As redes que não te fazem esquecer

Vários autores vão discorrer sobre como as fotografias estariam alterando a concepção que teríamos da nossa vida privada, pelo fato da mesma servir como um vetor para nossas expressões e representações, individuais e coletivas. Nesse sentido, parte de nossas ações cotidianas passariam a assumir um caráter de ações a ser compartilhadas, tendo em vista a facilidade que teríamos em possuir dispositivos produtores de imagens.

Não por acaso, o ato de compartilhar é reflexo de uma características importante das redes sociais na internet, que seria a exposição de si, fruto de uma “demanda” pelo olhar do outro – como um meio de legitimação desta “intimidade” que se dá a ver, como sugere Fernanda Bruno em seu artigo Quem está olhando? Variações do público e do privado em weblogs, fotologs e reality shows (2005).

Por outro viés, pensar nessas imagens compartilhadas envolveria também questionarmos se a fotografia digital permitiu uma maior ou menor controle sobre as imagens pessoais, visto que a circulação dessas imagens podem fugir do nosso alcance no momento em que a imagem foi postada em alguma rede que, por conseguinte, poderá reproduzi-la e dar novo sentido para outras redes.

É nesse ponto que a questão se complexifica. Isto porque conforme Sherry Turkle, em seu livro Alone Together, um dos aspectos resultantes do nosso engajamento em redes sociais na internet é ter que lidar com algo até então incomum: com relações cujo o ciclo natural da vida já havia nos facilitado, nos forçado ou nos levado a esquecer. Tratam-se daqueles ex-amigos, ex-colegas, ex-namorados… pessoas que o tempo e a distância fez nos separar quase que para sempre.

Porém, a possibilidade de resgatar essas pessoas nos sites de redes sociais faz com que o indivíduo tenha que lidar com redes e relações diversas, muitas vezes indesejadas. No caso das imagens, é quase inevitável ser marcado ou citado nas postagens daquelas fotografias antigas, que expõem essas redes esquecidas até então, mas que nesse momento são criados novos enquadramentos e discussões em torno dessas conteúdos.

As fotografias, uma vez destinadas a permanecer em arquivos pessoais, cada vez mais entram no domínio público, onde são invariavelmente re-significadas para servir nas narrativas contemporâneas. Extrapolando os limites de outrora desses arquivos, teríamos uma mudança do que pode ser visto, registrado, discutido e lembrado, tornando a visualização da vida pública e privada ligada a relações de poder, conhecimento e autoridade.

Nesse sentido, constrangimentos vão surgindo: inimizades postas lado a lado, ex-namoradas e ex-namorados, contatos de vários contexto que você não gostaria de ter de retornar alguma relação. Algo restrito anteriormente às celebridades, com o resgate de imagens antigas das publicações, mas que agora torna qualquer pessoa refém dessas redes que te insistem em lembrar – ou que não te fazem esquecer.

Vitor Braga

Jornalista, professor da Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia.

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