sala dentro de casa ou na calçada da rua sem saída do bairro, isto nos parece evidente, mas de forma alguma atesta um suposto fim da privacidade para dar lugar à publicização plena das interações e da vida.

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Como já apontava há décadas as pesquisas de Goffman sobre as diferentes formas de auto-apresentação e sobre as estratégias de gerenciamento das impressões, toda exposição de si é feita a partir de escolhas. Escolhemos não apenas o que, onde, e para quem nos apresentamos, mas elegemos ainda linhas de atuação. Cada aspecto de si que é destacado leva  ao ocultamento de outros. Mesmo se os sites de redes sociais registram e deixam disponíveis os conteúdos para buscas futuras, a exposição é sempre pontual e contextual. Dificilmente temos a exposição “completa” em uma mesma interação e mesmo considerando que as diferentes exposições nos ambientes digitais podem ser “remontadas” ao colarmos os diferentes blocos, ainda assim nos pareceria prematuro afirmar o fim da privacidade. Como apontado nas pesquisas sobre self-disclosure, privacidade e exposição de si se opõem em uma relação simbiótica, já que a privacidade é uma condição necessária para proteger ou ser revelada através da exposição de si (Petronio, 2002).

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Pensando nos ambientes digitais, poderíamos dizer que criamos bolhas de privacidade ao escolher certas plataformas para certas exposições? Não são as conversas “in box” ou no Whatsapp bolhas que se cruzam com algumas das bolhas do perfil do Facebook e demais serviços na nuvem? Mesmo que se cruzem e fiquem registradas, as composições parecem sempre híbridas, criando e recriando bordas que delimitam as exposições em cada interação. Como bolhas que se fundem se transformando, a fusão das diferentes exposições acabam gerando um outro elemento que não coincide talvez com o que era no início da trajetória. E se a exposição de si é também exposição para si, reflexivamente, este vai e vem entre exposições e preservação, o encurtamento e a extensão de limites para o compartilhamento de informações pessoais não parece ser um processo que tenha fim, até por que temos sempre novas experiências para colocar em comum, comunicar, e novas paisagens na trajetória que seguimos.

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Temos algumas evidências de que estas bolhas estão cada vez maiores, cobrindo maiores volumes de informações e maiores audiências, sendo cada vez mais perenes, subindo para as nuvens sem estourar…mas dificilmente podemos dizer que revelam tudo. Mesmo se fosse possível tudo expor, ainda assim seria muito difícil aos públicos terem acesso aos sentidos dos aspectos revelados, ou então refazer as trajetórias das bolhas em pleno voo. Ainda que fosse possível a publicização total de informações pessoais, os sentidos e significados restariam privados quando longes o suficiente do contexto nos quais as experiências reveladas foram vivenciadas. Observar a suave dança dos limites das bolhas voando pelas redes digitais pode nos ajudar a entender um pouco mais sobre as novas configurações do que conhecemos como privacidade e sua importância nas paisagens contemporâneas. A ver quais rastros recuperaremos destas tortuosas trajetórias.

 

 

 

Rodrigo Nejm

É psicólogo pela Universidade Estadual Paulista UNESP/Assis-SP, doutorando em psicologia social no Programa de Pós Graduação da UFBA e mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pelo CIAGS/UFBA. Realizou intercâmbio acadêmico na graduação para estudar “Médiation Culturelle et Communication” na Université Charles de Gaulle Lille 3, França. Atualmente é psicólogo e diretor de educação na ONG Safernet Brasil, responsável pela criação de materiais pedagógicos, pesquisas e campanhas educativas sobre Direitos Humanos e governança da Internet no Brasil. Tem interesse de pesquisa nas interfaces da psicologia com a comunicação, privacidade e sociabilidade de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.

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