Big data e visualizações de interações

No livro Big Data, os autores Viktor Mayer-Schönenberger e Kenneth Cukier abordam a crescente capacidade de coleta, classificação e análise de dados tendo em vista, dentre outros elementos, os ambientes e as ferramentas digitais hoje amplamente disponíveis. Uma das tendências apontadas diz respeito a, potencialmente, tudo vir a ser transformado em dado, por vezes de modo quase instantâneo e sem a necessidade de um plano de coleta a longo prazo. Nesse sentido, até as nossas interações poderiam ser capturadas e codificadas, especialmente aquelas transcorridas nas ambiências de rede social hoje vivenciadas. Como explicam os autores:

As plataformas de rede social não apenas nos oferecem um caminho de encontrar nossos amigos e manter contato com eles; elas tomam elementos intangíveis do nosso cotidiano e os transformam em dados que podem ser utilizados para outras novas coisas.

Um dos exemplos, claro, é o Facebook. As relações transcorridas em seu sistema são coletadas, armazenadas e geram, como resultados das interações entre seus usuários, dados que podem ser observados de modos diversos – a exemplo do social graph, ou busca social, como é chamado o recurso em português. Outro exemplo trazido recentemente aqui no blog são os recursos de visualização das dinâmicas do Instagram.

Se tudo, como dizem os autores, é virtualmente capaz de gerar dados, não será objetivo deste post contra-argumentá-los. Há questões preocupantes, claro, em relação ao que chamam de dataficação – essa coletânea compulsiva e perene de dados – como aquelas que tocam a privacidade. Mas sem nos atermos a esses pontos, traremos aqui exemplos de como nossas interações, especificamente elas, têm gerado conjuntos de dados impressionantes e bastante reveladores sobre nós mesmos.

Watchdogs

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Watchdogs é um mapa interativo que exibe dados espacias de três cidades europeias: Paris, Londres e Berlim. Mas a espacialidade posta na tela não se remete a questões geográficas exatamente. Os dados exibidos vêm de diferentes fontes e dizem respeito, prioritariamente, aos aspectos de sociabilidade que podemos enxergar na cidade. Estão lá informações sobre facilidades urbanas, como banheiros públicos ou linhas de ônibus, mas não apenas: também encontramos camadas de dados relativos a interações mediadas por dispositivos móveis, como tweets do Twitter, check-ins do Foursquare e fotos do Instagram e do Flickr. Impressiona visualizar as camadas de dados e suas distribuições ao longo das cidades.

Hell is other people

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Baseado no Foursquare, Hell is other people (HIOP) é uma espécie de plugin para o aplicativo dos check-ins. A partir das informações coletadas sobre seus amigos próprios amigos, o HIOP exibe zonas do território pelas quais não se deve passar se alguém quiser justamente evitar o contato com seus conhecidos. É interessante perceber que, baseado em laços e interações, o HIOP propõe precisamente o contrário: a não-interação. E é bastante curioso que, de uma forma ou de outra, os dados aglutinados no mapa consigam revelar gostos e posicionamentos sociais, pelo menos daqueles mais próximos.

Immersion

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Immersion é um projeto do MIT que permite a visualização de todas as interações ocorridas no Gmail. Concedendo acesso à ferramenta, ela acessa sua conta e rastreia todas as mensagens trocadas, realizando um imenso histórico e criando grafos impressionantes de nossas relações. É facilmente perceptível, por exemplos, os grupos de amizade, de estudo e de profissão, dentre outros, bem como as formas como eles se ampliam ou enxugam ao longo do tempo. Parece uma ótima maneira também de fazer resgates de memória pessoal. Tarcízio Silva, que já passou aqui pelo GITS, fez um ótimo post sobre como os gráficos gerados por sua conta puderam remetê-lo a momentos específicos de sua vida.

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Como já dito, não é escopo desse post tecer críticas à abordagem de Mayer-Schönenberger e Cukier. Há muito o que se discutir, claro, mas as questões pertinentes têm seu tempo e espaço. O que parece ficar mais claro, se os autores apontam para a direção certa, é que mecanismos como esses apresentados, ao criarem modos de visualização baseados em interações sociais, podem jogar certa luz às formas de auto-apresentação, de gerenciamento da impressão e manutenção (ou não) de laços. Por si só não parecem ter qualquer capacidade de apreender os significados que possuem nossas ações, mas aí caberia a analistas e pesquisadores tal compreensão. No fim das contas, observar como nos dispomos, como nos movimentamos, o que agregamos como informação e o que (ou quem) evitamos são pontos que parecem, pelo menos em princípio, ficar mais às claras com tais visualizações.

Para mais informações sobre o livro, acompanhe as resenhas no blog do Lab404, onde ele vem sido discutido.

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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