As fotos do Enem: entre o crime e a exposição de si

O Ministério da Educação (MEC) informou que foram registrados 36 casos de estudantes que publicaram nas redes sociais fotos dos locais de prova nos dois dias de realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). As postagens ainda estão sendo investigadas, podendo ocorrer novas eliminações durante a semana em virtude do trabalho de monitoramento em curso. No primeiro dia, 24 estudantes foram eliminados; no segundo, foram 12.

No Instagram, algumas fotos que foram publicadas no sábado (26), primeiro dia de prova, chegaram a ser replicadas. As fotos mostram supostas imagens do cartão de resposta e partes do caderno de prova. Como a imagem abaixo.

enem instagram

Nas descrições das imagens, textos como o de um usuário que publicou a foto de suposto trecho da prova com a legenda: “Ainn #nervoso chegou o momento que tanto esperei… me preparei o ano todo e hora de mostra para que vim!! Boa sorte a todos (menos pra quem vai fazer medicina rsrs) #enem #pronto #deusmeajude #foco #força”.

Pelas regras do Enem, não é permitido o uso de eletrônicos no local de prova, nem postar fotos do exame. A regra se assemelha com o uso de dispositivos de registro de imagens durante as eleições: é proibido fotografar a urna no momento do voto; nesse caso o argumento é para se evitar fraudes ou votos no qual o eleitor depois precise prestar contas ao seu candidato.

Mais uma vez, os usuários se deparam com uma legislação que procura proteger a lisura do processo, embora o ato de postar imagens decorra de uma busca por compartilhar momentos importantes – ou frustrantes – da vida desses jovens usuários das redes sociais na internet. Entre o crime e a exposição de si, o jovem desconsidera o primeiro e não percebe o perigo que uma possível abertura ao uso de dispositivos móveis pode ter em um processo onde milhões de pessoas disputam por vagas em universidades bastante concorridas.

A auto-representação, assim, vira uma questão de conflito de interesses no momento em que ser visto por aqueles que acessam o seu perfil na web em uma determinada situação solene – “o dia da grande prova” – pode ser também um mecanismo para fraudes em um processo seletivo.

Vitor Braga

Jornalista, professor da Universidade Federal de Sergipe e doutor em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia.

More Posts - Website

Follow Me:
Twitter

Deixe um comentário